O pagamento de remunerações acima do teto constitucional do serviço público, fixado em cerca de R$ 46,4 mil, colocou aproximadamente 40 mil servidores brasileiros no grupo do 1% mais rico da população. A constatação consta de um estudo recém-publicado que analisou os chamados supersalários no Brasil e comparou a prática com a de dez outros países.
Segundo o levantamento, a principal brecha para os pagamentos acima do teto está na classificação de auxílios e benefícios como verbas indenizatórias, que não integram o salário-base e não sofrem incidência de Imposto de Renda. Apenas entre agosto de 2024 e julho de 2025, o Brasil desembolsou R$ 20 bilhões em remunerações extrateto, o maior valor já estimado, montante 21 vezes superior ao gasto da Argentina, que aparece na segunda posição do ranking.
Embora apenas 53,5 mil servidores — cerca de 1,34% do funcionalismo analisado — recebam valores acima do limite constitucional, o fenômeno é altamente concentrado em carreiras jurídicas, especialmente na magistratura e no Ministério Público. De acordo com o estudo, essa distorção compromete a imagem da ampla maioria dos servidores públicos e evidencia o papel do Estado na concentração de renda.
Intitulado Benchmark internacional sobre teto salarial no setor público, o estudo foi conduzido pelo pesquisador Sergio Guedes-Reis, da Universidade da Califórnia em San Diego, para o Movimento Pessoas à Frente e a República.org. A pesquisa comparou dados do Brasil com Alemanha, Argentina, Chile, Colômbia, Estados Unidos, França, Itália, México, Portugal e Reino Unido.
Os R$ 20 bilhões gastos com supersalários no período analisado equivalem a 716 mil vezes a mediana da renda anual brasileira, estimada em R$ 28 mil. Na Argentina, apesar de haver cerca de metade do número de servidores com supersalários em relação ao Brasil, o gasto corresponde a apenas 25 mil vezes a mediana da renda nacional.
Em números absolutos, o Brasil concentra 53,5 mil servidores com remunerações acima do teto. A Argentina registra cerca de 27 mil casos, enquanto os Estados Unidos contabilizam pouco mais de 4 mil. Nenhum outro país analisado supera 2 mil servidores nessa condição, e a Alemanha não apresenta registros.
Para Guilherme Cezar Coelho, fundador da República.org, o impacto fiscal pode ser ainda maior do que o estimado. Segundo ele, uma ampliação da amostragem pode elevar o custo anual para até R$ 40 bilhões, valor equivalente a cerca de 40% do déficit fiscal previsto pelo governo federal neste ano.
O analista político Ricardo Ribeiro, da 4intelligence, avalia que os supersalários representam uma distorção histórica, concentrada principalmente no Judiciário, decorrente de mecanismos que contornam o limite constitucional vinculado ao salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Ele aponta que a dificuldade de avanço no tema está relacionada à influência corporativa e à resistência política no Congresso.
Apesar disso, pesquisas de opinião indicam amplo apoio popular à revisão dos benefícios. Levantamento do Datafolha realizado em julho mostra que 83% da população defendem uma regulamentação efetiva dos supersalários e o fortalecimento do teto constitucional. O estudo também destaca experiências internacionais que adotam regras mais rígidas e transparentes para conter distorções remuneratórias no serviço público.
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