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Terça-feira, 15 de Setembro de 2026

Política

Crise e 'Tiktokização' prejudicam propostas de campanha, afirma Fenaj

A presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, declarou à Agência Brasil que um modelo eleitoral distorcido tem esvaziado o debate público sobre os destinos do Brasil, resultando na falta de propostas estruturais.

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Por Estadão Rondônia
Crise e 'Tiktokização' prejudicam propostas de campanha, afirma Fenaj
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Segundo Samira de Castro, presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o debate público acerca dos rumos do Brasil está sendo esvaziado por um modelo eleitoral distorcido, caracterizado pela falta de propostas estruturais. Em entrevista à Agência Brasil, ela menciona que a discussão dos problemas reais do país está sendo ofuscada por dois fatores principais: a busca da grande mídia por audiência instantânea - frequentemente momentânea - e a adesão das candidaturas a uma lógica de marketing superficial.

“Estamos vivenciando um processo violento de 'tiktokização' da campanha eleitoral. Tudo se resume a dancinha”, comentou Samira.

Ela ressalta que, em tempos de consumo superficial de notícias e atenção pulverizada, poucos candidatos parecem dispostos a debater os reais problemas do Brasil. Samira também sublinha a importância do papel do jornalismo durante grandes crises, como a que o Supremo Tribunal Federal (STF) está enfrentando, e a necessidade de ir além dessa pauta. A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva.

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Agência Brasil: A atual crise político-institucional, que envolve denúncias relacionadas ao caso Master, afeta o debate eleitoral?

Samira de Castro: Sim. Ela já extrapolou o Poder Judiciário - envolvendo outras instituições, como a Polícia Federal - e está monopolizando o debate. O pior é que, em minha opinião, ela continuará dominando o noticiário.

Agência Brasil: Com a aproximação do primeiro turno [em 4 de outubro], você acredita que a imprensa e a opinião pública vão encontrar uma maneira mais equilibrada de acompanhar e noticiar o caso, ao mesmo tempo em que estimulam os candidatos a detalharem suas propostas e os demais problemas brasileiros?

Samira de Castro: Sendo franca, não. Há um outro aspecto que preocupa a mim e à Fenaj, que é a superficialidade com que esses e outros escândalos são tratados, o que se refere ao jornalismo declaratório.

Agência Brasil: De que forma isso interfere no debate eleitoral e, em última análise, impacta o normal desenrolar das eleições?

Samira de Castro: Primeiramente, o debate eleitoral é prejudicado porque as atenções se voltam totalmente para a crise institucional – que neste caso é relacionada ao Poder Judiciário. Como resultado, as pautas habituais dos períodos eleitorais, como as propostas dos candidatos, as demandas da sociedade civil e os temas nacionais, acabam em segundo plano.

Embora alguns veículos tenham entrevistado candidatos ou realizado séries sobre os problemas reais do Brasil, isso fica ofuscado diante do cenário de crise. Em parte, isso também se deve a uma lógica comunicacional que prioriza a busca por audiência. O resultado é que a população não debate de maneira aprofundada os programas de governo e as candidaturas, seja em nível nacional ou estadual. Isso, em última instância, prejudica a sociedade civil organizada, cujas propostas não são consideradas.

Agência Brasil: Diante da gravidade da crise, isso poderia ser diferente? Como equilibrar a necessária cobertura dos fatos com a garantia de espaço para o debate dos problemas estruturais do país?

Samira de Castro: Acredito que a mídia precisa insistir na segunda agenda. É importante cobrir a crise do Poder Judiciário. Inclusive porque isso gera muita audiência – o que também é necessário. Mas a agenda voltada para os debates políticos requer uma certa persistência; uma visão de longo prazo que não se esgota apenas na eleição. A realidade nacional deve ser constantemente informada à sociedade, assim como os desafios futuros, especialmente nos campos econômico, social e geopolítico, como a interferência dos Estados Unidos. Esses temas podem não ser o assunto principal neste momento, mas precisam ser discutidos com fontes plurais e confiáveis, evitando vieses editoriais. É necessário ir além do jornalismo declaratório, do “quem disse o quê”, e buscar ouvir a população, que é afetada no dia a dia pela política.

Agência Brasil: Toda crise política e institucional interessa ou beneficia algum segmento, e também cabe à imprensa deixar isso claro – mesmo sob risco de ser acusada de parcialidade?

Samira de Castro: Acredito que a imprensa enfrentará desafios cada vez maiores nessas coberturas eleitorais. Não apenas pelas crises persistentes, mas também por uma reflexão honesta sobre qual é, de fato, nosso papel. É nossa função permanecer apenas na repercussão de fatos que mobilizam determinados setores políticos e econômicos? Para um segmento do espectro político, interessa que a crise institucional seja coberta diariamente, com vazamentos seletivos e investigações direcionadas. É um projeto em disputa.

O jornalismo deve entender seu papel nesse contexto e agir com responsabilidade, cumprindo sua função social de compartilhar informações de relevante interesse público, que possam gerar cidadania. No entanto, muitos veículos de imprensa estão se orientando pela lógica de competir com as redes sociais, buscando uma atenção que possa gerar engajamento momentâneo, mas sem discutir nada de forma aprofundada, o que prejudica os esforços de veículos para se manterem relevantes. Além disso, é necessário reconhecer que houve um empobrecimento também das campanhas. Parece que estamos passando por um severo processo de 'tiktokização' da campanha eleitoral. Ao observar os perfis dos candidatos, tudo se resume a dancinhas. É uma loucura. Poucos parecem dispostos a debater a fundo os reais problemas do Brasil.

Agência Brasil: E quais são, a seu ver, os temas mais urgentes nestas eleições?

Samira de Castro: Um deles certamente é a questão climática. Como as candidaturas percebem as mudanças climáticas e suas consequências? Outra questão é como explorar nossas terras raras. Eu, particularmente, me interesso pela atração de data centers, um tema bastante complicado e controverso. Enfim, há inúmeros temas na ordem do dia e sobre os quais não estamos vendo um debate aprofundado.

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