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Terça-feira, 29 de Setembro de 2026

Saúde e Beleza

Gestantes estão em risco devido à resistência às vacinas contra gripe e covid

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil reforçam a segurança e eficácia dos imunizantes durante a gravidez.

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Gestantes estão em risco devido à resistência às vacinas contra gripe e covid
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Nataly Saldanha, residente no Rio de Janeiro, foi agraciada com o título de gestante nota 10 na unidade de saúde onde realiza seu pré-natal, localizada no centro da capital fluminense. Com 39 semanas de gestação, ela aguarda a chegada de Noely nos próximos dias e se orgulha de ter comparecido a todas as consultas e exames, além de seguir rigorosamente as orientações dos profissionais de saúde e apresentar sua carteira de vacinação em dia.

"Sempre fui uma pessoa que se vacinou, então assim que iniciei o pré-natal, coloquei minha carteirinha atualizada. Se alguma doença estiver circulando, estarei imune. E me preocupo muito com a saúde da minha bebê. Quero garantir que ela esteja 100% saudável", esclarece.

 
A grávida Nataly Saldanha e a médica da família Catarina Jatobá durante atendimento na Clínica da Família, na região central do Rio - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Esse mesmo pensamento é compartilhado por Raissa Silva de Oliveira, que está com 34 semanas de gestação, aguardando a chegada do pequeno Rafael.

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"Sempre tomei todas as vacinas porque confio na ciência. Desde o início do meu pré-natal, meu médico verificou a situação das minhas vacinas, pediu para ver minha carteira e me orientou sobre as próximas doses que eu deveria tomar", relata.

 
A gestante Raissa de Oliveira mantém suas vacinas em dia durante a gravidez - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Infelizmente, nem todas as gestantes conseguem chegar ao parto com a proteção necessária, como Nataly e Raissa. Dados oficiais do Ministério da Saúde indicam uma discrepância significativa na cobertura vacinal, com números alarmantes (confira no quadro abaixo).

No ano de 2025, somente 55% das gestantes se vacinaram contra a covid-19, e 63% contra a influenza (considerando dados das regiões Sudeste, Sul, Nordeste e Centro-Oeste). Dados preliminares deste ano indicam uma leve melhora na vacinação contra influenza, que alcança 76%, mas a cobertura para a covid-19 permanece em 55%. A meta para ambos os imunizantes é de 90% do público-alvo.

 
Coberturas vacinais no Brasil variam de acordo com o imunizante - Foto: Arte/EBC

As consequências da hesitação em se vacinar têm sido desastrosas em muitos casos. Informações obtidas pelo Ministério da Saúde, a pedido da Agência Brasil, revelam que pelo menos 286 gestantes ou puérperas contraíram síndrome respiratória aguda grave (SRAG) após a infecção por algum subtipo do vírus Influenza entre 2022 e o início de agosto de 2026. Desses casos, 25 resultaram em óbito, sendo sete apenas neste ano.

Durante o mesmo período, a covid-19 causou ao menos 205 casos graves, com 21 mortes. Nos três anos mais críticos da pandemia – 2020, 2021 e 2022 –, foram registrados 3.547 casos de SRAG, comprovadamente causados pelo vírus, em gestantes ou puérperas. Quase um quarto dessas mulheres faleceu, totalizando 811 óbitos.

Para Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), existem dois fatores principais que ajudam a explicar esses índices: a acomodação em relação à influenza e a desinformação sobre a covid-19.

"No que diz respeito à gripe, as pessoas costumam se perguntar 'será que essa vacina é realmente tão importante?'. Há uma desvalorização da doença. Já em relação à covid-19, prevalece o mito de que se trata de uma vacina experimental, desenvolvida rapidamente, o que é um equívoco. É uma tecnologia antiga que foi adaptada rapidamente para a covid-19 devido à colaboração global e a significativos investimentos", ressalta.

 
Diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Flávia Bravo - Foto: Divulgação/SBIm

A vacinação foi crucial para a redução dessas taxas até os níveis atuais. Cientistas brasileiros realizaram comparações dos registros de SRAG em gestantes e puérperas antes e após o início da vacinação nesse grupo e constataram que a taxa de casos mensais caiu para um terço do que era, e a mortalidade se reduziu quase cinco vezes.

Ainda assim, a covid-19 e a influenza, juntas, representam quase 30% dos casos de SRAG em gestantes e puérperas registrados neste ano no Brasil. Quando examinadas as mortes, essa parcela sobe para mais de 50%.

Os vírus respiratórios são os principais responsáveis pela síndrome, mas a identificação do tipo que provocou a condição nem sempre é possível, o que significa que essas proporções podem ser ainda maiores. "As gestantes estão entre os grupos de maior risco para essas duas doenças, tanto que essas vacinas são aplicadas em qualquer fase da gestação", enfatiza Flávia Bravo, da SBIm.

Calendário das gestantes

O Ministério da Saúde disponibiliza no Sistema Único de Saúde (SUS) mais quatro vacinas para gestantes, além das de influenza e covid-19: hepatite B, dT, dTpa e VSR (veja no quadro abaixo). Ademais, a vacina contra febre amarela pode ser recomendada excepcionalmente para grávidas que residem em áreas com circulação confirmada da doença, em situações de surto, emergência ou alto risco, ou que pretendem viajar para esses locais.

 
Vacinas que devem ser tomadas na gestação - Foto: Arte/EBC

A ginecologista Giuliane Lajos recomenda que todas essas vacinas sejam parte do checklist básico das gestantes, em vez de serem vistas como uma opção ou um cuidado adicional. "Eu até costumo brincar: 'menos chá revelação e mais vacinação'. Porque, independentemente de ser menino ou menina, o que realmente se deseja é um bebê saudável e estar saudável para cuidar dele. "

A especialista da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) ressalta que as gestantes devem ter um cuidado redobrado com infecções diversas, pois são naturalmente mais vulneráveis ao contágio e podem apresentar quadros mais severos.

"Ao engravidar, metade do bebê vem da sua genética e a outra metade do parceiro. Para aceitar esse 'implante' no útero, ocorrem várias alterações no sistema imunológico da mulher. Além disso, conforme a gravidez avança, o espaço pulmonar diminui e algumas funções do corpo se tornam prejudicadas", explica.

Por essa razão, é fundamental assegurar todas as proteções vacinais disponíveis. "Estando vacinada, a mulher pode até contrair uma infecção, mas não sofrerá complicações graves", complementa Giuliane.

 
Ginecologista Giuliane Lajos, membro da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) - Foto: Giuliane Lajos/ Arquivo pessoal

A ginecologista adverte que, na ausência de proteção, a gestante corre um risco maior de sofrer uma série de complicações, podendo até levar a óbito. "A internação em UTI eleva significativamente a produção de substâncias chamadas prostaglandinas, que podem lesionar a placenta, afetando o desenvolvimento do bebê e aumentando o risco de prematuridade."

Uma análise realizada com dados de mais de 1,2 milhão de gestantes em todo o mundo mostrou que mulheres vacinadas contra a covid-19, por exemplo, tiveram menor risco de partos prematuros, morte fetal e anomalias congênitas no feto.

Benefícios para os bebês

Adicionalmente, ao se vacinar, a gestante também está protegendo seu bebê após o parto. O esquema de imunização contra a influenza e a covid-19 começa somente aos 6 meses de idade, portanto, o recém-nascido depende dos anticorpos que recebe da mãe através da placenta para combater essas doenças.

"Estudos clínicos já publicados demonstram que a vacinação contra a gripe pode reduzir em até 70% a incidência de doenças nos primeiros meses do bebê. O mesmo se aplica à covid. Existem estudos que mostram que a quantidade de anticorpos no cordão umbilical é maior do que no sangue da mãe. Ou seja, além de um transporte ativo, o bebê nasce com um número superior de anticorpos", detalha Flávia Bravo.

A falta de imunização em bebês também gera preocupação. O Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe do Ministério da Saúde notificou, até 19 de setembro deste ano, quase 4 mil casos de SRAG em crianças menores de 2 anos causados por influenza, resultando em 55 mortes.

Os casos graves confirmados de covid-19 nessa faixa etária somam 808, com 18 mortes. Desde 2023, ano em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o fim da pandemia, pelo menos 9.725 crianças com menos de 2 anos adoeceram gravemente devido à covid-19, resultando em 223 mortes.

As vacinas de RNA mensageiro atualmente aplicadas em gestantes e crianças no Brasil demonstraram efetividade de quase 100% na prevenção de óbitos por covid-19. A vacinação contra a gripe pode reduzir o risco de morte em até 75%.

Segundo Giuliane Lajos e Flávia Bravo, a vacinação das gestantes, juntamente com a imunização das crianças a partir dos 6 meses, é fundamental para a diminuição desses números. Um exemplo do potencial da vacinação com alta cobertura é a trajetória de casos de vírus sincicial respiratório.

Iniciada no ano passado, a vacinação já alcançou 1,7 milhão de gestantes, resultando em uma cobertura estimada de 86% do público-alvo. Combinada com a aplicação de anticorpos monoclonais em bebês prematuros ou com comorbidades, já apresenta resultados positivos.

No primeiro semestre de 2026, foram registrados 6.674 casos graves em bebês com até 6 meses de idade, menos da metade dos 14.061 casos registrados no mesmo período do ano anterior.

Coqueluche

A trajetória da vacinação no Brasil apresenta outros exemplos do impacto dessa imunização secundária. A introdução da vacina dT em mulheres e gestantes desde a década de 1960 ajudou o Brasil a erradicar o tétano neonatal, uma condição adquirida pelo bebê no parto, que pode resultar em quadros graves e potencialmente fatais. A difteria também foi praticamente eliminada no país, com menos de 40 infecções confirmadas nos últimos dez anos.

Contudo, diante dos surtos de coqueluche em recém-nascidos a partir de 2014, o SUS passou a oferecer a dTpa para gestantes, adicionando a proteção contra a bactéria Bordetella pertussis, que causa tosse, febre e pode evoluir para dificuldades respiratórias.

O calendário vacinal dos bebês prevê a vacinação contra a coqueluche, mas a primeira dose é aplicada aos 2 meses, e o esquema só é completado aos 6 meses de idade. Isso significa que os recém-nascidos dependem da imunização materna para não contrair a doença, ou para não adoecer gravemente caso sejam infectados.

De acordo com o Ministério da Saúde, a cobertura vacinal da dTpa em gestantes aumentou de 34% em 2016 para 94% em 2025. Os dados preliminares deste ano indicam uma cobertura de 88%. Além disso, desde 2023, a vacinação em bebês tem se mantido próxima de 90%.

Como resultado, os casos de coqueluche no Brasil têm diminuído, mas ainda são significativos e reforçam a necessidade de proteger especialmente os bebês. Em 2024, foram 7.747 infecções confirmadas, caindo para 2.744 em 2025 e 401 até 10 de setembro deste ano.

Cerca de 20% dos infectados nesse período tinham menos de 1 ano, mas essa porcentagem sobe para mais de 90% quando se analisam as mortes pela doença. Dos 11 óbitos registrados em 2026, nove foram de bebês com menos de 1 ano, sendo oito com menos de 6 meses de idade.

Profissionais de saúde

As duas especialistas consultadas pela Agência Brasil também enfatizam que todas as vacinas aplicadas durante a gestação foram devidamente testadas e não representam riscos para a gestante ou o bebê. "A vacina contra a covid-19, que enfrenta mais resistência, se tornou o imunizante mais estudado do mundo. E não há nenhum risco comprovado de malformação fetal, autismo, morte, nada", afirma a ginecologista Giuliane Lajos.

A diretora da SBIm, Flávia Bravo, também pede que os profissionais de saúde sejam mais assertivos em desmentir essas informações falsas e orientar os pacientes corretamente.

"Imunização, na verdade, não é um tema muito bem compreendido por muitos médicos. Grande parte deles acaba utilizando as mesmas fontes que a população em geral e não faz o que deveria, que é buscar informações em fontes fidedignas, revisar ensaios clínicos e dados de vigilância", critica.

A médica da família Catarina Jatobá de Souza, que atende Nataly na Clínica da Família Ricardo Lucarelli, no centro do Rio de Janeiro, esclarece que o cartão de vacinação é verificado logo na primeira consulta e, sempre que necessário, a gestante é encaminhada para a sala de vacina adjacente.

 
A médica da família Catarina Jatobá atende Nataly Saldanha na Clínica da Família, na região central do Rio de Janeiro - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

"Isso é muito conveniente, pois a gestante já aproveita o dia da consulta para realizar ambos os procedimentos, e sabemos que, se a vacinação for agendada para outro dia, pode ocorrer uma perda. Portanto, tentamos também agendar as consultas para o dia em que a gestante deve se vacinar", detalha.

Outros profissionais também se dedicam a preencher a carteira de vacinação das gestantes. "O agente comunitário realiza visitas domiciliares mensalmente durante a gravidez e também reforça com os pacientes a necessidade de levar a carteira de vacinação para a consulta, além de nos informar se alguma gestante está atrasada", relata a médica.

Raissa Silva de Oliveira, que também realiza pré-natal na rede pública, mas em uma unidade diferente, quase recebeu uma advertência de sua agente de saúde. "Recebi uma ligação do posto lembrando da vacinação contra o VSR, pois não havia comparecido, mas tomei no supercentro de vacinação do shopping. A moça não aceitou apenas minha palavra e pediu que eu enviasse uma foto da carteirinha para ela verificar."

Até momentos de interação, como reuniões de grupos de gestantes e pais, ou atividades de descontração, como o dia de pintura da barriga, se tornam oportunidades para a conscientização. "Aproveitamos para conversar sobre a importância das vacinas com toda a família", acrescenta Catarina Jatobá.

A médica defende que esses encontros são essenciais para que as gestantes dialoguem com outras mulheres que já se vacinaram e estão bem. "Sempre digo que nunca testemunhei nenhum caso grave causado pela vacina, ao contrário das doenças. Contudo, elas podem comprovar por si mesmas que não há risco", argumenta.

A gestante nota 10, Nataly Saldanha, é um exemplo de como essa prática faz diferença. "Na minha primeira gestação, não tive acesso a nada disso. É incrível poder dialogar com outras mães. Hoje há muitas novidades, incluindo novas vacinas, como a da covid e da bronquiolite. Estou redescobrindo tudo novamente."

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