A nova fase da seleção brasileira, sob a liderança de Carlo Ancelotti, inicia-se em um contexto que merece atenção, mas também requer cuidado nas avaliações. Apesar de suas convocações para a Data Fifa de setembro/outubro, Endrick e Estêvão, dois dos grandes talentos da nova geração ofensiva do futebol brasileiro, estão enfrentando pouca utilização em seus clubes.
O atacante Endrick soma apenas quatro minutos no Real Madrid nesta temporada, enquanto Estêvão, pelo Chelsea, acumulou 148 minutos em seis jogos. A diferença em termos de espaço é mínima: ambos estão em busca de uma sequência que lhes permita obter maior protagonismo na Europa.
Essa realidade levanta uma indagação em relação à Seleção. A escassez de oportunidades e ritmo pode impactar o desenvolvimento de ambos os atacantes, o que poderia prejudicar os planos de Ancelotti?
No entanto, essa resposta não se baseia somente na quantidade de minutos jogados. É fundamental considerar o que Endrick e Estêvão já representaram pela Amarelinha, o estágio de suas carreiras e, principalmente, o atual processo de construção da equipe brasileira após a Copa do Mundo.
A convocação também é uma mensagem do treinador. Mesmo sem sequência nos clubes, a dupla permanece no radar de Ancelotti, que terá três partidas — duas contra a Austrália e uma contra a Índia — para avaliar como eles se adaptam ao novo ciclo. Mais do que buscar respostas definitivas, o italiano está focado em observar quais jogadores se encaixam em sua estrutura e em que funções podem atuar.
Estêvão e Endrick: potencial na Seleção versus escassez de espaço nos clubes
Estêvão se lamenta durante jogo do Chelsea (Foto: Paul Terry / Sportimage / IMAGO)
As trajetórias recentes dos dois fornecem uma perspectiva sobre o problema. Estêvão, que perdeu a Copa por conta de uma lesão, retorna à Seleção em um momento em que ainda busca seu espaço no Chelsea. Desde a chegada de Xabi Alonso em julho, o atacante participou de seis jogos, sendo titular em apenas dois. É um número baixo para um jogador que precisa transformar seu talento em regularidade no futebol europeu, embora seja prematuro para formar conclusões sobre sua relação com o novo treinador.
Estêvão já mostrou pela Amarelinha algumas características que o tornam uma das principais apostas brasileiras para o futuro. O ex-jogador do Palmeiras possui a capacidade de encarar defensores no um contra um, criar soluções em pequenos espaços e gerar jogadas a partir de sua individualidade.
Não se trata apenas de um atleta que ganhou destaque por suas exibições nas categorias de base. Há um histórico recente com a Amarelinha que justifica sua presença no planejamento, mesmo com sua ausência no Mundial.
No Chelsea, contudo, a competição por espaço é outra realidade. O jogador deve convencer Xabi Alonso a cada dia, adaptar-se às ideias do técnico e aproveitar as oportunidades que surgem. Em coletiva da Seleção, Estêvão destacou que não deseja transformar sua baixa utilização em um problema público.
— Acredito que cada técnico tem seu estilo de jogo. Certamente, trabalho todos os dias, me dedico ao máximo e é isso que faço. Temos jogadores de qualidade no Chelsea, então, o que posso fazer é focar no que controlo, dar meu melhor nos treinos, e quando sou chamado, faço o meu melhor. A cada oportunidade, busco aproveitar ao máximo, controlo tudo que posso e deixo o restante nas mãos de Deus. Confio muito em mim também — disse.
E quanto a Endrick?
Endrick no banco de reservas do Real Madrid (Foto: Cesar Cebolla / Pressinphoto / IMAGO)
Endrick enfrenta uma situação ainda mais complicada. Após uma primeira temporada no Real Madrid com sete gols em 37 jogos sob o comando de Ancelotti, o atacante foi emprestado ao Lyon, onde se destacou na temporada 2025/26. No entanto, ao retornar ao Santiago Bernabéu, praticamente não foi considerado por José Mourinho neste início de temporada.
A falta de sequência limita as chances de evolução através de jogos, mas não exclui o que o atacante já mostrou em nível profissional. A Seleção também reconhece esse potencial.
Endrick foi convocado para a última Copa do Mundo, mas teve poucas chances durante a competição. Quando entrou em campo, não conseguiu causar o impacto desejado, mas seu desempenho com a Amarelinha antes do Mundial já havia evidenciado características que o qualificam para a disputa da camisa 9: força para atacar a área, velocidade, boa capacidade de finalização e uma presença ofensiva que vai além de aguardar a bola na área.
Dessa forma, tanto Endrick quanto Estêvão chegam à Seleção devido ao mesmo motivo que gera preocupação em relação à sua escassa minutagem: são jovens em processo de consolidação na Europa, mas que despertam expectativas pelo que já mostraram no Brasil e com a própria Amarelinha.
A diferença reside no momento atual de cada um. Enquanto Endrick tem sido quase sempre ausente das partidas do Real Madrid, Estêvão ainda encontra algumas oportunidades no Chelsea.
Para Ancelotti, essas situações demandam acompanhamento individual e não necessariamente uma resposta padrão.
O impacto na Seleção e os planos de Ancelotti
Carlo Ancelotti durante jogo da seleção brasileira (Foto: Nicolo Campo / IMAGO)
A preocupação com a escassez de minutos é válida, principalmente porque o futebol de seleção não oferece o mesmo tempo para trabalho que um clube. Ancelotti terá um tempo limitado para implementar suas ideias e preparar a equipe. Nesse contexto, jogadores que chegam com ritmo competitivo costumam apresentar respostas mais imediatas.
Não é apenas uma questão de condicionamento físico: a sequência de jogos também afeta a tomada de decisão, a intensidade, a confiança e a capacidade de realizar movimentos sob pressão.
Entretanto, considerar a baixa utilização como um obstáculo intransponível para a Seleção neste momento seria um exagero. O ciclo pós-Copa começa agora e Ancelotti possui uma sequência de compromissos que possibilita uma maior observação dos jogadores.
A convocação de Endrick e Estêvão demonstra que o treinador não pretende aguardar até que todos os jogadores estejam em seus melhores momentos nos clubes para começar a avaliá-los. Existe uma diferença significativa entre reconhecer a falta de ritmo e afirmar que isso inviabiliza a participação de um atleta.
A confiança que Ancelotti demonstra também pode ter um peso relevante. Estêvão mencionou que ele e Endrick estão cientes de que não têm recebido muitas oportunidades em seus clubes, mas veem a convocação como uma chance de responder a esse momento. O reencontro deles também resgata uma parceria construídas desde as categorias de base do Palmeiras, agora em um cenário totalmente diferente e com responsabilidades ampliadas.
— Temos uma amizade muito forte, nos consideramos irmãos, jogamos muito tempo nas categorias de base do Palmeiras e um pouco na Seleção. É uma grande responsabilidade estar aqui, porque queremos aproveitar. É uma experiência incrível estar aqui desde jovens. Sabemos que não temos tido muitas chances em nossos clubes, mas saber que Ancelotti confia em nós é uma motivação para melhorar, tanto no clube quanto aqui — comentou.
Assim, para Ancelotti, o foco não é apenas fazer com que Endrick e Estêvão acumulem minutos na Seleção para compensar a falta de jogos em seus clubes. As partidas contra a Austrália e a Índia — assim como as seguintes — servirão para entender como os dois se encaixam nas propostas do treinador, quais funções podem desempenhar e como podem competir por espaço ao longo do ciclo. A quantidade de minutos jogados será um fator nessa avaliação, mas não o único.
A preocupação surgiria se a falta de oportunidades se tornasse uma norma prolongada. Se Endrick continuar praticamente ausente da rotação do Real Madrid e Estêvão permanecer com participações esporádicas no Chelsea, a Canarinho terá cada vez menos referências recentes sobre a evolução competitiva da dupla. Para jovens jogadores, a experiência acumulada em partidas de alto nível é uma parte fundamental do processo de formação.
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