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Segunda-feira, 24 de Agosto de 2026

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Espírito Santo testa gás natural na secagem de café em projeto inédito

Piloto inédito no país busca avaliar substituição da lenha e de outras biomassas; proximidade entre produção de gás e lavouras pode favorecer expansão da tecnologia

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Espírito Santo testa gás natural na secagem de café em projeto inédito
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Um projeto piloto de R$ 1 milhão testa pela primeira vez no Brasil o uso de gás natural na secagem do café como alternativa à secagem em fornalha, com lenha e a outras biomassas tradicionalmente utilizadas nas propriedades rurais. Realizado inicialmente em uma fazenda de conilon no Espírito Santo, o teste quer medir desde custos e eficiência operacional até impactos sobre qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade dos grãos.

A experiência começou durante a safra deste ano na Fazenda Chapadão, em Linhares, no norte capixaba, propriedade do cafeicultor Eduardo Bortolini. A expectativa é que o modelo seja ampliado para outras propriedades a partir da próxima safra, embora os milhares de dados coletados nesta primeira etapa ainda estejam em análise.

O projeto-piloto recebeu o primeiro R$ 1 milhão para ser implementado na primeira etapa dos testes. De acordo com Fabio Lancelotti, diretor técnico comercial da ES Gás, no caso da fornalha, o cafeicultor fica dependente de mais funcionários dedicados ao acompanhamento da queima, além de depender da logística de entrega e reposição da lenha.

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A ES Gás é a concessionária responsável por distribuir gás natural canalizado no Espírito Santo e uma das controladoras da pesquisa e desenvolvimento do piloto, que funcionou com três queimadores diferentes a fim de provar equipamentos e configurações distintas durante a safra.

Além da ES Gás, a iniciativa conta com o Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV), Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), JDE Peet’s e Base 27, com aprovação e acompanhamento da Agência de Regulação de Serviços Públicos do Espírito Santo (ARSP).

Os primeiros resultados foram apresentados durante o Vitória Coffee Summit 2026, em Vitória (ES), que terminou neste sábado (22). O controle da temperatura foi um dos elementos-chave da avaliação nos testes. Lancelotti contou que o uso de gás natural permitiu uma espécie de “controle de chama de um fogão” no processo do café.

O consumo energético do processo e a análise de combustão foram outros dois pontos observados durante o teste para avaliar o grau de eficiência.

Também se avaliou a análise sensorial junto à maturação do grão a fim de verificar se a qualidade do café não ficaria comprometida. De maio à agosto deste ano, 9,4 mil sacas de 60 kg de café foram usadas no projeto piloto, detalhou Lancelotti durante o evento na capital capixaba. Foi a primeira vez que os resultados preliminares foram apresentados ao público.

Depois dos testes no campo, os grãos secos foram para análise em laboratório para medir a umidade e maturidade do grão, separação das amostras e testar a qualidade da bebida.

Em entrevista à CNN, o presidente do CCCV, Fabrício Tristão, afirmou que o projeto surgiu da combinação entre um gargalo da cafeicultura e uma vantagem energética particular do Espírito Santo.

“Qual é a dificuldade? Matéria-prima, tecnologia, questões ambientais. Essa é uma dificuldade que a secagem tradicional traz, além da disponibilidade de biomassa. E a oportunidade, do outro lado, é que o Espírito Santo é um importante produtor de gás natural e as lavouras de café estão a poucos quilômetros das jazidas ou das estações de distribuição”, disse.

A proximidade é considerada fundamental para a viabilidade econômica do projeto. Segundo Tristão, experiências com gás natural na secagem do café já foram estudadas em outros lugares do mundo, mas a logística de distribuição do combustível tornou-se uma barreira para o avanço da tecnologia.

No Espírito Santo, a possibilidade de encurtar essa distância pode mudar a equação.

“Por que em outros lugares do mundo o gás natural, apesar de terem sido feitos estudos, não avançou no uso na secagem do café? Porque a questão logística é uma questão primeira. E isso aqui é uma riqueza natural que temos tão próxima”, afirmou.

Projeto avalia custo, qualidade e sustentabilidade

A secagem é uma das etapas mais sensíveis do pós-colheita do café e influencia a uniformidade dos grãos, a padronização dos lotes e a preservação das características sensoriais do produto.

Nas propriedades, o processo é tradicionalmente abastecido por lenha e outras biomassas. Durante a colheita, os secadores podem permanecer em funcionamento por aproximadamente 100 dias, elevando a demanda por combustível e gerando fumaça nas áreas produtoras.

O projeto capixaba busca verificar se o gás natural pode oferecer maior controle térmico e estabilidade ao processo, além de reduzir emissões e impactos ambientais.

Mas a decisão sobre uma eventual expansão da tecnologia não será baseada apenas na comparação direta entre o preço do gás e o da biomassa, segundo Tristão.

“Geramos milhares de dados exatamente para avaliar todas as variáveis: qualidade, rastreabilidade, sustentabilidade. É um pacote completo para uma tomada de decisão que muitas vezes não é só pelo custo final direto aplicado”, disse o presidente do CCCV.

O desenho do estudo contempla quatro pilares principais: viabilidade industrial do processo de secagem, custo, sustentabilidade e qualidade do café obtido.

“Um pilar só talvez não traga a viabilidade econômica que um projeto desse, que é disruptivo, precisa ter”, acrescentou.

A participação da JDE Peet’s no projeto está ligada principalmente à avaliação da qualidade do produto. Segundo Tristão, a intenção é verificar se um processo de secagem com maior controle pode também se refletir nas características finais do café.

“A secagem, seja de arábica ou de conilon, é um processo muito crítico. Quanto mais sofisticado e completo ele for, melhor pode ser o resultado”, afirmou.

A concentração em uma única fazenda, de acordo com Tristão, foi proposital para manter um ambiente controlado e permitir que pesquisadores acompanhassem praticamente todo o ciclo da safra.

O projeto é de médio prazo e deve levar entre dois e três anos até que informações suficientes sejam consolidadas para uma avaliação mais ampla sobre a viabilidade da tecnologia.

Produtores já procuram gás natural

Mesmo antes das conclusões definitivas do estudo, porém, o teste começou a despertar o interesse de outros cafeicultores capixabas.

Segundo Tristão, produtores já procuraram a ES Gás para discutir a possibilidade de criação de pequenas centrais regionais de distribuição do combustível.

“Ele é um projeto piloto ainda e tem várias fases a serem desenvolvidas. É um projeto de médio prazo, de dois a três anos para consolidarmos todas as informações, mas já traz frutos positivos. Muitos produtores aderiram à ideia independentemente do projeto piloto e já conversam com a ES Gás sobre pequenas centrais de distribuição regional”, afirmou.

A expectativa do CCCV é que, na safra de 2027, novas experiências possam surgir a partir do modelo desenvolvido em Linhares.

“A ideia é que no próximo ano esse piloto já esteja multiplicado por vários, e muitas iniciativas independentes já começam a acontecer”, disse Tristão.

Para o CCCV, a tecnologia pode acrescentar uma nova frente ao processo de modernização da cafeicultura capixaba, especialmente do conilon. A entidade avalia que qualidade e sustentabilidade passaram a pesar cada vez mais nas decisões dos compradores internacionais e que aprimorar o pós-colheita pode ajudar a agregar valor ao produto.

“A cafeicultura vive um novo momento, em que qualidade, sustentabilidade e inovação caminham juntas. A secagem sempre foi uma etapa crítica para quem busca mercados mais exigentes”, afirmou Tristão.

Segundo ele, o objetivo do piloto não é definir previamente o gás natural como substituto da biomassa, mas produzir informações técnicas suficientes para que produtores e empresas possam decidir se a tecnologia faz sentido econômica e operacionalmente.

“É difundir e viabilizar o conhecimento. A questão dos investimentos e da distribuição fica a cargo de quem é do negócio, no caso a ES Gás, os produtores de café e os distribuidores”, afirmou.

FONTE/CRÉDITOS: isadoracamargo
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