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Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026

Saúde e Beleza

Como a dermatite atópica afeta a pele, o sono e a autoestima: tratamentos disponíveis

A dermatite atópica não é apenas uma condição da pele, mas afeta também a saúde mental e a qualidade de vida dos pacientes.

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Como a dermatite atópica afeta a pele, o sono e a autoestima: tratamentos disponíveis
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A dermatite atópica é uma condição de pele que vai além das lesões visíveis, afetando o sono, a saúde mental e a autoestima dos afetados. Em sua forma crônica, a coceira intensa pode gerar feridas, tornando a pele extremamente sensível ao toque. Para muitos, essa é a dura realidade com a qual convivem diariamente.

A estudante de medicina Clara Emery, de 23 anos, relata que já precisou de tratamento com antibióticos devido às feridas em sua pele, que chegavam a estar em carne viva, para evitar infecções. Em crises mais severas, as dores eram intensas, e atividades simples como deitar na cama, encostar no travesseiro ou tomar banho se tornavam fontes de sofrimento. "Tive muitas crises de choro por não saber o que fazer", compartilha a jovem que lida com a dermatite desde a infância.

“Minha mãe diz que eu já tinha dermatite atópica logo após o meu nascimento. Tenho memórias vívidas da infância e da evolução da doença, lembrando dos diversos fatores que a desencadeavam. Foi uma experiência angustiante”, recorda Clara.

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As manifestações da dermatite atópica geralmente ocorrem em áreas de dobras do corpo, como atrás dos joelhos, nos cotovelos e no pescoço. No caso de Clara, a condição se estende também à região ao redor dos olhos, na face e nas mãos, onde a fricção é maior. Ela menciona que os gatilhos podem variar, abrangendo desde alimentos a fatores ambientais como sol, grama, suor, fungos e ácaros.

“Qualquer item como pelúcia, tapetes, cães e gatos me faziam sentir como se fosse alérgica ao mundo. Além disso, períodos de estresse na infância, adolescência e nos primeiros anos da faculdade intensificavam muito a alergia”, explica a estudante, que relembra momentos de isolamento social por medo de que os outros vissem suas feridas.

“Na escola, quando eu tinha cerca de 10 anos, as pessoas perguntavam se eu tinha hanseníase, sífilis ou se era HIV positivo. A quantidade de preconceito era alarmante”, lamenta a jovem, que atualmente recebe um tratamento imunobiológico para controlar as crises severas da doença.

Esse tratamento age diretamente no sistema imunológico, ajudando a regular as reações exacerbadas que ocorrem quando o corpo entra em contato com antígenos. Contudo, o custo é elevado; uma caixa do medicamento ultrapassa R$ 10 mil, valor que, no caso de Clara, é integralmente coberto pelo plano de saúde.

“Já passei por tratamentos com corticóides, usei diversos tipos de pomadas e hidratantes, e tentei opções homeopáticas, mas o que realmente funcionou foi o imunobiológico. Nunca tive tanta tranquilidade para lidar com essa doença, que é extremamente desafiadora”, afirma.

Impacto na qualidade de vida

A dermatologista Rosana Lazzarini destaca que o impacto da dermatite atópica na qualidade de vida é significativo, pois a coceira intensa prejudica o sono e, consequentemente, o desempenho escolar e profissional. De acordo com ela, 40% das crianças que apresentam a condição enfrentarão a doença na idade adulta.

Embora a dermatite atópica seja uma condição não contagiosa, ela carrega um forte estigma social. As marcas visíveis na pele frequentemente levam ao afastamento social e podem ser motivo de bullying.

“O impacto na vida da criança é considerável. Trata-se de uma doença crônica, que exige consultas frequentes, resulta em perda de aulas e afasta socialmente os jovens, impedindo-os de brincar ou participar de festas”, explicou.

Para conscientizar o público sobre a dermatite atópica e combater o preconceito, o dia 23 de setembro foi estabelecido como o Dia Nacional de Conscientização da Dermatite Atópica, conforme a Lei 14.916/24.

 
O médico dermatologista Roberto Takaoka é presidente da Associação de Apoio à Dermatite Atópica (AADA). Foto: Eduardo Ohara Jr/Divulgação

“Os pacientes frequentemente enfrentam problemas de preconceito e bullying devido à falta de conhecimento da sociedade, que erroneamente acredita que se trata de uma doença contagiosa. Neste quadro, campanhas de conscientização são fundamentais. Além disso, é comum que a doença venha acompanhada de distúrbios do sono, depressão e isolamento social”, explica Roberto Takaoka, presidente da AADA.

Conforme ele, as principais solicitações das famílias referem-se à indicação de médicos e tratamentos.

“As famílias muitas vezes buscam soluções rápidas e milagrosas, sem compreender que a dermatite atópica é uma condição crônica, com períodos de melhora e piora, e que, na maioria das vezes, tende a melhorar com o passar do tempo. É crucial ressaltar que a dermatite atópica é uma doença complexa e multifatorial. Além dos aspectos físicos, ela é influenciada por fatores emocionais e sociais”, disse o dermatologista.

A missão da AADA consiste em promover a saúde dos portadores de dermatite atópica por meio da arte, ciência e educação. A associação também oferece grupos de apoio para pacientes e familiares.

A AADA disponibiliza materiais educativos e realiza campanhas de conscientização e podcasts informativos. Também existe um trabalho em conjunto com médicos e outros profissionais da saúde, que também necessitam de conhecimentos sobre a condição.

Crises constantes

 
A jornalista Rayane Lopes, 34 anos, convive com a dermatite atópica desde os 18 anos. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

A jornalista Rayane Lopes, de 34 anos, que reside no Recanto das Emas, no Distrito Federal, compartilha que enfrentou sua primeira crise de dermatite atópica aos 18 anos. “Na primeira crise, que foi bastante intensa, a condição se espalhou por todo o corpo, incluindo a virilha e a barriga. Hoje, quando a doença se manifesta, as lesões costumam aparecer mais na barriga e entre os dedos das mãos.”

Rayane ressalta que as manchas e a coceira intensa costumam surgir em momentos de grande estresse. Após o falecimento de uma pessoa próxima, seu corpo todo ficou coberto por manchas avermelhadas e feridas. “Possuo diversas manchas e cicatrizes no corpo. Quando a situação está crítica, recorro a um corticóide que ajuda”, relata.

Para manejar a condição, ela afirma que evita usar buchas durante o banho e se dedica a hidratar a pele frequentemente. “Coça muito, arde, dói, e abre feridas. Além da medicação, não há muito o que fazer, a não ser esperar a crise passar”, descreve a jornalista, que já passou por situações constrangedoras ao lado de pessoas que não conheciam a dermatite.

“As pessoas têm receio de contrair a doença. Evito vestir roupas que deixem as manchas expostas e sou cautelosa com a exposição ao sol. A dermatite tende a se manifestar em períodos de estresse elevado, portanto, o desgaste psicológico já está presente”, acrescenta.

Diagnóstico clínico

De acordo com a médica da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Rosana Lazzarini, a dermatite atópica não possui uma causa específica, mas fatores genéticos (associados à asma e rinite), ambientais e imunológicos podem contribuir para seu desenvolvimento.

 
A médica Rosana Lazzarini é integrante da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e explica que o diagnóstico da dermatite atópica é clínico. Foto: SBD/ Divulgação

O diagnóstico é realizado clinicamente, uma vez que não há exames laboratoriais específicos para a dermatite.

Durante a avaliação médica, considera-se a presença das lesões cutâneas, a cronicidade, e os períodos intercalados de lesões. A coceira de difícil controle também é um fator importante no diagnóstico. O médico pode eventualmente solicitar exames para complementar o diagnóstico ou para excluir outras condições.

Conforme Rosana, o tratamento se fundamenta em cuidados com a pele, com o uso de cremes e loções hidratantes que ajudam a manter a barreira cutânea. É essencial também que o banho seja rápido, em água morna, utilizando pouco ou nenhum sabonete.

“Alguns medicamentos podem ajudar a controlar a coceira, incluindo o uso de corticosteroides tópicos adequados para cada área afetada. Casos mais graves podem necessitar de imunossupressores orais, como metrotexato ou ciclosporina”, informou a dermatologista.

“A fototerapia com UVB de banda estreita é recomendada para o controle da doença, especialmente para a coceira”, acrescentou.

A médica observa que em situações mais graves, podem ser necessários medicamentos específicos que atuem em componentes do processo inflamatório, embora sejam de alto custo e utilizados quando outras abordagens falham.

A hidratação da pele é um dos aspectos mais críticos do tratamento. A pele excessivamente seca dos pacientes com dermatite atópica requer a aplicação de cremes ou loções de duas a três vezes ao dia, impactando no custo do tratamento para as famílias.

Medicamentos mais modernos e de alto custo ainda não estão disponíveis no SUS, sendo acessíveis apenas na rede privada de saúde.

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