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Segunda-feira, 20 de Julho de 2026

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Existe horário ideal para estudar? Ciência explica

Cronotipo, qualidade do sono e tipo de tarefa pesam mais do que a hora do relógio, segundo especialistas ouvidos pela CNN Brasil, que também alertam para os riscos de trocar sono por horas de estudo

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Por Estadão Rondônia
Existe horário ideal para estudar? Ciência explica
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A busca por uma rotina de estudos “perfeita” ganhou força nos últimos anos, impulsionada por rotinas como o chamado clube das 5 da manhã e por promessas de fórmulas infalíveis de produtividade.

Mas a ciência do sono e da aprendizagem indica que não existe um horário universalmente melhor para estudar. O que determina o desempenho é uma combinação de fatores individuais, como o relógio biológico, a idade, a qualidade do sono e até o tipo de conteúdo que está sendo estudado.

É o que explicam André Rebelo, coordenador pedagógico do Ensino Médio do Colégio Vital Brazil, e Karen Scavacini, psicóloga, pesquisadora e fundadora do Instituto Vita Alere. Entrevistados pela CNN Brasil, os dois especialistas chegam a conclusões semelhantes: o horário ideal é aquele em que existe atenção disponível e sono adequado, não um número fixo no relógio.

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Cronotipo e idade ajudam a explicar as diferenças individuais

Segundo André, o desempenho ao estudar está diretamente relacionado ao cronotipo, o perfil biológico que determina se uma pessoa rende melhor mais cedo ou mais tarde no dia. Ele lembra que essa variação se torna ainda mais evidente na adolescência, período em que estudos sobre o desenvolvimento do sono mostram uma tendência natural de atraso no horário de dormir.

Karen Scavacini reforça esse ponto e acrescenta que o cronotipo interage com a rotina e com o tipo de tarefa exigida. “Pesquisas indicam que pode haver um efeito de sincronia, quando a pessoa tem melhor desempenho ao realizar tarefas cognitivas no período mais compatível com seu perfil biológico, embora esse efeito não seja igual para todos”, afirma.

Por que a manhã não é garantia de melhor desempenho

Um dos mitos mais persistentes é o de que estudar de manhã traria vantagem automática sobre outros períodos do dia. Para André, isso só é verdade quando há sono suficiente por trás. “Disciplina é importante. Privação de sono não é disciplina”, reforça o coordenador, ao criticar a romantização de rotinas que sacrificam horas de descanso em nome da produtividade.

Já Karen concorda que a manhã pode favorecer quem dormiu bem e ainda não acumulou o desgaste do dia, mas destaca que essa vantagem desaparece quando o sono foi insuficiente ou quando o cronotipo da pessoa é mais tardio. “A qualidade do sono pesa mais do que simplesmente acordar cedo para estudar”, diz.

O sono também é parte do processo de aprender

Os dois especialistas tratam o sono não como uma pausa nos estudos, mas como uma etapa da aprendizagem. André cita pesquisas sobre consolidação da memória durante o sono para explicar por que dormir mal compromete o que foi estudado horas antes. “Dormir não é abandonar os estudos”, afirma.

Karen detalha o mecanismo em outros termos: o sono atua tanto antes quanto depois do momento de estudar. Antes, garante a atenção necessária para registrar novas informações; depois, participa da organização e da consolidação daquilo que foi aprendido. Segundo ela, “o sono participa da consolidação da memória, o que explica por que trocar noites de descanso por horas extras de revisão, especialmente às vésperas de provas, tende a ter o efeito inverso ao esperado”, explica.

Quem estuda à noite pode aprender tanto quanto quem madruga

Nem sempre preferir a noite é sinônimo de baixo rendimento. “O problema não está em ter um cronotipo mais noturno, mas em precisar acordar muito cedo todos os dias apesar disso, situação descrita na literatura científica como uma espécie de descompasso entre o relógio biológico e os horários sociais”, afirma André.

Karen faz uma leitura semelhante. “Pessoas com cronotipo noturno conseguem aprender tão bem quanto as matutinas quando estudam e dormem em horários compatíveis com seu próprio funcionamento. A dificuldade não está necessariamente em ser uma pessoa noturna, e sim em ter que funcionar de forma constante em horários que não combinam com o organismo” pontua a especialista.

O tipo de tarefa pode importar mais do que o relógio

Para os dois entrevistados, o horário deveria ser escolhido em função da atividade, e não o contrário. André recomenda reservar os momentos de maior disposição para tarefas cognitivamente mais exigentes, como aprender um conteúdo novo ou resolver problemas complexos, deixando revisões e organização de material para períodos de menor energia. Segundo ele, “o método pode ser mais determinante do que o relógio na hora de aprender”.

Karen afirma que atividades que exigem raciocínio e tomada de decisão rendem mais nos momentos de maior disposição, enquanto tarefas leves, como revisões breves, podem ocupar os períodos de menor energia, inclusive um pouco antes de dormir. Ainda assim, a psicóloga faz uma ressalva sobre estudar até tarde: “não vale estudar até a madrugada imaginando que isso vai melhorar a retenção”.

Tecnologia, alimentação e atividade física entram na equação

Karen Scavacini também chama atenção para fatores que vão além do relógio biológico. Segundo ela, fome, refeições pesadas e falta de hidratação prejudicam a concentração, enquanto a prática regular de atividade física está associada a ganhos de atenção e bem-estar.

O uso de telas aparece como um ponto sensível duplo: durante o estudo, notificações fragmentam a atenção, e à noite, o uso prolongado de dispositivos pode atrasar o sono, sobretudo diante de conteúdos estimulantes.

André faz observação semelhante sobre o papel da tecnologia, mas sob outro ângulo: para ele, o estudo passou a competir diretamente com plataformas desenhadas para capturar a atenção de forma contínua, o que torna a leitura e a resolução de problemas mais lentas por comparação, e por isso mais facilmente percebidas como cansativas.

Sessões curtas tendem a render mais do que maratonas de estudo

Um ponto de convergência direta entre os dois especialistas é a crítica às longas maratonas de estudo. André defende blocos de quarenta a cinquenta minutos com objetivo definido, seguidos de correção de erros e retomada posterior, argumentando que esse formato pode produzir mais aprendizagem do que horas seguidas de estudo passivo.

Já Karen afirma que distribuir o estudo em diferentes sessões tende a ser mais eficiente para a retenção de longo prazo do que concentrar tudo em um único período extenso.

Segundo ela, o cérebro precisa de intervalos e de novas oportunidades para recuperar a informação, e estratégias ativas, como tentar explicar o conteúdo com as próprias palavras ou responder questões sem consultar o material, tendem a superar a simples releitura.

Rotina possível para quem trabalha ou estuda em tempo integral

Para quem concilia trabalho, estudo e outras responsabilidades ao longo do dia, os dois especialistas recomendam observar a própria rotina antes de tentar impor um modelo pronto. André sugere identificar os melhores momentos de concentração disponíveis e reservá-los para as tarefas mais difíceis, ainda que sejam poucos minutos por dia.

Karen reforça a orientação e acrescenta um detalhe prático: deixar o material de estudo preparado com antecedência reduz o número de decisões necessárias para começar, o que aumenta a chance de manter a rotina ao longo do tempo. Segundo ela, “quanto menos decisões forem necessárias para começar, maior a chance de manter a rotina”.

O mito da fórmula única de produtividade

Ao final, os dois entrevistados convergem para a mesma conclusão: não existe fórmula pronta capaz de funcionar para todos os perfis de estudante. Acordar muito cedo, estudar por muitas horas seguidas ou seguir a rotina de um influenciador não garante, por si só, melhor aprendizagem.

O que a ciência sustenta, segundo André e Karen, é um conjunto de princípios mais simples: dormir adequadamente, manter alguma regularidade de horários, priorizar os períodos de maior atenção disponível, distribuir o conteúdo ao longo dos dias e recorrer a estratégias ativas de estudo, em vez de depender apenas da quantidade de horas diante do material.

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FONTE/CRÉDITOS: lucastmachado
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