O Ibovespa encerrou maio com a maior queda mensal em mais de três anos, após uma sequência de baixas que o distanciou da marca inédita de 200 mil que ensaiou atingir em meados de abril.
O índice fechou o mês com queda de 7,22%, o pior desempenho desde o declínio registrado em fevereiro de 2023 (-7,49%). Tal movimento teve como pano de fundo a saída de estrangeiros do mercado nacional, que vinham sustentando as ações brasileiras.
O saldo de capital externo da bolsa no mês estava negativo em R$ 14,1 bilhões até o dia 27 de maio, excluindo ofertas de ações (IPOs e follow-ons), segundo dados da B3.
Estrategistas têm apontado que o desempenho reflete uma rotação de capital de volta para o setor de tecnologia nos Estados Unidos e na Ásia. Não obstante, os índices de Wall Street renovaram recordes nos últimos dias.
Além disso, apontam como pesos negativos ao mercado a perspectiva de um ciclo de cortes mais lento da Selic e incertezas com o cenário eleitoral.
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“O apetite por inteligência artificial seguiu sendo o principal motor das bolsas americanas, em contraste com o desempenho mais fraco dos mercados emergentes, principalmente em países que possuem menor peso nessa temática”, avalia Bruna Sene, analista de Renda Variável da Rico.
Para Rodrigo Moliterno, head de Renda Variável da Veedha Investimentos, o “Risco Brasil” e a saída dos investidores estrangeiros é o que tem ditado o movimento da bolsa nas últimas semanas.
“A bolsa realmente está um pouco à mercê do nosso atual nível de juros e cenário fiscal, o que vai corroendo as atratividades e as expectativas de melhora. O estrangeiro segue fazendo um movimento de rotação, saindo de Brasil e voltando para empresas de tecnologia”, avalia.
Já Josias Bento, especialista em investimentos da GT Capital, avalia que a queda na bolsa é reflexo de uma relação risco-retorno do mercado brasileiro com as bolsas mundiais.
“Mesmo o Brasil sendo um dos principais países emergentes para receber capital estrangeiro, a queda de juros mais curta e morosa e a instabilidade fiscal vão fazendo essa oportunidade escorrer pelo ralo e o primeiro reflexo é a bolsa de valores perdendo capital.”
Além disso, o cenário geopolítico ainda está pesando no sentimento do mercado, levando a maior cautela dos investidores.
De acordo com Sene, o mercado alternou entre esperança e frustração com as negociações sobre o Oriente Médio das últimas semanas. Para ela, o roteiro dos últimos dias de maio foi semelhante, mas com um elemento adicional: o conflito completou três meses sem resolução definitiva.
“O mercado começa a incorporar de forma mais clara a ideia de que o cenário de incerteza pode perdurar”, avalia.
PCC e CV terroristas
A perspectiva para os ativos brasileiros fica ainda pior após a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho como “Terroristas Globais Especialmente Designados”.
Na avaliação de Cesar Queiroz, fundador da Queiroz Investimentos, a partir de agora, o Brasil passa a carregar um rótulo extremamente negativo perante o mercado global.
“Isso significa que setores estratégicos da economia, como sistema financeiro, infraestrutura, energia, mineração e agronegócio, além de empresas que operam internacionalmente, deverão enfrentar processos mais severos”, diz.
Para Queiroz, o mercado internacional passará a olhar para o país com um nível maior de cautela, o que deve elevar a pressão sobre bancos e instituições financeiras que operam no Brasil.
“Bancos digitais, fintechs, meios de pagamento e demais instituições financeiras passam a conviver com uma realidade de auditorias mais profundas e fiscalização mais intensa sobre a origem do capital movimentado.”
Perspectivas
No relatório Diário do Grafista de sexta-feira (29), analistas do Itaú BBA destacaram que o Ibovespa está em tendência de baixa no curto prazo e terá caminho livre para uma realização de lucros mais intensa se ficar abaixo de 173.500 pontos.
“Para sair dessa tendência de baixa e retornar a um cenário neutro, o Ibovespa terá que superar a região de 179.500 pontos”, afirmaram.
Nesta semana, o UBS cortou a recomendação das ações brasileiras de “atrativas” para “neutra”, citando uma mudança no perfil de risco versus retorno, acrescentando que a visão mais ampla para mercados emergentes continua construtiva.
A equipe do banco destacou, em relatório a clientes, que a reprecificação dos valuations, o afrouxamento monetário, fortes entradas de capital estrangeiro em meio à demanda por diversificação em mercados emergentes e um cenário macroeconômico resiliente já se materializaram amplamente no desempenho do Ibovespa desde meados do ano passado.
O UBS destaca tanto um crescimento de lucros quanto a expansão dos múltiplos.
“Três fatores adversos convergentes agora alteram, em nossa visão, o equilíbrio de risco-retorno: o aumento da incerteza política relacionada às eleições, um ciclo de afrouxamento monetário do BC mais curto e menos intenso, e a aceleração do afrouxamento fiscal no período pré-eleitoral”, pontuou.
“Embora os fundamentos permaneçam resilientes, essas dinâmicas devem manter o equilíbrio entre risco e retorno até a eleição de outubro.”
O sentimento em relação à bolsa piorou em comparação a abril, segundo uma pesquisa com assessores e consultores vinculados à XP divulgada na quinta-feira (28). De acordo com o estudo, a renda fixa segue como a classe de ativos preferida dos clientes, seguida de ativos internacionais.
“Instabilidade política e eleições são as principais preocupações, seguidas pelos riscos fiscais no Brasil e pelos riscos geopolíticos”, revelou a pesquisa.
*Com informações da Reuters
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