A indústria brasileira de lácteos acompanha com preocupação o avanço das importações e os efeitos do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que deve ampliar a concorrência no mercado nacional nos próximos anos. A avaliação é de Angelo Sartor, CEO da RAR Agro & Indústria, que alerta para uma possível perda de competitividade da produção nacional de queijos de maior valor agregado.
Segundo Sartor, o setor já enfrenta uma pressão significativa provocada pela entrada de produtos importados, principalmente de países do Mercosul. Atualmente, as importações de leite em pó e queijos representam cerca de 8% do mercado brasileiro, percentual que, na avaliação do executivo, tem impacto direto sobre os preços praticados no mercado interno.
“O mercado tem sofrido significativamente em função das importações que têm continuado ao longo dos últimos anos, principalmente do Mercosul. Estamos falando de um volume que representa aproximadamente 8% da produção nacional”, afirma.
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De acordo com o executivo, a entrada desses produtos aumenta a oferta no mercado e contribui para uma redução dos preços recebidos pela indústria e pelos produtores rurais. A situação se tornou ainda mais delicada após a confirmação de práticas de dumping nas importações de leite em pó oriundas da Argentina e do Uruguai.
“Foi comprovado que existia dumping sendo realizado, mas o governo optou por não atuar. Existe um lado positivo, que é evitar aumento de preços para o consumidor final, mas o produtor brasileiro acaba sendo extremamente prejudicado na sua rentabilidade”, diz.
A preocupação do setor se intensifica com o início da implementação do acordo entre Mercosul e União Europeia. Desde maio, as tarifas de importação para diversos produtos lácteos europeus começaram a ser reduzidas gradualmente. No caso dos chamados queijos duros, a alíquota caiu de 28% para 25,2% e continuará diminuindo até chegar a zero dentro de dez anos.
Embora o prazo pareça longo, Sartor destaca que o horizonte preocupa as empresas que precisam planejar investimentos de longo prazo.
“Dez anos pode parecer muito tempo, mas para quem investe em uma planta industrial não é. Entre aprovar um projeto, construir e colocar uma unidade em operação, muitas vezes já se passaram três anos”, afirma.
A principal preocupação está justamente no segmento em que a empresa atua. A empresa é especializada em produtos de maior valor agregado, como queijo tipo grana, manteigas especiais, creme de leite e outros derivados premium.
“Nós produzimos queijo tipo grana e outros produtos de valor agregado. Vamos sofrer uma concorrência muito mais acirrada com os produtos europeus. A produção deles acontece em volumes muito maiores e eles contam com subsídios importantes fornecidos pelos governos da União Europeia”, afirma.
Segundo as estimativas da empresa, a retirada gradual das tarifas poderá gerar uma diferença expressiva de competitividade entre os produtos nacionais e os importados.
“A nossa estimativa é que o custo do produto chegando ao Brasil fique aproximadamente 20% inferior ao nosso custo de produção. Isso reduz bastante a nossa competitividade”, destaca Sartor.
O executivo avalia que os maiores impactos devem ocorrer justamente nos segmentos de queijos especiais e vinhos, produtos nos quais a Europa possui tradição, escala produtiva e forte apoio governamental.
“O acordo foi muito benéfico para alguns setores, especialmente proteínas animais. Mas lácteos e vinhos talvez sejam os dois segmentos que mais sentirão os efeitos dessa abertura comercial.”
Diante desse cenário, a estratégia da empresa tem sido concentrar esforços em produtos diferenciados e em consumidores que valorizam qualidade, origem e processos produtivos mais rigorosos.
“No segmento de laticínios, os investimentos têm sido reduzidos porque ainda temos uma pequena ociosidade industrial. Nossa prioridade é manter a estrutura existente e buscar eficiência”, afirma.
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