No último dia 15 de maio, o Financial Times publicou uma reportagem que deveria pautar qualquer debate sério sobre energia no Brasil: a aurora da energia solar 24 horas por dia. Segundo o diretor-geral da Irena, Francesco La Camera, a questão da intermitência das renováveis — argumento historicamente usado para defender os combustíveis fósseis — foi finalmente superada. A causa: a queda dramática nos custos das baterias (BESS). Desde 2022, o custo de instalações utilitárias caiu mais de 50%, com redução de 27% apenas no último ano, segundo a BloombergNEF.
Enquanto isso, no Brasil, o debate sobre armazenamento de energia tem enfrentado resistência crescente — em artigos, vídeos e manifestações públicas — que insiste em apresentar as baterias como tecnologia arriscada ou inadequada para o sistema elétrico nacional. O problema é quando a prudência se disfarça de cautela técnica para encobrir resistência estrutural à mudança — especialmente quando os argumentos se alinham sistematicamente aos interesses de setores que lucram com a permanência dos combustíveis fósseis.
As baterias não são tecnologia experimental. O maior projeto solar com armazenamento do mundo está em construção em Abu Dhabi: 5 GW de painéis solares integrados a baterias, fornecendo 1 GW de potência firme, 24 horas por dia, a um custo estimado de US$ 70/MWh — competitivo com novas plantas a gás, que segundo o banco Lazard custam entre US$ 48 e US$ 109/MWh. Na Austrália, a Fortescue constrói um sistema 100% fóssil-free para mineração de ferro, com conclusão prevista para 2028. Segundo a Irena, renováveis com armazenamento já fornecem energia por mais de 95% do tempo, a custos competitivos, em países como China, Índia e o Brasil.
O sistema elétrico brasileiro tem características que tornam o BESS não apenas útil, mas estratégico. O crescimento explosivo da geração solar e eólica criou um problema crescente de “curtailment” — corte de geração renovável por falta de capacidade de absorção. Baterias resolvem isso: armazenam o excedente do dia e o injetam na rede entre 18h e 21h, quando a demanda é máxima e a geração solar é zero. Além disso, cada MW de bateria pode evitar a construção de MWs adicionais de geração e transmissão que ficam ociosos 20 horas por dia — sem emitir CO₂ e sem depender de combustível importado sujeito a turbulências geopolíticas.
Se as baterias são tecnologia madura, com benefícios comprovados, por que o Brasil avança tão lentamente? A resposta está no ambiente regulatório e tributário. Há incertezas relevantes sobre como as baterias serão tarifadas pelo uso da rede elétrica — questão que afeta diretamente a viabilidade dos projetos e que a Aneel ainda analisa. E a carga tributária sobre equipamentos de armazenamento pode chegar a 70% sobre o valor do ativo. Setenta por cento. Para um equipamento que reduz emissões, aumenta a eficiência do sistema e viabiliza a integração de renováveis, este nível de tributação não tem lógica econômica nem ambiental.
Há ainda um dado concreto frequentemente ignorado: no Brasil, usinas híbridas com BESS já viabilizam energia em regiões remotas — comunidades rurais e operações agroindustriais “off-grid” — com menos da metade do custo de um gerador a diesel operando 10 horas por dia. E isso com a carga tributária atual de até 70%. Imagine o que seria possível com uma equiparação tributária às demais fontes renováveis. O potencial de transformação para o interior do Brasil é imensurável.
É verdade que baterias não são uma “bala de prata” — nenhuma tecnologia é. Mas usar as limitações de qualquer solução para defender a permanência do problema é um erro que não resiste ao escrutínio. As termelétricas tampouco são perfeitas: são caras, poluem, dependem de combustível importado e operam com baixíssimos fatores de capacidade no sistema brasileiro.
O argumento de que o Brasil deve avançar devagar porque o sistema tem forte variabilidade hidrológica e intermitência renovável crescente é, na verdade, o argumento contrário: é exatamente por essas características que o BESS é essencial. Um sistema com alta variabilidade precisa de flexibilidade — e flexibilidade, hoje, tem nome: armazenamento por baterias.
A competição, como disse La Camera ao FT, já não é mais entre fósseis e renováveis. É entre quem avança mais rápido. O Brasil tem sol, tem vento, tem uma matriz elétrica invejável como ponto de partida. O que nos falta é clareza regulatória, justiça tributária e coragem para tomar decisões que coloquem o interesse do sistema elétrico acima de interesses que buscam atrasar a transição. O leilão de reserva de capacidade de baterias é uma oportunidade histórica. Perder essa janela seria um erro que as próximas gerações não nos perdoarão. As baterias já chegaram. O mundo já sabe disso. É hora de o Brasil saber também.
*Sergio Jacobsen é CEO da Micropower, fundador e conselheiro da Asabe, vice-presidente de armazenamento da Absolar.
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