Estadão Rondônia - Sua fonte de notícias na cidade de ...

Sabado, 04 de Julho de 2026

Mundo

África do Sul: milícias ameaçam imigrantes e expõem falhas do governo

Movimentos xenófobos crescem no país impulsionados por desemprego, corrupção e falhas do Congresso Nacional Africano nos serviços públicos

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
África do Sul: milícias ameaçam imigrantes e expõem falhas do governo
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

A África do Sul enfrenta uma grave crise migratória, marcada pelo avanço de movimentos xenófobos e pela atuação de milícias que intimidam estrangeiros nas ruas.

Grupos organizados têm invadido hospitais para impedir o atendimento de imigrantes e batido em residências exigindo que estrangeiros abandonem o país.

A situação ganhou contornos ainda mais alarmantes com a imposição de um prazo, fixado para o dia 30 de junho, por parte dessas milícias para que os imigrantes deixassem o território sul-africano.

Leia Também:

Segundo análises, a crise não envolve agentes do Estado, mas grupos com motivações políticas que atuam de forma organizada e violenta.

Leia Mais

  • Entenda o que está por trás dos protestos anti-imigração na África do Sul

    Entenda o que está por trás dos protestos anti-imigração na África do Sul

  • Imigrantes tiveram direitos violados nos EUA e enfrentam "limbo", diz HRW

    Imigrantes tiveram direitos violados nos EUA e enfrentam "limbo", diz HRW

  • Veja outras gangues da América Latina classificadas como terroristas

    Veja outras gangues da América Latina classificadas como terroristas

O movimento anti-imigração e suas raízes

O ressurgimento do movimento conhecido como “March and March” (Marche e Marche, em tradução livre), que apela à deportação em massa de imigrantes indocumentados, reflete um sentimento social alimentado por décadas de problemas estruturais não resolvidos.

Carlos Henriques, especialista ouvido no programa Fora da Ordem, explicou que o fenômeno “já vem desde Mandela, desde a transição do regime do apartheid para uma nova dispensação democrática”.

Para ele, o movimento carrega “uma agenda também de violência xenófoba, que é, na sua parte, também racismo”.

Estima-se que cerca de 3 a 4 milhões de imigrantes vivam na África do Sul, muitos deles sem documentação regular. Eles vêm de países como Moçambique, Zimbábue, Malawi, Botsuana e Uganda, nações que, segundo a análise apresentada no programa, receberam apoio de Mandela em reconhecimento à solidariedade demonstrada durante a luta contra o apartheid.

Falhas do Congresso Nacional Africano e deterioração dos serviços públicos

Carlos Henrique apontou que as tensões sociais têm raízes profundas nas falhas do ANC (Congresso Nacional Africano) em resolver problemas estruturais desde o fim do apartheid.

“O ANC como governo, como partido político, não conseguiu de facto mostrar essa capacidade de resolução na prestação dos serviços mais básicos, quer de saúde, água potável, eletricidade e tudo o resto”, afirmou.

O desemprego entre os jovens supera 45% em um país com 62 milhões de habitantes, majoritariamente jovem.

A corrupção e o enriquecimento de elites que se tornaram, nas palavras do especialista, “predadoras” também figuram entre os fatores que alimentam o descontentamento.

Carlos Henriques destacou ainda que o ANC “ofereceu maior volume de dinheiro através da corrupção do que os outros [movimentos da África Austral], em menos tempo”, e que o partido transformou o Estado “em várias empresas privadas”.

Economia informal e percepção popular

Outro elemento central da crise é a transformação da economia sul-africana.

Segundo Carlos Henriques, as políticas do ANC converteram uma economia industrializada em uma economia predominantemente informal.

Nesse contexto, imigrantes, especialmente somalis, zambianos e zimbabuanos, destacam-se na economia informal, o que alimenta a percepção popular de que “eles vêm para retirar os nossos empregos”.

“Eles já não têm emprego, mas precisam de capitalizar e de ganhar a vida”, explicou o especialista, ressaltando que a economia informal já representa um volume de um trilhão de randes.

Carlos Henriques também chamou atenção para o fato de que a classe média negra criada pelas políticas de redistribuição “não criou valor, não criou emprego e, portanto, não criou desenvolvimento econômico”.

Para ele, a questão migratória é utilizada politicamente como instrumento de mobilização popular, enquanto os problemas estruturais reais, desemprego, saúde pública precária, corrupção e crime organizado, permanecem sem solução.

“Os imigrantes são a causa real desses problemas?”, questionou, indicando que as acusações contra o regime atual “têm todo o mérito e já vêm de trás, não foram resolvidas”.

FONTE/CRÉDITOS: afonsobenites
Comentários:

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!