O Banco Central foi bem-sucedido na calibração do comunicado divulgado após a mais recente reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) nesta quarta-feira (29), que decidiu reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto. A avaliação é de Alex Lima, da DA Economics, que destacou a cautela como palavra-chave do momento, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.
Segundo Alex Lima, o comunicado do Copom trouxe uma novidade em relação à reunião anterior: a menção à extensão do conflito geopolítico como variável de risco.
“Quando o conflito estourou em 28 de fevereiro, parecia que poderia ser uma coisa muito curta. E a gente fez aniversário de nove semanas agora”, afirmou. Para ele, essa duração já começa a ser incorporada nos modelos dos bancos centrais ao redor do mundo.
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O especialista ressaltou ainda que o ambiente externo se tornou significativamente mais restritivo desde o início do ano. No começo de 2025, o mercado precificava cortes de juros nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. Hoje, o cenário é oposto.
“Nos próprios Estados Unidos tinha a expectativa de 3 cortes de juros. Agora a gente não tem nenhuma”, observou o economista, acrescentando que há expectativa de três altas nos bancos centrais europeu, britânico e japonês.
Esse movimento global de aperto monetário coloca os banqueiros centrais em posição delicada, especialmente com o petróleo tipo Brent atingindo máximas próximas de 119 dólares no dia da decisão do Copom.
Alex Lima também comentou a decisão do Fed (Federal Reserve), que manteve os juros americanos inalterados, e os quatro dissensos registrados na votação, incluindo um tipo inédito de divergência relacionado ao viés do comunicado.
Para o especialista, os detalhes sobre a dinâmica interna do Copom só ficarão mais claros com a publicação da ata da reunião, especialmente diante da ausência de três diretores na votação — dois por vagas não preenchidas e um por motivo pessoal.
Inflação de serviços e mercado de trabalho no radar
No front doméstico, Lima destacou que a inflação de serviços segue como principal preocupação do Banco Central. De acordo com ele, esse componente está diretamente ligado à massa salarial e ao nível de emprego.
“A inflação de serviços é basicamente massa salarial. Então, quanto a taxa de desemprego for nesse nível historicamente baixo, a gente tem um pouco de pressão”, explicou.
A taxa de desemprego registrada pelo Caged foi de 5,8%, próxima da mínima histórica da série, o que reforça a resiliência da atividade econômica brasileira.
O especialista alertou ainda para os riscos de segunda ordem relacionados ao choque de commodities. Segundo Lima, simulações realizadas pela DA Economics indicam que a inflação de alimentos poderia atingir patamares similares aos observados durante o conflito entre Rússia e Ucrânia, quando chegou a 14% no Brasil e a 9% nos Estados Unidos.
“Não estamos lá, mas depende da extensão desse conflito”, ponderou.
Para o economista, a decisão do Copom de manter um comunicado neutro, sem sinalizar claramente os próximos passos, foi acertada diante de um cenário “extremamente fluido”, e não deve gerar grandes surpresas para os mercados no pregão seguinte.
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