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Sexta-feira, 17 de Abril de 2026

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Cientistas no alvo: como EUA e Israel buscam frear programa nuclear do Irã

Ataques atingem laboratórios e especialistas estratégicos para reduzir capacidades nucleares iranianas

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Cientistas no alvo: como EUA e Israel buscam frear programa nuclear do Irã
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Enquanto a chuva caía sobre o norte do Irã no fim de março, uma multidão em silêncio atravessava as montanhas de Asara carregando o caixão de Mohammad Reza Kia. A pequena cidade, com poucos milhares de habitantes, estava tomada por faixas que homenageavam o jovem cientista nuclear como um “mártir da guerra”.

Pouco se sabe sobre Kia ou sobre as circunstâncias de sua morte. Há duas semanas, sua mãe afirmou em um breve vídeo que ele foi morto em um ataque.

Além de alguns artigos acadêmicos e uma página inativa nas redes sociais, as informações sobre ele são escassas. Sabe-se apenas que foi doutorando em Engenharia Nuclear na Universidade Tecnológica Amirkabir entre 2010 e 2017.

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A morte de Kia, assim como a de diversos cientistas iranianos em diferentes regiões do país, evidencia até onde Israel e Estados Unidos parecem dispostos a ir para limitar a capacidade de Teerã de transformar seu programa nuclear em armamento após o fim da guerra.

Na semana passada, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o país está próximo de atingir seus objetivos no conflito com o Irã, entre eles impedir o desenvolvimento de uma arma nuclear, e indicou que a guerra pode durar mais duas a três semanas.

Apesar disso, o Irã ainda possui centenas de quilos do material essencial para a construção de uma bomba, além de décadas de conhecimento acumulado. Nesse cenário, EUA e Israel buscam enfraquecer justamente essa base técnica ao tentar encerrar o conflito.

Ataques no Irã atingem uma usina nuclear e petroquímicas | AGORA CNN Ataques no Irã atingem uma usina nuclear e petroquímicas | AGORA CNN

Lista de alvos

Ao longo das últimas décadas, o Irã desenvolveu um amplo ecossistema em torno de seu programa nuclear, que inclui universidades, equipamentos especializados e uma cadeia completa — da mineração de urânio ao enriquecimento com centrífugas avançadas e armazenamento do material. Especialistas afirmam que, mesmo que o programa tenha fins pacíficos, o país possui a estrutura necessária para convertê-lo em uso militar, caso decida fazê-lo.

Segundo uma fonte de segurança israelense, toda essa estrutura está na mira.

Dias após o funeral de Kia, um novo ataque atingiu um prédio a cerca de 480 quilômetros de distância, deixando nove mortos — entre eles Ali Fouladvand, pesquisador de uma organização frequentemente acusada por países ocidentais e por Israel de atuar como fachada para o desenvolvimento de conhecimento nuclear com potencial militar.

A entidade, conhecida pela sigla em persa SPND, foi fundada por Mohsen Fakhrizadeh, cientista nuclear que teria sido assassinado por Israel há seis anos. O atual chefe do grupo, Jabal Amelian, morreu na primeira onda de ataques conjuntos de Israel e EUA no fim de fevereiro. Outras figuras importantes vêm sendo alvo desde o ano passado.

“Cada etapa da cadeia nuclear é um alvo — do conhecimento à produção. A ideia é cortar tudo pela raiz”, disse a fonte à CNN. “Desde os cientistas nos laboratórios até as fábricas que produzem componentes.”

Vista da Usina Nuclear de Bushehr, Irã, em 28 de abril de 2024 • Fatemeh Bahrami/Anadolu via Getty Images

Quando EUA e Israel lançaram a ofensiva contra o Irã no mês passado, o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, além de altos comandantes militares e de inteligência, foi morto em uma operação direcionada às principais lideranças.

Israel também intensificou ações contra figuras de menor escalão ligadas ao programa nuclear, ao mesmo tempo em que tenta enfraquecer centros de conhecimento que poderiam sustentar o programa no futuro.

Essa estratégia se ampliou em junho de 2025, com ataques que eliminaram lideranças da força aeroespacial da Guarda Revolucionária — responsáveis pelo programa de mísseis — e também mais de uma dúzia de cientistas e professores, incluindo o físico Mohammad Mehdi Tehranchi.

Segundo a fonte, Israel tem atingido todas as etapas da cadeia produtiva, inclusive setores industriais como siderúrgicas, que poderiam contribuir para reconstruir o programa no futuro.

Universidades também têm sido alvo, assim como a complexa rede de suprimentos necessária para sustentar o programa nuclear.

“Tudo entra na lista: cientistas, laboratórios, arquivos, bibliotecas e até quem poderia substituí-los”, afirmou.

Potencial de militarização

Embora o Irã sustente que seu programa nuclear é pacífico, países ocidentais suspeitam há anos que o país utilize empresas de fachada para driblar inspeções internacionais e desenvolver tecnologias de uso duplo, que podem ser adaptadas rapidamente para fins militares.

Especialistas apontam que o Irã já realizou testes e simulações compatíveis com o desenvolvimento de armas nucleares, indicando domínio técnico suficiente para avançar, se houver decisão política.

Relatórios de inteligência dos EUA dizem não haver evidências de que o país esteja, de fato, construindo uma bomba. Ainda assim, analistas avaliam que o Irã usa sua condição de “estado limiar” — capaz de produzir uma arma — como instrumento de negociação com o Ocidente.

Dentro desse contexto, a SPND teria estruturado uma rede de organizações para desenvolver conhecimento e adquirir tecnologias sensíveis.

“O Irã é o único país sem armas nucleares que enriquece urânio a 60% e ainda usa empresas de fachada para ocultar a aquisição de materiais sensíveis”, afirmou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao anunciar sanções contra a organização.

Vídeo divulgado nas redes sociais em 4 de abril mostra uma densa fumaça subindo sobre uma planta na zona petroquímica de Mahshahr, no Irã, após um suposto ataque aéreo israelense • Reuters

O elemento central de uma bomba

Após a saída dos EUA do acordo nuclear em 2015, durante o governo Trump, o Irã passou a investir em centrífugas mais avançadas, acelerando o enriquecimento de urânio.

O país acumulou um volume significativo de material altamente enriquecido — suficiente, segundo especialistas, para a fabricação de uma arma nuclear.

Mais de 400 quilos desse material estão armazenados, o que gera preocupação internacional. Para uso civil, o nível de enriquecimento não ultrapassa 4%, mas o Irã chegou a 60% após 2018.

Depois dos ataques às instalações nucleares iranianas, o paradeiro desse material tornou-se incerto. Segundo o chefe da agência nuclear da ONU, Rafael Grossi, ele estaria em Esfahan e poderia ser deslocado.

Trump afirmou recentemente que os locais atingidos foram severamente danificados, e minimizou a relevância do material por estar profundamente enterrado.

Antes disso, autoridades americanas chegaram a considerar uma operação para recuperar o urânio, mas nenhuma decisão foi tomada.

O Irã, por sua vez, mantém ambiguidade sobre o tema, embora tenha proposto diluir o material durante negociações anteriores à guerra.

Segundo especialistas, mesmo com os ataques, o país ainda possui capacidade técnica e material suficiente para desenvolver uma arma nuclear simples, caso decida avançar.

“O Irã ainda pode construir uma bomba — depende apenas de decisão política”, disse uma analista. “Se a guerra acabar, isso poderia acontecer em um ou dois anos.”

Regime do Irã não depende da figura de Khamenei, diz especialista

FONTE/CRÉDITOS: afonsobenites
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