A França apresentou nesta quinta-feira (1º) seu projeto de Orçamento para 2027, com medidas impopulares de contenção de gastos para reduzir o déficit público e tentar tranquilizar investidores cada vez mais preocupados com a dívida do país, às vésperas das eleições presidenciais do próximo ano.
A proposta enfrenta resistência nas ruas. Trabalhadores do setor público fizeram uma greve na terça-feira (29) contra o congelamento de salários previsto no orçamento.
Ao mesmo tempo, protestos de estudantes do ensino médio contra a falta de recursos nas escolas, com salas superlotadas, prédios deteriorados e escassez de professores, se espalharam pelo país e ficaram mais violentos.
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O texto deve enfrentar dificuldades no Parlamento, profundamente dividido, enquanto os diferentes grupos políticos se posicionam para uma das eleições mais importantes da história recente da França. Os dois primeiros-ministros anteriores de Emmanuel Macron deixaram o cargo após enfrentarem resistência aos seus planos de austeridade.
O aperto orçamentário prevê o congelamento dos salários do funcionalismo público e de quase todas as aposentadorias, além de limites para os gastos de governos locais e com saúde e da redução de benefícios fiscais para empresas sobre encargos trabalhistas.
O projeto não prevê um aumento generalizado de impostos para famílias e empresas. Já uma sobretaxa extraordinária sobre as maiores companhias francesas, em vigor há dois anos, será reduzida em 30%.
“Este orçamento nos permite retomar o caminho da consolidação por meio de um esforço significativo”, afirmou o ministro das Finanças, Roland Lescure. Segundo ele, as medidas representam uma economia total de 54 bilhões de euros, dos quais 43 bilhões seriam obtidos em 2027.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu enfrenta pressão crescente de investidores do mercado de títulos, incertezas políticas antes das eleições e insatisfação dos eleitores com os efeitos dos cortes.
Primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu • 10 de abril de 2026 IAN LANGSDON/Pool via REUTERS
Lecornu afirma que o aperto fiscal é necessário para recolocar o déficit no caminho de redução, depois que seus antecessores tiveram dificuldades para avançar na questão diante da ausência de uma maioria parlamentar desde que Macron convocou eleições legislativas antecipadas em 2024.
O déficit persistentemente elevado elevou a dívida pública francesa para um recorde desde o fim da Segunda Guerra Mundial, equivalente a 119% do PIB no segundo trimestre, segundo o instituto de estatísticas INSEE.
Protestos tomam ruas na França
A polícia de choque entrou em confronto com estudantes franceses que protestavam contra a falta de recursos escolares. • REUTERS
Dezenas de pessoas ficaram feridas e centenas foram detidas, a maioria adolescentes, durante uma onda de protestos de estudantes contra a falta de professores e as más condições das escolas na França. As manifestações, que começaram na semana passada, chegaram nesta quinta-feira (1º) a mais escolas do país.
Os protestos e bloqueios, que coincidiram na terça-feira (29) com uma greve mais ampla do setor público, alcançaram 356 escolas de ensino médio e se tornaram um ponto de tensão política em um momento delicado para a França. Nesta quinta-feira, o governo deve apresentar o Orçamento de 2027, que deve incluir cortes de gastos para reduzir a pressão sobre as contas públicas.
Em Lille, a polícia de choque dispersou estudantes que protestavam nas ruas. Os manifestantes foram vistos construindo rapidamente barricadas improvisadas com lixeiras e ateando fogo a algumas delas. Em Saint-Denis, subúrbio ao norte de Paris, estudantes ficaram do lado de fora dos portões de uma escola enquanto um incêndio era registrado no local e policiais observavam a situação. Em Lyon, imagens de televisão também mostraram manifestantes atirando objetos contra policiais.
“Há baratas e ratos por toda parte na escola”, disse à Reuters Fadila, uma estudante de 17 anos. Segundo ela, a temperatura nas salas de aula pode variar de muito quente a abaixo de zero, dependendo do clima.
O ministro da Educação, Edouard Geffray, afirmou que 119 pessoas, entre estudantes e funcionários das escolas, ficaram feridas desde o início das manifestações. A maioria dos funcionários atingidos, segundo ele, eram diretores e professores.
O ministro do Interior, Laurent Nunez, disse que cerca de 625 pessoas foram detidas nesta quarta-feira (30) e mais de 440 no dia anterior, a maioria menores de idade. Segundo Nunez, houve sete episódios em que ácido clorídrico foi arremessado contra agentes de segurança.
Políticos do partido de esquerda França Insubmissa, incluindo Bally Bagayoko, prefeito de Saint-Denis, participaram dos protestos. Outros políticos acusaram a legenda de usar uma retórica que estaria aumentando a revolta dos estudantes, enquanto Nunez afirmou que grupos de extrema esquerda estariam incentivando a violência.
“Observamos que, em certos lugares, havia indivíduos agindo como agitadores — pessoas que, além disso, passavam de uma escola para outra para incitar estudantes do ensino médio e outros alunos e incentivá-los a cometer atos de violência”, afirmou Nunez.
O governo condenou a violência registrada em algumas manifestações, mas reconheceu que os problemas enfrentados pelas escolas precisam ser considerados e solucionados.
“As escolas devem estar abertas e compartilhar conhecimento. Elas não devem ser bloqueadas nem ter lixeiras incendiadas”, afirmou o presidente francês, Emmanuel Macron, a jornalistas em Madri.
Gamze, uma estudante de 17 anos de Saint-Denis, afirmou que os alunos dos bairros historicamente mais pobres são tratados de forma injusta em comparação com estudantes de outras regiões.
“Somos sempre nós… que sofremos quando, em Paris ou no interior, eles não estão em uma situação como essa”, disse.
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