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Sabado, 12 de Setembro de 2026

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Por que ucranianos estão lutando contra a Rússia em um deserto africano?

Operadores de drones são deslocados para a África e o Oriente Médio para enfraquecer a Rússia fora do território ucraniano

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Por que ucranianos estão lutando contra a Rússia em um deserto africano?
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As condições são extenuantes. As temperaturas passam frequentemente de 43°C durante o dia e caem bruscamente durante a noite. A água é escassa e a poeira e a areia se infiltram em todo lugar. Mas pelo menos eles estão trabalhando a céu aberto. Esse grupo de elite de operadores de drones ucranianos passou anos caçando russos em trincheiras na Ucrânia. Eles continuam fazendo o mesmo — mas no deserto no norte do Mali.

Cerca de 15 especialistas ucranianos foram destacados ao país governado por uma junta na região do Sahel africano para auxiliar forças rebeldes locais que combatem tropas russas — parte da missão de Kiev de enfraquecer seu inimigo onde quer que ele atue. Kiev também expandiu sua atuação para outros teatros de conflito, capitalizando sua expertise duramente conquistada em guerra de drones para forjar novas parcerias antirussas.

Em conversas com soldados e oficiais ucranianos envolvidos em operações no Mali e na Líbia, a CNN pode revelar pela primeira vez a extensão dessas operações em outros continentes.

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Uma fonte da Inteligência de Defesa ucraniana com conhecimento das operações disse à CNN que vários especialistas ucranianos também estavam estacionados no Sudão e que tropas do Chade, do Níger e de Burkina Faso haviam viajado anteriormente ao Mali para receber treinamento com drones de soldados ucranianos.

Quando o Irã começou a atacar aliados dos EUA no Oriente Médio no início deste ano, a Ucrânia enviou equipes de especialistas militares a pelo menos cinco países da região. Eles passaram várias semanas ensinando forças locais a abater os drones Shahed de fabricação iraniana que a Rússia tem usado para aterrorizar a Ucrânia há vários anos.

Um soldado ucraniano que foi deslocado aos Emirados Árabes Unidos disse à CNN que eles operavam em equipes combinadas com tropas locais que os acompanhavam e reproduziam cada um de seus movimentos.

Em troca do compartilhamento de seu conhecimento, Kiev recebeu uma série de acordos de cooperação em segurança e promessas de munição.

No Sahel, uma vasta região semiárida ao sul do Deserto do Saara, a situação é mais complicada.

A Rússia tem tentado se afirmar como um ator de poder na África, especialmente na região do Sahel, rica em minerais e propensa a golpes. Ela tentou preencher o vácuo de segurança deixado pela retirada das forças francesas e de outras forças ocidentais nos últimos anos, sustentando governos em troca de dinheiro e lucrativos direitos de mineração.

A princípio, o Kremlin terceirizou essas operações para o Grupo Wagner, uma empresa militar privada de propriedade do senhor da guerra empreendedor Yevgeny Prigozhin. Após a morte de Prigozhin, ocorrida depois de sua tentativa de golpe em 2023, Moscou fundiu o que restava do Wagner com suas forças militares regulares, criando o Africa Corps, que atua em apoio aos aliados locais de Moscou.

“Adaptação séria”

O grupo ucraniano no Mali está integrado a um grupo separatista que se autodenomina Frente de Libertação do Azawad e é composto majoritariamente por rebeldes tuaregues do norte. Eles não estão diretamente envolvidos nos combates na linha de frente, mas fornecem aos rebeldes apoio, treinamento e assistência operacional, conforme relataram à CNN dois ucranianos destacados no local.

“Eu coordeno as operações deles remotamente. O sinal do drone deles chega até mim pela internet, e eu imediatamente digo a eles pelo rádio o que fazer e para onde voar”, disse à CNN um dos operadores de drones ucranianos atualmente no Mali.

“Eles saem em missões, depois voltam para mim, e revisamos cada detalhe de suas ações. Eu mesmo não vou às linhas de frente — essa foi uma ordem direta dos meus superiores”, afirmou ele.

A Rússia acusou anteriormente a Ucrânia de participar de massacres contra civis no Mali — acusação que Kiev negou. Separadamente, o grupo de direitos humanos Human Rights Watch divulgou dois relatórios ao longo do verão acusando tropas russas no Mali de matar civis, e outro relatório afirmou que “todas as partes” diretamente envolvidas no conflito atacaram ilegalmente civis durante uma escalada de violência em abril. O relatório não mencionou a Ucrânia.

Questionado sobre as acusações no mês passado, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, disse a repórteres que o Africa Corps “opera estritamente dentro dos limites da legalidade” e “em resposta a pedidos oficiais dos governos legítimos dos estados africanos”.

A fonte da Inteligência de Defesa ucraniana disse à CNN que o objetivo dos destacamentos no exterior é pressionar a Rússia e minar a noção de que Moscou pode ser um aliado confiável. “Estamos transformando nossa experiência no campo de (drones) em uma ferramenta de política externa”, disse a fonte.

Mas ele afirmou que a missão também é benéfica para os ucranianos porque lhes dá a oportunidade de testar seus equipamentos e habilidades em um ambiente completamente diferente — e de mostrar aos parceiros que seus métodos funcionam em qualquer lugar.

“Poeira e calor fazem os equipamentos falharem mais rapidamente. Filtros, resfriamento, proteção de eletrônicos, baterias… tudo funciona de forma diferente (e) exige adaptações sérias”, disse ele, acrescentando que até mesmo a forma como a guerra é travada é completamente diferente.

“Na Ucrânia, é alta intensidade, ataques massivos, pressão constante. Aqui é mais uma guerra de manobra em grandes territórios, emboscadas, controle de rotas, trabalho em pequenos grupos e dependência do conhecimento do terreno.”

Diferenças de disciplina e treinamento exigem adaptação de ambos os lados, disse ele, acrescentando: “Nós os ensinamos táticas; eles nos ensinam a sobreviver e a lutar.”

A Rússia também está usando suas operações na África para expandir e adaptar sua tecnologia militar. Ainda nesta semana, a exportadora estatal de armas Rosoboronexport apresentou novos mísseis e drones no El Alamein International Airshow, no Egito, com o chefe da agência dizendo à agência de notícias estatal russa TASS que essas armas são “comprovadas” para o combate na África e no Oriente Médio.

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Confiança crescente

Os contingentes ucranianos são pequenos, mas são um sinal da confiança crescente da Ucrânia de que sua expertise em drones elevou seu status global.

Héni Nsaibia, analista sênior para a África Ocidental do Armed Conflict Location & Event Data (ACLED), um monitor de conflitos independente, disse à CNN que o Mali é um dos países onde a Rússia agora desempenha um papel crucial.

“Eles fornecem uma tábua de salvação essencial para o regime”, disse ele, acrescentando que as forças do Africa Corps foram “fundamentais para evitar um colapso mais profundo, e possivelmente até a queda do regime.”

“Mas (os russos) também precisam desse regime militar no poder para conseguir permanecer no Mali”, acrescentou Nsaibia.

As primeiras alegações de que a Ucrânia estava ajudando os tuaregues surgiram em 2024. Em julho daquele ano, os rebeldes emboscaram e mataram dezenas de combatentes do Wagner e soldados malineses perto da cidade de Tinzaouaten, na fronteira com a Argélia.

Andriy Yusov, porta-voz da Inteligência de Defesa da Ucrânia, afirmou na época que os rebeldes receberam “informações necessárias” para combater os russos. E embora a Ucrânia tenha posteriormente negado qualquer cooperação substancial com os rebeldes, o comentário de Yusov gerou uma reação negativa das juntas militares do Mali, Níger e Burkina Faso, que apresentaram uma queixa oficial ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, acusando a Ucrânia de patrocinar terroristas.

A CNN pediu um comentário à Inteligência de Defesa para este artigo e foi encaminhada a declarações anteriores feitas por autoridades.

O operador de drone disse à CNN que os ucranianos também auxiliaram os rebeldes na tomada da estratégica cidade de Kidal, no norte do Mali, no início deste ano. Os rebeldes tuaregues e militantes ligados à al Qaeda lançaram ataques simultâneos contra as tropas russas, forçando-as a recuar.

O Ministério da Defesa russo acusou Kiev de ter desempenhado um papel no ataque, afirmando em um comunicado que “instrutores mercenários ucranianos e europeus” treinaram os rebeldes antes do assalto.

Nsaibia disse que a tomada de Kidal marcou uma derrota importante para o regime maliano — e para as tropas russas que o sustentam.

“Foi um grande revés terem perdido Kidal e precisado negociar um corredor seguro para conseguir se retirar”, disse ele à CNN. No entanto, Nsaibia afirmou que a situação poderia ter sido muito pior para o regime maliano, não fosse pela assistência do Africa Corps da Rússia.

“Atacados pelos mesmos idiotas”

O ataque em Kidal evidenciou a enorme diferença que os drones podem fazer no campo de batalha no Mali e em outras partes do Sahel, onde a guerra ainda tende a ser travada de formas mais tradicionais, com tropas de infantaria equipadas com armas rudimentares.

Os ucranianos no Mali disseram à CNN que a parceria com os tuaregues é uma questão de conveniência, não necessariamente de convicção.

“A cultura e a religião são diferentes, mas quando você está sendo atacado pelos mesmos idiotas, as diferenças ideológicas ficam em segundo plano”, disse a fonte da Inteligência de Defesa.

O operador de drone disse à CNN que suas opiniões e sentimentos pessoais são irrelevantes.

Ele descreveu alguns dos rebeldes como “radicais”, propensos a disparar espontaneamente para o ar e a agir de “maneiras perturbadoras”.

“Às vezes é emocionalmente difícil ignorar certas coisas. Acontece que estamos do mesmo lado das barricadas agora… se esses caras conseguirem vencer os russos, ficaremos mais do que felizes em treiná-los”, afirmou.

Ele acredita que qualquer operação que enfraqueça os russos pode ajudar a Ucrânia a avançar em direção à vitória em casa. “Isso coloca pressão sobre eles. Toda essa história tem resultados tanto psicológicos quanto reais”, ele disse.

Uma frota “sombra” russa e um drone naval ucraniano à deriva

No início deste ano, um grupo de pescadores gregos avistou uma misteriosa embarcação flutuando próximo à ilha ocidental grega de Lefkada.

Tratava-se de um drone naval ucraniano carregando explosivos. A Grécia emitiu um protesto diplomático formal à Ucrânia e Kiev se desculpou oficialmente pelo incidente, mas culpou a Rússia por criar a situação ao atacar a Ucrânia e utilizar uma frota “sombra” de petroleiros. Esses navios permitem que a Rússia venda seu petróleo apesar das sanções internacionais, ajudando a financiar a guerra.

O drone havia escapado de operadores ucranianos destacados para o noroeste da Líbia, onde estão estacionados desde o final de 2025, disse à CNN uma fonte da inteligência de defesa ucraniana.

A presença deles lá foi noticiada pela primeira vez pela emissora pública francesa RFI na primavera e, embora nunca tenha sido oficialmente confirmada pelo governo ucraniano, é amplamente conhecida.

Um operador de drone naval ucraniano destacado na Líbia disse à CNN que sua unidade estava usando a base militar internacional em Misrata como ponto de lançamento para atacar a frota sombra da Rússia em troca do treinamento de forças locais.

Assim como o operador de drone aéreo no Mali, ele foi recrutado no início deste ano pela Inteligência de Defesa da Ucrânia diretamente de seu posto anterior na Ucrânia.

A Ucrânia — contribuinte de longa data para missões de paz da ONU no norte e no centro da África antes da invasão em larga escala da Rússia — não escondeu seu desejo de se tornar um tipo diferente de ator no continente.

Kyrylo Budanov, ex-chefe de espionagem da Ucrânia e atual chefe do escritório presidencial de Zelensky, afirmou em 2023 que o objetivo da Ucrânia era “continuar matando russos em qualquer lugar do mundo até a vitória completa da Ucrânia”.

É um sentimento compartilhado por todas as tropas ucranianas que conversaram com a CNN.

Na segunda-feira (7), Budanov voltou a destacar a crescente presença global da Ucrânia, publicando uma declaração nas redes sociais em celebração à sua Inteligência de Defesa por proteger os interesses do país ao redor do mundo, “da Rússia à África, de terno e de camuflagem”.

Conheça o drone kamikaze Shahed-136, usado pelo Irã na guerra

FONTE/CRÉDITOS: afonsobenites
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