O Brasil registrou avanços no acesso à Educação Básica no último ano, mas os resultados do Anuário Brasileiro de Educação Básica 2026 mostram que as desigualdades educacionais continuam marcando a trajetória dos estudantes desde os primeiros anos de vida.
O atendimento de crianças de 0 a 3 anos chegou a 43,3%, enquanto 96,1% das crianças de 4 e 5 anos estavam matriculadas na Educação Infantil, sendo este o maior percentual da série histórica e próximo da meta estabelecida pelo Plano Nacional de Educação.
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Ao mesmo tempo, diferenças de renda e raça permanecem expressivas no acesso e na conclusão das etapas escolares.
Entre as crianças de 0 a 3 anos, a taxa de matrícula cresceu 2,2 pontos percentuais em relação a 2024 e 12,7 pontos percentuais na comparação com 2015. O avanço, porém, ocorre de forma desigual de acordo com a renda familiar.
Em 2025, apenas 34,7% das crianças mais pobres estavam matriculadas nessa faixa etária, ante 54,7% entre as mais ricas — uma diferença de 20 pontos percentuais.
As diferenças permanecem ao longo da trajetória escolar e também aparecem no recorte étnico-racial. Em 2025, 92,1% dos jovens brancos e amarelos haviam concluído o Ensino Fundamental até os 16 anos. Entre pretos, pardos e indígenas, o percentual era de 86,3%. No Ensino Médio, a distância era maior: 81,7% dos jovens brancos e amarelos haviam concluído essa etapa até os 19 anos, contra 69,5% entre pretos, pardos e indígenas.
Aprendizagem ainda é desafio
Os dados de aprendizagem do Anuário, que incorporam os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2025, também apontam dificuldades importantes, sobretudo nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio da rede pública.
Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, 11% dos estudantes do 5.º ano estavam no nível abaixo do básico em Língua Portuguesa e 16,9% em Matemática. Nos anos finais, apenas 18,8% dos alunos do 9.º ano apresentavam aprendizagem adequada em matemática. Em língua portuguesa, o percentual era de 38,3%.
No Ensino Médio, o cenário era ainda mais desafiador em matemática: somente 8,5% dos estudantes da rede pública apresentavam aprendizagem adequada, enquanto 58,6% estavam no nível abaixo do básico. Em língua portuguesa, 35,2% tinham aprendizagem adequada e 31,2% estavam abaixo do básico.
Ensino técnico amplia matrículas
A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) foi outro destaque em 2025. As matrículas no nível médio mais que dobraram em dez anos, passando de 764 mil, em 2015, para 1,58 milhão em 2025. Somente no último ano foram acrescentadas 244 mil matrículas, o maior crescimento registrado no período.
Os cursos dos eixos de Gestão e Negócios e de Informação e Comunicação concentraram a maior parte dos estudantes. Foram 499 mil matrículas em Gestão e Negócios e 362 mil em Informação e Comunicação, o que, somado, representa mais da metade das matrículas da EPT de nível médio no país.
A expansão, no entanto, também apresenta diferenças entre os estados. No Piauí, 62,6% dos estudantes do Ensino Médio estavam matriculados na modalidade técnica. No Amazonas, o percentual era de 5,9%.
Os dados consideram as matrículas na Educação Profissional e Tecnológica de nível médio, sem incluir a modalidade de Qualificação Profissional.
Carreira docente
O Anuário também aponta uma redução na participação dos estudantes com melhores desempenhos no Enem entre os ingressantes em cursos de Licenciatura. Em 2020, 22,7% dos novos estudantes desses cursos estavam entre os 20% com maiores notas no exame. O percentual caiu para 14% em 2023, o menor índice da série iniciada em 2018, e chegou a 14,7% em 2024.
Naquele ano, portanto, apenas 14,7% dos ingressantes em licenciaturas que tinham notas do Enem estavam no quintil de maior desempenho. Em Direito, esse percentual era de 32,6%, enquanto, em Medicina, chegava a 81,2%.
Os dados sobre os ingressantes em licenciaturas foram obtidos a partir dos microdados disponibilizados na sala de segurança do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), extraídos em março de 2026.
A formação dos futuros professores também apresenta desafios. Em 2025, apenas 20,2% dos concluintes dos cursos de licenciatura avaliados atingiram o nível adequado no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Outros 42,2% ficaram abaixo do nível básico.
A diferença é maior quando considerada a modalidade de ensino. Entre os estudantes de licenciaturas na modalidade a distância, 53,1% ficaram abaixo do nível básico no exame, percentual que foi de 26,1% entre os alunos de cursos presenciais.
“Os dados apresentados no Anuário mostram que o Brasil ainda não conseguiu consolidar aquilo que caracteriza os melhores sistemas educacionais no mundo: políticas docentes capazes de atrair estudantes de alto desempenho para a carreira, oferecer uma formação inicial que prepare efetivamente para o exercício da docência e garantir remuneração e carreiras capazes de desenvolver, valorizar e reter bons professores ao longo do tempo”, explica Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação.
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