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Quarta-feira, 24 de Junho de 2026

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Como evitar que o excesso de IA enferruje o cérebro

Psicóloga clínica e neuropsicóloga explica por que delegar tarefas cognitivas a ferramentas de inteligência artificial pode comprometer memória, criatividade e pensamento crítico

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Como evitar que o excesso de IA enferruje o cérebro
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Perguntar a um chatbot deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina de milhões de pessoas. Estudantes pedem resumos prontos, profissionais terceirizam rascunhos de e-mails e relatórios e decisões cotidianas. Da escolha de um restaurante a um planejamento financeiro passam por uma consulta rápida a uma ferramenta de inteligência artificial antes de qualquer reflexão própria.

A naturalização desse hábito levanta uma pergunta que especialistas em saúde mental vêm observando com atenção: até que ponto esse uso constante pode comprometer capacidades cognitivas que o cérebro humano levou uma vida inteira para desenvolver?

Para a psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim, formada pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação de Portugal (IPAF), a resposta depende do momento em que a tecnologia deixa de cumprir um papel de apoio e passa a ocupar o espaço do próprio raciocínio.

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Quando a ferramenta substitui o esforço de pensar

Segundo Juliana, o risco existe, mas não é automático. “O nosso cérebro se desenvolve e se fortalece justamente quando analisa informações, faz conexões, questiona, testa hipóteses e busca soluções para os problemas”, explica a neuropsicóloga. Quando esse processo é substituído por respostas prontas com frequência, as habilidades envolvidas nele tendem a ser menos exercitadas.

A especialista descreve esse efeito como um raciocínio mais mecânico e menos reflexivo, resultado direto da velocidade e da automação que esse tipo de ferramenta oferece. Usada em excesso, ela reduz o espaço disponível para a avaliação de diferentes perspectivas e para a construção de conclusões próprias.

A profissional pontua ainda que existe uma camada da cognição humana que nenhuma tecnologia reproduz por completo: a criatividade, formada pela combinação de experiências vividas, emoções, valores e pela forma singular como cada pessoa organiza e interpreta os fatos. Para ela, o problema não está na inteligência artificial em si, mas na forma como ela é utilizada: ferramenta de apoio é diferente de substituta do pensamento.

A “preguiça cognitiva” já é uma realidade

Mais do que um risco hipotético, a neuropsicóloga afirma que esse padrão já está em curso. Segundo ela, o cérebro humano vem demonstrando menos disposição para buscar informações mais profundas, concatenar fatos e sustentar uma leitura mais longa ou uma análise crítica mais elaborada, em favor de respostas rápidas e prontas.

A comparação que Juliana utiliza é de que “o cérebro, assim como o corpo, precisa ser exercitado constantemente“. Assim como o uso prolongado de telas já provocou alterações posturais observáveis no corpo, a especialista argumenta que mudanças equivalentes podem ocorrer na forma como pensamos, aprendemos e nos relacionamos com o conhecimento, com perdas em profundidade de leitura, capacidade de concentração, criatividade, curiosidade e no próprio prazer da descoberta.

As habilidades mais expostas ao desgaste cognitivo

Entre as funções mentais que mais sofrem com a dependência excessiva de tecnologias que “pensam” no lugar do usuário, Juliana destaca cinco. A primeira é a busca ativa por informação: investigar, questionar e aprofundar o conhecimento em vez de apenas receber uma resposta fechada.

A segunda é a criatividade, que depende da capacidade de estabelecer conexões originais entre experiências e ideias diferentes.

A atenção e a concentração aparecem em terceiro, especialmente a habilidade de sustentar o foco durante períodos mais longos, como a leitura de um texto extenso ou tarefas que exigem persistência.

A quarta é a memória, prejudicada pela dependência crescente de recursos externos para armazenar e recuperar informações.

Por fim, o planejamento: a capacidade de estabelecer metas e organizar ações de curto e médio prazo, tolerando etapas e adiamentos completa a lista. “Perdemos a disposição para aprofundar, refletir e elaborar”, resume a neuropsicóloga.

Criatividade sob risco de padronização

Questionada sobre criatividade, a neuropsicóloga afirma que o impacto já é perceptível. O uso constante de ferramentas que oferecem respostas e soluções prontas tende a reforçar caminhos já estabelecidos, em detrimento da experimentação e da originalidade. Segundo ela, é cada vez mais comum observar respostas mecânicas e padronizadas, como se perguntas diferentes levassem a tipos de raciocínio semelhantes.

“A criatividade depende de repertório, vivências, emoções, reflexão e da liberdade para fazer associações inesperadas”, afirma a especialista, ao explicar por que a automação excessiva pode enfraquecer esse processo. Para ela, isso não significa abandonar o uso da inteligência artificial, mas reposicionar seu papel: como fonte de inspiração e apoio, nunca como substituta da capacidade de criar.

Por que aprender exige o “tropeço” do erro

Um dos pontos mais específicos levantados pela neuropsicóloga envolve o papel do erro no processo de aprendizagem. Recorrer imediatamente à IA para tirar dúvidas reduz o esforço cognitivo necessário para formar memórias e consolidar conhecimento. O aprendizado humano depende não apenas dos acertos, mas também da tentativa, do erro e da correção: é nesse processo de busca e recuperação de informação que o cérebro fortalece as conexões necessárias para memorizar.

Quando a resposta chega “mastigada”, como descreve a especialista, essas áreas cerebrais deixam de ser exigidas da mesma forma. “Aprender exige participação ativa do cérebro, tentativa, erro, revisão e descoberta”, resume, ao detalhar por que esse hábito pode prejudicar não só a memória de longo prazo, mas também processos de retenção no curto e médio prazo.

Crianças e adolescentes: o grupo mais vulnerável

Entre as faixas etárias, a neuropsicóloga aponta crianças e adolescentes como o grupo mais exposto aos impactos cognitivos do uso excessivo de inteligência artificial. A justificativa está no próprio desenvolvimento cerebral: o córtex pré-frontal, região responsável pelo controle de impulsos, planejamento, tomada de decisões e avaliação de consequências, ainda está em formação nessa fase da vida — que é também quando se desenvolvem curiosidade, autonomia intelectual e disposição para explorar o mundo.

“O cérebro em formação precisa desse estímulo: desafios, interação humana, tentativa e erro, resolução de problemas e construção ativa do conhecimento”, afirma.

Segundo ela, isso exige supervisão mais atenta dos adultos. Não para demonizar a tecnologia, mas para evitar que ela substitua experiências essenciais à formação de indivíduos críticos e autônomos. Sem esse equilíbrio, a especialista alerta para o risco de formar adultos com menor tolerância à frustração e maior dificuldade em exercer planejamento, criatividade e autocontrole.

Sinais de que o pensamento crítico está sendo deixado de lado

A neuropsicóloga lista um conjunto de sinais que podem indicar perda de pensamento crítico por excesso de confiança em respostas geradas por IA: aceitar informações sem verificar a fonte, dificuldade para sustentar opiniões próprias, incapacidade de argumentar sem recorrer à ferramenta, uso automático da IA para qualquer dúvida, queda no interesse por pesquisar diferentes perspectivas e insegurança para tomar decisões sem apoio tecnológico. “A perda do hábito de questionar é um dos principais alertas”, diz Gebrim.

Apesar do diagnóstico, a especialista não recomenda abandonar o uso da inteligência artificial e sim ajustar a forma como ela é incorporada à rotina. Entre as estratégias citadas estão tentar resolver o problema sozinho antes de consultar a ferramenta, usá-la para complementar em vez de substituir o raciocínio, questionar as respostas recebidas, comparar fontes, exercitar a escrita autoral e manter hábitos de leitura e de debate.

A neuropsicóloga também destaca práticas que extrapolam o uso da tecnologia: atividade física regular, interações sociais presenciais, leitura de livros, momentos de lazer desconectados de telas, alimentação equilibrada e sono adequado. “O cérebro precisa de desafios reais, experiências humanas e diversidade de estímulos para continuar se desenvolvendo sem depender exclusivamente da tecnologia”, afirma.

O maior erro que estamos cometendo

Ao ser questionada sobre o principal equívoco coletivo na forma como a sociedade lida com a inteligência artificial hoje, Juliana aponta para uma inversão de valor: permitir que a tecnologia raciocine e pense “acima” do ser humano, atribuindo a ela um peso superior aos próprios processos cognitivos.

Para a neuropsicóloga, a IA pode ampliar capacidades, mas não substitui consciência, sensibilidade, criatividade e a capacidade humana de produzir significado. Ela cita como exemplo obras como a Capela Sistina, as esculturas de Michelangelo e as pirâmides do Egito, produções intelectuais e culturais que atravessaram séculos sem qualquer auxílio tecnológico equivalente.

“Precisamos utilizar essa tecnologia como instrumento de apoio, preservando aquilo que nos torna genuinamente humanos: a capacidade de pensar, criar, questionar e transformar a realidade em que vivemos”, finaliza.

Especialista reforça que tecnologia não deve prejudicar conexão humana

FONTE/CRÉDITOS: lucastmachado
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