A formação de um ciclone bomba entre esta quinta (6) e sexta-feira (7) colocou em alerta moradores das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Associado à passagem de uma frente fria, o sistema deve provocar chuva intensa, rajadas superiores a 100 km/h em algumas regiões, queda de granizo e uma brusca mudança nas condições do tempo, sobretudo no Rio Grande do Sul, onde o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) emitiu alerta vermelho para grande perigo. Embora o nome desperte preocupação, o fenômeno não representa uma categoria distinta de ciclone, mas sim um estágio de rápida intensificação de um ciclone extratropical.
Segundo o professor Micael Cecchini, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, um ciclone é um sistema meteorológico de grande escala, com centenas ou até milhares de quilômetros de extensão, caracterizado por uma circulação organizada dos ventos ao redor de uma região de baixa pressão atmosférica. No Hemisfério Sul, essa circulação ocorre no sentido horário, em razão da influência da rotação da Terra.
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Os ciclones que atingem o Brasil pertencem à categoria dos extratropicais, formados em latitudes mais elevadas, onde o contraste entre massas de ar quente e frio é mais acentuado. Esse contraste térmico constitui o principal combustível do sistema. Quando uma massa de ar muito frio avança sob outra significativamente mais quente, estabelece-se um forte gradiente horizontal de temperatura, capaz de intensificar as correntes de ar em altos níveis da atmosfera e acelerar a queda da pressão próxima à superfície.
É justamente a velocidade dessa queda de pressão que diferencia um ciclone extratropical comum de um ciclone bomba. Conforme explica o pesquisador, convencionou-se classificar como ciclone bomba os sistemas que apresentam uma intensificação extremamente rápida, resultado de um contraste térmico muito intenso entre as massas de ar. Quanto maior essa diferença de temperatura, mais vigorosa se torna a circulação atmosférica e mais severos tendem a ser os fenômenos associados ao sistema.
Na atmosfera, esse processo desencadeia uma reação em cadeia. O ar frio, mais denso, avança por baixo da massa de ar quente, forçando-a a subir rapidamente. À medida que esse ar quente ascende, ocorre resfriamento e condensação do vapor d’água, favorecendo a formação de nuvens de grande desenvolvimento vertical e tempestades. Como consequência, aumentam as chances de chuva intensa, descargas elétricas, granizo e rajadas de vento muito fortes. Após a passagem da frente fria, também é comum ocorrer uma queda acentuada das temperaturas.
Apesar da nomenclatura, o ciclone bomba não tem relação com explosões ou qualquer mecanismo semelhante. A expressão faz referência exclusivamente ao rápido aprofundamento da baixa pressão atmosférica, que intensifica o sistema em um curto intervalo de tempo. Trata-se, portanto, de uma classificação utilizada para identificar episódios meteorológicos de maior severidade dentro dos próprios ciclones extratropicais.
O pesquisador ressalta ainda que esse tipo de fenômeno não é comum. A própria existência de uma classificação específica reflete seu caráter extremo, empregado para diferenciar sistemas cuja evolução ocorre de maneira muito mais intensa do que a observada na maioria dos ciclones extratropicais.
Os ciclones que atingem o Brasil se formam, naturalmente, ao sul do continente e, por isso, a região Sul costuma registrar os primeiros impactos. Em seu deslocamento, esses sistemas podem influenciar o tempo em outras áreas do país por meio do avanço das frentes frias associadas, alcançando o Sudeste, o Centro-Oeste e, em alguns episódios, até parte da Amazônia. Ainda assim, a fase de maior intensidade normalmente permanece concentrada sobre o Sul ou se desloca em direção ao Oceano Atlântico à medida que o sistema evolui.
No episódio previsto para esta semana, a Defesa Civil Nacional informa que o ciclone começa a se organizar nesta quinta-feira (6), associado à passagem de uma frente fria. A previsão aponta acumulados superiores a 100 milímetros de chuva por dia em áreas do Rio Grande do Sul, rajadas acima de 100 km/h, possibilidade de granizo e risco elevado para alagamentos, queda de árvores, interrupção no fornecimento de energia, danos em edificações e prejuízos à agricultura. Também há previsão de tempestades em Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul, além de ventania no litoral paulista.
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