Em uma entrevista para um podcast, produzida com alto padrão e publicada nesta semana, Ivanka Trump falou sobre seu mais novo projeto imobiliário — o que descreveu como uma “incrível e belíssima ilha privada de 1.400 hectares no meio do Mediterrâneo”, além de cerca de oito quilômetros de litoral albanês destinados à construção de resorts e hotéis.
Mas o projeto apoiado pela filha do presidente dos Estados Unidos e por seu marido, Jared Kushner, inclui obras previstas em uma área natural protegida na costa em frente à ilha. Grupos ambientalistas afirmam que o desenvolvimento já está causando danos justamente à paisagem que Trump elogiava.
O empreendimento de luxo provocou grandes manifestações nas ruas da capital, Tirana, onde protestantes carregaram recortes de papelão cor-de-rosa representando flamingos, cujo habitat, segundo eles, está ameaçado. Também gerou uma reação mais ampla entre cidadãos da Albânia, país que possui uma das menores rendas per capita da Europa.
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O diretor europeu da organização ambiental BirdLife, Ariel Brunner, afirmou que ele e outros conservacionistas visitaram a área natural no início de maio e encontraram escavadeiras removendo areia da praia e caminhões espalhando cascalho.
“Não havia qualquer sinalização, nem na lagoa onde estavam abrindo a estrada, nem na praia onde as máquinas trabalhavam… não havia placas indicando licenças, autorizações ou sequer quem era o responsável pelas obras.”
Enquanto isso, o primeiro-ministro da Albânia insiste que o projeto ainda não começou oficialmente e que seu “impacto ambiental ainda está sendo avaliado”, ao mesmo tempo em que continua defendendo o desenvolvimento da costa adriática do país.
O que se sabe sobre o projeto até agora
A primeira parte do projeto — a desabitada Ilha de Sazan — é uma antiga base militar da era comunista.
“Estávamos em um barco de um amigo e paramos para nadar. Foi assim que a descobrimos. Nadamos até a ilha, fizemos uma trilha descalços até o topo e ficamos completamente encantados”, contou Trump ao podcaster americano David Senra nesta semana, chamando a atenção de muitos albaneses e de pessoas de outros países para o projeto.
O segundo local — uma faixa de praia ainda intocada chamada Pishë Poro-Narta — fica dentro de uma área ambiental protegida, a Paisagem Protegida Vjosa–Narta. O local abriga espécies ameaçadas, como focas-monge, tartarugas marinhas em período de nidificação e mais de 200 espécies de aves, incluindo flamingos e pelicanos.
A CNN entrou em contato com o fundo de private equity de Jared Kushner para falar sobre o projeto, mas foi direcionada a outra empresa, a Sazan Real Estate Development LLC, e informada de que os investidores participam da iniciativa em caráter pessoal.
“Estamos entusiasmados com a oportunidade de criar um destino de padrão mundial e realizar um dos maiores investimentos privados da história da região. Nosso foco continua sendo a gestão responsável, a melhoria ambiental, a geração de empregos e a criação de valor de longo prazo para as comunidades locais”, afirmou em nota Asher Abehsera, presidente da Sazan Real Estate Development LLC. “Respeitamos os processos públicos e institucionais em andamento e estamos prontos para avançar conforme eles evoluírem.”
Kushner declarou em uma conferência de investimentos no ano passado que, enquanto navegava pela costa da Albânia em 2021, recebeu a bordo o primeiro-ministro Edi Rama para uma reunião. Um ano depois, os dois voltaram a conversar sobre oportunidades de investimento. Em 2024, Kushner publicou nas redes sociais artes conceituais do projeto para a costa albanesa.
Críticos têm levantado repetidamente preocupações sobre possíveis conflitos de interesse envolvendo os negócios privados de Kushner, já que atualmente ele atua como enviado especial de seu sogro, o presidente Donald Trump. Ele recebeu apoio significativo de fundos soberanos de países com os quais também mantém relações oficiais de governo, incluindo Arábia Saudita e Catar.
Na quarta-feira, Rama confirmou que Kushner e Ivanka Trump participam do empreendimento, mas afirmou que o projeto reúne também um grupo mais amplo de investidores e arquitetos do Japão, Dinamarca, Turquia, Grécia e França.
Rama também declarou que “ainda não existe um projeto” propriamente dito e que “o impacto ambiental ainda está sendo estudado”, ao ser questionada por Isa Soares, da CNN, sobre o andamento das obras na ilha e na reserva natural.
“Não existe essa história de a família do presidente americano tomar conta de áreas protegidas onde flamingos seriam mortos por eles”, disse Rama, acrescentando que o grupo de desenvolvedores contratou uma consultoria para avaliar os impactos ambientais.
O primeiro-ministro insistiu que o projeto não irá “despejar concreto sobre a cabeça dos flamingos”, mas sim demonstrar que desenvolvimento e preservação da natureza “podem coexistir”.
No início desta semana, o órgão especial anticorrupção da Albânia, o SPAK, informou à imprensa local que abriu uma investigação relacionada ao projeto, sem fornecer mais detalhes. A CNN procurou o órgão para comentar o caso, mas não obteve resposta.
Mudança controversa nas leis ambientais
Parte da reação negativa ao projeto na Albânia está ligada a uma alteração na legislação ambiental do país, aprovada em 2024, que passou a permitir a construção de resorts de luxo dentro de áreas protegidas. A lei agora isenta “empreendimentos de excelência, cinco estrelas ou mais” e atividades de hospitalidade relacionadas.
“Normalmente, quando pessoas muito ricas conseguem fazer o que querem, isso costuma ser disfarçado sob argumentos de interesse público, situações excepcionais e coisas do tipo. Colocar explicitamente na lei que resorts de luxo estão isentos é algo realmente impressionante”, disse Brunner, da BirdLife. “É um dos textos legislativos mais agressivos que já vi na área ambiental em toda a minha carreira.”
A mudança legal não está alinhada à legislação da União Europeia, o que tem sido um ponto de atrito nas negociações para a entrada da Albânia no bloco.
“Já manifestamos nossas preocupações ao ministro do Meio Ambiente sobre possíveis falhas desse projeto”, declarou à CNN um porta-voz da Comissão Europeia a respeito do empreendimento na área protegida de Pishë Poro-Narta. “Nossas preocupações não são novas… A extensão repetida da lei sobre investimentos estratégicos pela Albânia continua gerando preocupações quanto a possíveis impactos ambientais, especialmente em áreas protegidas.”
Grupos de conservação acreditam que o governo albanês pretende acelerar esse empreendimento e outros projetos menores antes de voltar a adequar a legislação ambiental às exigências da União Europeia.
O porta-voz da Comissão Europeia afirmou à CNN que o Ministério do Meio Ambiente da Albânia havia “se comprometido a suspender as obras de construção”. Ele também observou que as investigações anticorrupção conduzidas pelo SPAK “aparentemente vão além das questões ambientais”.
A CNN procurou o Ministério do Meio Ambiente da Albânia e a Agência Nacional de Áreas Protegidas do país para comentar o assunto.
O que dizem os manifestantes
Ambientalistas e cidadãos comuns vêm criticando o projeto há semanas, exigindo acesso às licenças e cobrando que parlamentares ajudem a proteger o litoral preservado.
“O projeto é bastante destrutivo, porque está previsto justamente para uma área protegida, uma paisagem protegida que é uma das zonas úmidas mais preservadas do Mediterrâneo”, afirmou à CNN Melitjan Nezaj, biólogo ambiental da organização albanesa Proteção e Preservação do Meio Ambiente Natural na Albânia (PPNEA). “Até este momento, não há autorizações disponíveis ao público.”
Em comunicado, a PPNEA afirmou que parte dos danos ecológicos às dunas de areia “já é irreversível” e que as obras “bloquearam uma das duas aberturas que conectam a Lagoa de Narta ao mar, interrompendo a troca natural das marés e provocando consequências imediatas em cascata para peixes, aves e toda a cadeia alimentar”.
Manifestantes realizaram atos na área protegida — diante de cercas recém-construídas — carregando cartazes com imagens de flamingos e tartarugas-cabeçudas. Grupos ambientais também registraram a presença de máquinas pesadas na praia, uma perfuratriz instalada em uma colina e seguranças patrulhando o local, embora não esteja claro se esses elementos estão diretamente ligados ao empreendimento apoiado por Kushner.
Grandes protestos também ocorreram na capital em vários dias desta semana, com cidadãos entoando o slogan: “A Albânia não está à venda”.
A BirdLife afirmou à CNN que não é contrária a todo tipo de desenvolvimento na costa e argumentou que áreas com construções abandonadas ou já urbanizadas seriam candidatas mais adequadas para revitalização.
“Alguns tipos de natureza podem coexistir com determinados tipos de desenvolvimento; transformar uma ilha inteira e um delta fluvial em uma cidade de fato, não”, disse Brunner. “Se você remove fisicamente o habitat, tudo o que vive nele desaparece.”
Como grupos ambientais e veículos de imprensa ainda não tiveram acesso às licenças ou aos documentos de planejamento do projeto, é difícil saber exatamente quantos edifícios estão previstos e em quais partes da área protegida seriam construídos. Mas, em sua entrevista ao podcast, Ivanka Trump enfatizou a enorme dimensão do empreendimento.
“Teremos hotéis, resorts, espaços de bem-estar, tudo isso — a escala é quase intimidadora”, afirmou. Mais tarde, acrescentou que a ideia de “comunidade” está no centro do projeto. “Você não pode simplesmente se impor a um país ou a uma cultura; primeiro precisa compreendê-los para agir de uma forma bonita, delicada e significativa.”
*Com informações de Vasco Cotovio, Isa Soares e Olivia Briand, da CNN
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