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A formação de jogadores já não é somente uma fase de preparação para o time profissional. Nos principais clubes da Europa, a base assume várias funções: alimentar o time principal, preservar uma identidade de jogo, gerar ativos para o mercado e até ajudar a equilibrar as finanças.
Os objetivos variados explicam por que clubes como Real Madrid, Manchester City, Chelsea, Barcelona, Benfica e Ajax, apesar de investirem em estruturas de formação de alta qualidade, não utilizam suas academias de maneira semelhante. Os dados mais recentes do CIES Football Observatory — divulgados em abril deste ano — ajudam a ilustrar essa realidade.
Os números são reveladores, pois quebram uma percepção comum. Os clubes mais ricos não são necessariamente os que mais dependem de suas formações, nem os que mais lucro obtêm com elas. O que muda é a finalidade da formação.
A ordem das prioridades varia: para alguns, a chegada do jovem ao time principal é crucial; para outros, o desenvolvimento é considerado um sucesso mesmo quando o atleta deixa o clube sem construir uma trajetória longa na equipe principal. Tudo depende da perspectiva.
La Masia: a formação como preservação da identidade do Barcelona
Yamal em ação pelo Barcelona (Foto: Bagu Blanco / Pressinphoto / IMAGO)
A relação do Barcelona com sua base é um exemplo onde a formação está diretamente ligada à identidade esportiva do clube. La Masia não é vista apenas como um centro de desenvolvimento de jogadores, mas também como um espaço que busca transmitir uma forma particular de entender o futebol e a cultura do Barcelona. O clube considera a base um dos fundamentos de sua identidade e enfatiza a formação educacional, pessoal e esportiva dos atletas.
A influência dessa estrutura se revela quando jogadores oriundos do clube chegam ao time principal já familiarizados com os conceitos que fazem parte da tradição culé. Jogadores como Xavi, Iniesta, Busquets e Messi são exemplos históricos dessa lógica, enquanto Lamine Yamal, Alejandro Balde, Fermín López e Pau Cubarsí representam a continuidade desse processo em uma geração mais recente.
Isso não quer dizer que todos os atletas formados em La Masia precisam atuar no Camp Nou para que a base cumpra sua função. A diferença é que, quando um talento se estabelece no time principal, o retorno esportivo pode ser muito maior do que uma eventual venda. O jogador torna-se parte da construção do elenco e, ao mesmo tempo, reforça uma identidade que o clube busca manter.
Além do campo, a formação no Barcelona também inclui suporte acadêmico, emocional e pessoal, além do aprimoramento esportivo. O objetivo é criar uma conexão entre o crescimento do atleta e a cultura do clube.
Ajax: uma filosofia de jogo enraizada desde a base
Revelado pelo Ajax, Frenkie de Jong foi a segunda maior venda da história do gigante neerlandês (Foto: Andy Rowland / PRiME Media Images / IMAGO)
O Ajax também tem uma forte conexão com sua academia, mas essa lógica difere da do Barcelona. De Toekomst (centro de treinamento da base do Ajax) está atrelado à maneira como o clube espera jogar e formar seus atletas, com uma filosofia que acompanha o jogador ao longo de todas as categorias. A influência de Johan Cruyff serve como uma ponte histórica entre as duas filosofias, mas os métodos de formação não são exatamente os mesmos.
No Ajax, essa uniformidade assume um papel ainda mais crucial, pois a formação é uma resposta à realidade competitiva do clube.
Devido à limitação financeira em comparação com os gigantes das cinco principais ligas europeias, o desenvolvimento de jogadores se torna uma maneira de manter a competitividade e, posteriormente, aproveitar o valor gerado por esses atletas no mercado.
A dimensão econômica é uma consequência direta desse processo. Como mencionado, o clube holandês arrecadou 454 milhões de euros em receitas de transferências de atletas formados em sua academia na última década, o segundo maior valor entre todos os times analisados.
A diferença em relação ao Barcelona reside exatamente na importância que a venda de jogadores tem dentro do modelo. Ambos têm uma forte identidade de jogo, mas o Ajax convive mais diretamente com a saída de seus principais talentos, o que é parte natural de sua estrutura competitiva.
Benfica: a formação como núcleo do modelo de negócios
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O Benfica se aproxima mais dessa lógica de desenvolvimento e valorização. O Seixal (base benfiquista) tornou-se um elemento importante da estratégia do clube, pois permite identificar, desenvolver e preparar jogadores para o futebol profissional antes que eles alcancem seu valor máximo de mercado.
Um exemplo notável é João Félix, mas o processo não depende de um único atleta. A base funciona como uma engrenagem que nutre o elenco profissional e, quando o jogador não encontra oportunidades ou atinge um nível de valorização que atrai grandes clubes europeus, pode resultar em transferências que financiam novas etapas do projeto.
O Benfica lidera o ranking de receitas geradas por jogadores formados na academia na última década, com 589 milhões de euros. Dois terços dessa quantia foram obtidos nos últimos cinco anos do período analisado.
Dentro desse modelo, a saída de um jogador não necessariamente representa um revés no planejamento. Ao contrário: faz parte de uma cadeia em que a formação deve continuar a produzir novos talentos enquanto os anteriores avançam para mercados mais lucrativos.
City e Chelsea: a qualidade da base frente à exigência de elencos milionários
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Tanto o Manchester City quanto o Chelsea enfrentam um desafio distinto. As duas equipes contam com estruturas de formação capazes de produzir atletas para o mais alto nível, mas estão inseridas em clubes que conseguem contratar jogadores prontos por preços elevados. Essa realidade cria um obstáculo adicional para qualquer jovem que busca espaço no time principal.
Phil Foden é um exemplo notável no Manchester City. Crescendo dentro do clube, ele se destacou e se firmou como uma peça-chave do elenco. No entanto, o caminho de Foden não é o destino de todos os jogadores da City Football Academy. Para muitos, uma transferência pode representar a chance de jogar regularmente e converter a formação recebida em uma carreira profissional.
O mesmo se aplica ao Chelsea. Cobham produziu jogadores que chegaram ao time principal, como Reece James, mas também atletas que acabaram negociados. A academia, nesse contexto, deve ser avaliada em função de um plantel que compete por títulos e recebe investimentos constantes no mercado.
O dilema é simples: quanto mais forte for o elenco profissional, menor será o espaço para uma geração inteira de jovens. Isso não diminui o valor da academia, mas implica que o retorno pode vir de duas formas: no jogador que se estabelece no time principal ou naqueles que deixam o clube após serem valorizados.
Real Madrid: a importância de formar jogadores que nem sempre jogam no Bernabéu
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O Real Madrid aplica essa lógica em um nível elevado. La Fábrica continua a produzir jogadores em grande quantidade, mas o caminho para o time principal é especialmente restrito. A alta exigência esportiva do clube, aliada à capacidade de contratar estrelas, faz com que muitos jogadores formados na base precisem desenvolver suas carreiras em outras equipes.
Isso não diminui a relevância da academia no planejamento madridista. Um jogador pode não encontrar espaço no Bernabéu e, ainda assim, deixar o clube com uma formação que aumenta seu valor de mercado. Alguns constroem carreiras significativas na Espanha, enquanto outros seguem para diferentes ligas da Europa. O retorno, portanto, não precisa necessariamente ocorrer dentro do próprio elenco.
O Football Benchmark registrou 218 milhões de euros em receitas com transferências de jogadores formados na academia do Real Madrid entre 2019/20 e 2024/25. Este valor foi o mais alto entre os campeões analisados no relatório, que avaliou seis campeões nacionais europeus. Na temporada 2024/25, o Real contava com 14 jogadores formados em sua academia no plantel principal.
O caso do Real Madrid demonstra que uma base pode ser estratégica mesmo quando seus principais produtos não se tornam titulares no time profissional. O clube é capaz de formar jogadores, ampliar suas possibilidades de carreira e, em certos casos, transformar esse desenvolvimento em receita.
Em resumo, não há uma única forma de utilizar uma base. O Barcelona aposta na relação entre formação e identidade; o Ajax combina uma filosofia de jogo bem definida com a necessidade de desenvolver talentos para competir e negociar; o Benfica transformou o processo em uma engrenagem esportiva e financeira; o City e o Chelsea precisam equilibrar a formação com a concorrência de elencos milionários; e o Real Madrid lida com uma porta de entrada extremamente estreita para o time principal.
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