O Rio de Janeiro recebeu, entre os dias 6 e 8 de junho, a 82ª Assembleia Geral Anual da International Air Transport Association (IATA) e a Cúpula Mundial do Transporte Aéreo (World Air Transport Summit – WATS), principal encontro da aviação civil mundial.
Cerca de 1.500 participantes, entre executivos, autoridades governamentais, fabricantes, aeroportos e representantes da cadeia aeronáutica, acompanharam a programação. A reunião voltou ao Brasil após 27 anos. A última edição realizada na América do Sul ocorreu em 1999, também no Rio de Janeiro.
A realização da assembleia ocorre em um momento de crescimento do transporte aéreo na América Latina. Dados apresentados pela IATA mostram que, entre 2015 e 2025, a região ampliou em 10,8% o número de rotas disponíveis aos passageiros e elevou em 28,9% a oferta de assentos. Atualmente, a atividade movimenta cerca de US$ 240 bilhões do PIB regional e sustenta 8,3 milhões de empregos.
Brasil amplia movimentação de passageiros
Na abertura da assembleia, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, destacou o avanço da aviação brasileira nos últimos anos.
“Receber a 82ª Assembleia Geral da IATA nesta cidade é muito mais do que um evento de prestígio. É um reconhecimento do lugar que o Brasil ocupa na aviação civil mundial”, afirmou.
Alckmin lembrou que o país registrou quase 130 milhões de passageiros transportados em voos domésticos e internacionais em 2025, crescimento de 9,4% em relação ao ano anterior. Pela primeira vez, o mercado doméstico superou a marca de 100 milhões de passageiros em um único ano.
“Ainda não chegamos ao nosso potencial. Temos mais de 215 milhões de habitantes, uma classe média vigorosa e uma geografia que torna o avião não um luxo, mas uma necessidade”, disse.
A expansão da conectividade, os custos da operação e as condições para ampliar o acesso ao transporte aéreo apareceram em diferentes painéis da programação.
Custos e cenário internacional dominam debates
A sessão de abertura da Cúpula Mundial do Transporte Aéreo trouxe uma atualização das projeções para a indústria aérea global.
A economista-chefe da IATA, Marie Owens Thomsen, apresentou um cenário mais pressionado pela alta do petróleo e pelas consequências do conflito no Oriente Médio. Segundo a entidade, as projeções mais recentes apontam redução de cerca de 50% na rentabilidade esperada para a indústria aérea global, reflexo dos conflitos no Oriente Médio e da alta dos combustíveis.
A discussão prosseguiu no painel “A Visão Geral”, dedicado aos impactos da instabilidade geopolítica sobre a atividade aérea. Entre os assuntos debatidos estiveram o aumento dos custos operacionais, os preços da energia e os desafios para manter a conectividade em um ambiente internacional mais fragmentado.
O tema também foi abordado por Roberto Alvo, CEO do Grupo LATAM Airlines. Com 25 anos de experiência na aviação, o executivo afirmou que o setor tem reagido bem ao atual cenário global e demonstrado capacidade de adaptação diante das sucessivas crises enfrentadas ao longo dos anos. Segundo ele, as empresas já vêm ajustando capacidade em mercados menos rentáveis para compensar a pressão dos custos.
“Se os preços não caírem em 2027, veremos um reequilíbrio de capacidade. Essa é a melhor forma de equilibrar a economia do setor”, disse.
Alvo afirmou ainda que a LATAM não observou impacto relevante sobre a demanda até o momento e destacou o desempenho do segmento corporativo e de passageiros de maior valor agregado.
LATAM recebe encontro e amplia presença na IATA
A edição de 2026 marcou a primeira vez que a LATAM atuou como anfitriã da Assembleia Geral da IATA. O Brasil é hoje o principal mercado da companhia e responde por cerca de metade de toda a operação do grupo.
Em 2025, a LATAM transportou 38,8 milhões de passageiros em voos domésticos no país. Em toda a rede, foram 87,4 milhões de passageiros, alta de 6,6% em relação ao ano anterior.
A companhia opera em 27 países, conecta 161 destinos e realiza mais de 1.600 voos diários. Segundo a empresa, aproximadamente 30% do tráfego aéreo entre a América do Sul e o restante do mundo passa por sua operação.
Roberto Alvo assume presidência do conselho da IATA
Uma das principais decisões anunciadas durante a assembleia foi a posse de Roberto Alvo como presidente do Conselho de Administração da IATA para um mandato de um ano.
CEO do Grupo LATAM desde 2020, Alvo tornou-se o 84º presidente do conselho da entidade, que reúne cerca de 350 companhias aéreas em todo o mundo.
“A aviação vive um momento decisivo, desempenhando um papel cada vez mais importante na conexão entre pessoas, na viabilização do comércio e no apoio ao desenvolvimento econômico em todo o mundo”, afirmou.
Em seu discurso, o executivo defendeu maior cooperação entre empresas, governos e entidades da indústria para ampliar a eficiência operacional, fortalecer a segurança e avançar nas metas de sustentabilidade.
Reforma tributária preocupa indústria
Os desafios do mercado brasileiro ganharam espaço em um dos painéis mais acompanhados da programação, dedicado ao futuro da aviação no país.
Entre os temas discutidos estiveram os custos operacionais, a infraestrutura, a judicialização e os impactos da reforma tributária.
Estudos apresentados pela IATA indicam que a aplicação da alíquota padrão do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) ao transporte aéreo poderá elevar o preço médio das passagens domésticas em cerca de 23%. Nos voos internacionais, a alta projetada é de aproximadamente 26%.
A projeção da associação é de que o aumento dos custos reduza em até 30% a demanda por viagens aéreas no Brasil.
Outro tema discutido foi o elevado volume de ações judiciais envolvendo transporte aéreo no país. Dados apresentados pela IATA mostram que o Brasil registra uma ação judicial para cada 227 passageiros transportados, uma das maiores proporções da aviação mundial.
Segundo a associação, os gastos com litígios e indenizações acabam sendo incorporados à operação das empresas e influenciam o preço final das passagens. A estimativa é de que esse custo adicional contribua para elevar o valor dos bilhetes entre 3% e 10% no mercado brasileiro.
No painel dedicado ao mercado brasileiro, Jerome Cadier, CEO da LATAM Brasil, defendeu medidas para reduzir os custos da atividade e afirmou que ampliar o acesso da população ao transporte aéreo depende de ganhos de eficiência e maior previsibilidade regulatória.
De acordo com o executivo, países como Chile e Colômbia, que enfrentam desafios semelhantes aos do Brasil, apresentam índices de conectividade superiores. “Queremos voar mais, então deveríamos estar reduzindo o custo de voar. Deveríamos trazer eficiência para essa indústria, ter uma visão de longo prazo de desenvolvimento. Precisamos de mais estabilidade regulatória”, afirmou.
Prêmio por diversidade e inclusão
No domingo (8 de junho), a IATA concedeu ao Grupo LATAM o Diversity and Inclusion Award, uma das principais premiações globais da aviação. O reconhecimento destacou os avanços da companhia na ampliação da participação feminina em áreas tradicionalmente masculinas, especialmente na manutenção aeronáutica. Entre 2021 e 2025, o número de mulheres técnicas de manutenção da LATAM cresceu de 111 para 539 profissionais.
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