Quase dois anos após a queda do voo 2283 da VoePass, o relatório final do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) promete responder parte das dúvidas que ainda cercam uma das maiores tragédias da aviação brasileira. O documento será apresentado nesta quinta-feira (23), em Brasília, primeiro às famílias das vítimas e, horas depois, ao público.
Segundo apuração da CNN, o relatório deve apontar que o acidente foi provocado por uma combinação de falhas sistêmicas envolvendo a operação da companhia aérea, a atuação da tripulação e deficiências na fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Embora não tenha caráter criminal, o documento deve servir como principal base técnica para as investigações conduzidas pela Polícia Federal.
A expectativa entre os familiares é de ansiedade, mas também de esperança por respostas.
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Vice-presidente da Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 2283 e mãe de Liz Ibba dos Santos, a passageira mais jovem da aeronave, Adriana Ibba viajou a Brasília para acompanhar a apresentação do relatório.
“Eu peguei inúmeros voos, inclusive o primeiro voo para ir até o encontro do corpo da minha filha. Esse momento é tão esperado que hoje eu passei mal indo até Brasília, pois esperei dois anos por esse momento, pois sei que amanhã muitas das respostas que eu quero serão explanadas. É um momento muito importante”, afirmou .
Para Adriana, o relatório dificilmente responderá a todas as perguntas deixadas pela tragédia. “Nós nunca vamos ter todas as respostas, porque nenhum relatório consegue explicar absolutamente todas as causas de uma tragédia como essa.”
Mesmo assim, ela acredita que a principal conclusão será clara: “Tenho 99% de certeza de que o relatório vai mostrar que era um acidente totalmente evitável.”
Entre os pontos mais aguardados pelos familiares está a atuação do sistema de proteção contra formação de gelo nas asas da aeronave. De acordo com especialistas, falhas no sistema anti-gelo devem aparecer como os principais fatores responsáveis pelo acidente.
Outra dúvida que permanece é sobre os motivos que levaram o voo a ser mantido na altitude planejada mesmo diante da previsão de formação severa de gelo. A grande dúvida é por que o plano de voo foi mantido em uma altitude com previsão atípica de formação de gelo se havia combustível suficiente para que a aeronave voasse mais baixa.
O que deve apontar o relatório
Segundo apuração da CNN, a investigação concluiu que não houve uma única causa para o acidente, mas uma sucessão de fatores que, combinados, levaram à perda de controle da aeronave.
O documento deve indicar fragilidades na cultura de segurança operacional da companhia, com falhas recorrentes sendo toleradas ao longo do tempo, além de problemas na fiscalização exercida pela Anac, que já havia identificado irregularidades em auditorias anteriores.
Outro ponto que deve aparecer nas conclusões é um fenômeno conhecido como cegueira por desatenção na cabine de comando, quando a tripulação deixa de perceber informações críticas da operação por concentrar sua atenção em outras tarefas. Neste caso, assuntos pessoais podem ter interferido na atenção plena do piloto e do co-piloto.
A investigação também deve reforçar que desvios operacionais e falhas técnicas eram percebidos com frequência antes do acidente.
Como a CNN revelou com exclusividade em março deste ano, o relatório também deve recomendar a substituição de um componente do sistema anti-gelo das aeronaves ATR, fabricante do avião envolvido na tragédia. Recomendações desse tipo têm caráter preventivo e podem impactar operadores do modelo em diferentes países.
Na versão preliminar do relatório, o Cenipa já havia identificado um ambiente organizacional fragilizado, com problemas conhecidos no sistema de degelo das aeronaves e procedimentos de segurança que não eram plenamente observados.
O documento preliminar também apontou que, durante momentos críticos do voo, ocorreram conversas paralelas na cabine, reduzindo o nível de atenção da tripulação.
Em relação à Anac, a investigação indicava que fiscalizações anteriores haviam encontrado falhas nos processos de manutenção da companhia, mas que as medidas adotadas não impediram a continuidade da operação nas condições verificadas.
A expectativa é que as conclusões do Cenipa subsidiem a etapa criminal conduzida pela Polícia Federal, que apura a responsabilidade de pessoas que não estavam a bordo, mas tinham poder de decisão sobre a manutenção e a operação da aeronave.
A tragédia
O voo 2283 da VoePass decolou de Cascavel (PR) na tarde de 9 de agosto de 2024 com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos. Durante a aproximação de São Paulo, o ATR 72-500 perdeu rapidamente sustentação e caiu em um condomínio residencial em Vinhedo, no interior paulista.
Os primeiros dados da investigação mostraram que a aeronave enfrentava condições severas de formação de gelo. O piloto chegou a relatar problemas no sistema de degelo, enquanto os gravadores registraram alertas como Cruise Speed Low e Degraded Performance, indicando perda progressiva de desempenho da aeronave.
As 62 pessoas a bordo — 58 passageiros e quatro tripulantes — morreram.
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