disse o advogado à Agência Brasil em agosto.
Kaio* confirma que essa situação era real. “Meu celular não parava de receber mensagens.”
Pessoas de diversas idades tornaram-se vítimas das irregularidades das plataformas, incluindo adolescentes.
De acordo com um levantamento realizado a pedido da Frente Parlamentar Mista da Educação pela Equidade.info, 20,4% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio relataram, no último ano, que já haviam feito apostas online. O estudo abrangeu 1.912 estudantes de 191 escolas de todo o país.
Um dos dados mais alarmantes indicava que as apostas começaram a ser feitas a partir dos 11 anos. Ao menos 9,5% dos alunos nessa faixa etária admitiram já ter apostado.
A psicóloga Mariana Kehl, integrante da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que os jovens são mais vulneráveis a esse tipo de apelo, uma vez que seu cérebro ainda está em desenvolvimento.
Especialistas observam que a área do cérebro associada à sensação de prazer e à dopamina opera em ritmo acelerado, enquanto as regiões responsáveis pelo controle dos impulsos e avaliação de riscos só amadurecem por volta dos 20 e poucos anos.
“O adolescente experimenta intensamente a satisfação de ganhar uma aposta, mas ainda não possui os mecanismos necessários para conter o impulso de fazer a próxima aposta”, esclarece.
Risco de Suicídio
Profissionais da saúde identificaram que apostadores de todas as idades apresentavam sinais de desesperança, sensação de falta de alternativas, distanciamento social, aumento do consumo de álcool e mudanças significativas de comportamento.
Segundo a psiquiatra Katia Branco, a menção a pensamentos sobre a morte ou a vontade de não viver mais deve ser motivo de preocupação e busca por ajuda. “A ideação suicida deve ser abordada de maneira aberta, tanto nas consultas como nos grupos terapêuticos. Com o manejo adequado, podemos diminuir os riscos e tentar ajudar os pacientes”, afirma.
De acordo com a especialista, os pacientes demonstravam ansiedade extrema em razão das perdas causadas pelos jogos. “Alguns têm pensamentos de morte e, em casos mais graves, até a ideação suicida, em decorrência dos prejuízos financeiros”, explica.
A Importância da Ajuda
O neurocirurgião Orlando Maia afirma que indivíduos com dependência de apostas sentem que esse comportamento faz parte de seu cotidiano, buscando um mecanismo de recompensa. Muitas vezes, as pessoas não reconhecem o problema por conta própria. “É necessário que familiares ou amigos possam oferecer ajuda”.
A psicóloga Claudia Feres, que trabalha em um Centro de Apoio Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, aconselha que pacientes dependentes e suas famílias busquem assistência profissional. “Atendemos em Caps pessoas que tiveram pensamentos e até tentativas de autoextermínio. É um pedido de socorro desesperado, como se dissessem que precisam se afastar da vida naquele momento”.
Um dos desafios, conforme os especialistas, é que as apostas online estavam acessíveis a qualquer hora do dia.
“É como ter um cassino no seu bolso”, declarou Luiz Carlos*, 71 anos, membro dos Jogadores Anônimos. “Graças a Deus não jogo mais, pois, se ainda jogasse, estaria perdido. Na minha época, era preciso sair de casa para jogar. Hoje, isso não é mais necessário”, comentou em entrevista à Rádio Nacional, dias antes da proibição das plataformas de bets por questões de saúde pública.
Em agosto, diante do aumento dos problemas de saúde relacionados ao vício em jogos, o Sistema Único de Saúde (SUS) expandiu o número de atendimentos online mensais para aqueles que enfrentam dificuldades ligadas às apostas.
Com a proibição das bets anunciada na sexta-feira (25), o Ministério da Saúde decidiu intensificar os esforços para contatar apostadores frequentes, oferecendo suporte e tratamento quando necessário. O ministro Alexandre Padilha afirmou que haverá políticas de busca ativa, baseadas em informações compartilhadas pelos ministérios da Fazenda e da Segurança e pela Receita Federal.
Desde que começaram os alertas sobre o empobrecimento da população e o crescimento do vício em apostas, a Agência Brasil tem publicado reportagens sobre o assunto. Veja aqui todas as matérias publicadas.
*Nomes fictícios a pedido dos entrevistados
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