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Segunda-feira, 15 de Junho de 2026

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Mais do que tese, investir em infraestrutura no Brasil exige contexto 

Em artigo para o CNN Infra, Felipe Nobre, sócio cofundador e CEO da Jera Capital, avalia que o país precisa de investimento privado em infraestrutura. Mas o tipo de capital, o momento de entrada e a estrutura do ativo determinam se a equação fecha ou não

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Mais do que tese, investir em infraestrutura no Brasil exige contexto 
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Toda infraestrutura no Brasil é regulada. Transporte, energia, saneamento, telecomunicações – não existe ativo relevante nessa classe que opere fora de algum marco regulatório. Essa é uma constatação, não uma crítica. A dificuldade aparece quando a regulação que deveria dar estabilidade ao investimento de longo prazo se torna sensível ao ciclo político. No Brasil, essa sensibilidade existe e precisa ser precificada por quem decide entrar nessa classe.

Isso não significa que o Brasil não oferece oportunidades em infraestrutura. Oferece. Elas exigem, porém, um tipo específico de capital, uma tese de entrada bem definida e uma leitura honesta dos riscos que o ambiente local impõe.

Demanda real, execução incerta

O gap de infraestrutura brasileiro é documentado e persistente. Tivemos avanços, é claro. As debêntures incentivadas de infraestrutura, que trazem isenção de imposto de renda para o investidor pessoa física, criaram uma fonte relevante de financiamento e viabilizaram projetos que de outra forma não sairiam do papel. Se votado e aprovado pelo Senado, o projeto de lei que institui o novo marco legal das concessões e PPPs e que possui instrumentos mais sofisticados deve atrair capital privado.

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O que ainda escapa aos modelos financeiros mais otimistas, no entanto, é o risco operacional que surge depois que o capital já está comprometido. Um caso concreto ajuda a ilustrar. Nos últimos anos, muitos investidores alocaram capital em energia renovável no Brasil com teses sólidas: havia uma demanda crescente, o custo de geração estava em queda e o arcabouço regulatório aparentava ser estável.

O que não estava suficientemente precificado era o curtailment, prática que consiste na interrupção da geração de energia nas usinas quando a rede de transmissão não suporta a carga produzida. Trata-se de uma medida de natureza técnica que, na percepção de gestores do setor, passou a carregar um grau de discricionariedade preocupante, criando incerteza para quem já tinha capital comprometido e prejudicando projetos bem estruturados. Estimativas do setor apontam prejuízos bilionários aos agentes nos últimos dois anos, e os cortes seguem em trajetória de alta. Esse é o tipo de variável que não aparece na planilha de viabilidade, mas que tem forte impacto na vida do investidor.

Oportunista ou estrutural, a distinção que define a estratégia

Há duas formas muito diferentes de investir em infraestrutura, e confundi-las é o principal equívoco que investidores cometem nessa classe.

O investimento estrutural é aquele em que o capital entra para ficar por décadas, capturando o fluxo de caixa previsível de um ativo concedido. Esse modelo funciona bem em ambientes onde a segurança jurídica é consolidada e a regulação resiste às alternâncias de poder. Há países que oferecem esse ambiente de forma consistente, e para esse perfil de alocação, eles competem com vantagem real.

Já o investimento oportunista segue outra lógica. O capital entra para resolver uma situação específica, seja um ativo subprecificado, uma estrutura que precisa ser reorganizada ou um projeto que travou por razão não operacional. O prêmio de risco compensa a incerteza, e o horizonte de saída é mais definido desde o início. Esse formato já funcionou no Brasil e pode funcionar de novo. Nós mesmos, na Jera, já participamos de situações assim, investindo em estradas e em energia distribuída. Quando a tese de entrada está bem calibrada os resultados tendem a ser bastante positivos.

Para avaliar o potencial desses ativos, as perguntas corretas nunca devem ser genéricas, mas específicas. Qual é a natureza do capital em jogo? Qual é a tese de entrada? E o que o ativo em questão exige em termos de estabilidade regulatória para que os retornos projetados, de fato, se realizem?

O que o olhar global oferece de perspectiva

Internacionalmente, infraestrutura tem uma forte correlação histórica com inflação. Ativos de transporte, energia e logística em mercados com regulação estável entregam fluxo de caixa previsível e defensivo, com baixa correlação com mercados de ações. Para uma família que pensa em preservar poder de compra ao longo de gerações, essa combinação tem valor que vai além do retorno nominal.

Energia renovável na Europa, alavancada pela urgência de segurança energética que o conflito na Ucrânia provocou, foi uma dessas janelas. Data centers nos Estados Unidos, sustentados pela demanda crescente por capacidade computacional, são outra. A infraestrutura ligada à inteligência artificial representa hoje um dos maiores vetores de alocação de capital de longo prazo no mundo desenvolvido.

Porém, vale um alerta aqui: quando uma tese parece óbvia demais, o preço já capturou parte do upside antes de você entrar. Exatamente por isso é preciso mais rigor na análise de entrada, não menos.

O que mudaria a equação doméstica

O capital de longo prazo que family offices alocam em infraestrutura precisa de uma certeza básica: que o contrato assinado hoje será honrado daqui a 25 anos, independentemente de quem estiver no poder. Isso é algo que demanda consistência, e consistência se constrói ao longo de décadas.

O Brasil tem instrumentos melhores do que tinha há dez anos. O arcabouço de concessões evoluiu e o mercado de capitais desenvolveu produtos adequados para canalizar o investidor doméstico para essa classe. Há projetos sérios em andamento em diferentes segmentos.

O que ainda se constrói é o histórico de respeito contratual que transforma intenção em convicção para o investidor de prazo mais longo. Enquanto esse histórico se consolida, o capital mais criterioso vai calibrar sua exposição de forma seletiva, entrando onde a relação risco-retorno justifica o investimento e com critérios mais exigentes do que aplicaria em mercados de trajetória regulatória mais previsível.

Quem gere patrimônio com responsabilidade lê o contexto antes de assinar qualquer compromisso.

* Felipe Nobre é cofundador e CEO da Jera Capital, gestora que tem hoje mais de R$ 7 bilhões sob gestão e atende mais de 50 famílias. A Jera Capital possui ou já possuiu posições em ativos de infraestrutura mencionados neste artigo, no Brasil e no exterior

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
FONTE/CRÉDITOS: robsonrodrigues
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