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Quarta-feira, 03 de Junho de 2026

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Terra Indígena: Povo Cinta Larga sofre com os efeitos do garimpo ilegal enquanto espera ser ouvido pelo STF

Mineração nas proximidades da Terra Indígena Roosevelt será discutida diretamente com os povos indígenas, em reunião no próprio território.

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Terra Indígena: Povo Cinta Larga sofre com os efeitos do garimpo ilegal enquanto espera ser ouvido pelo STF
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Povo Cinta Larga enfrenta impactos do garimpo e será ouvido pelo STF diretamente nas aldeias

O povo Cinta Larga, que vive em mais de 60 aldeias espalhadas entre os estados de Rondônia e Mato Grosso, convive há décadas com violações e conflitos provocados pelo avanço do garimpo ilegal. A extração clandestina de diamante e ouro não apenas ameaça o meio ambiente e o modo de vida tradicional, como também facilita a entrada de facções criminosas, armas, drogas e outras formas de violência nas comunidades.

Agora, pela primeira vez na história do Supremo Tribunal Federal (STF), indígenas serão ouvidos diretamente em seus territórios, nas próprias aldeias. A escuta está prevista para acontecer até setembro, no âmbito de um processo judicial que discute a possibilidade de exploração mineral no entorno da Terra Indígena Roosevelt.

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Durante reuniões realizadas nesta semana em Porto Velho, os próprios Cinta Larga decidiram que o processo de escuta deve ser coletivo, envolvendo o maior número possível de participantes. O Ministério Público Federal (MPF) defendeu que a consulta respeite a organização interna do povo e seja conduzida conforme seus próprios modos de decisão.

“Os problemas enfrentados pelo povo Cinta Larga ainda são os mesmos denunciados em 2005. Pouco se avançou na efetivação de direitos, e a comunidade continua exposta à desesperança, apesar da riqueza de seu território”, afirmou a procuradora da República Caroline Helpa, que participou dos encontros.

A procuradora também destacou que muitas terras indígenas seguem sem demarcação e que boa parte das áreas ainda preservadas coincide com Unidades de Conservação — o que, na prática, não tem garantido proteção efetiva.

O processo, atualmente em tramitação no STF sob relatoria do ministro Flávio Dino, pode abrir precedente para outros povos indígenas em situação semelhante. A ação teve início com uma decisão da Justiça Federal em Rondônia, que cancelou autorizações de pesquisa e lavra mineral nas terras do povo Cinta Larga. Posteriormente, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) estendeu a proibição para um raio de 10 quilômetros ao redor do território. Em 2023, o então relator do caso, ministro Luís Roberto Barroso, também negou recurso da Agência Nacional de Mineração.

O procurador da República Reginaldo Trindade, autor da ação original em 2005, relatou a gravidade da situação:

“Vi garimpeiros casando com indígenas, adolescentes ou anciãs, apenas para ter acesso ao território. Além disso, há entrada de armas, drogas, álcool, falsos pastores... tudo o que é nocivo está ali. A única instituição que lucra com isso é o crime organizado.”

As reuniões contaram com a presença de representantes do STF, Funai, Sesai, Ministério de Minas e Energia, Casa Civil, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Governo de Rondônia, Defensoria Pública, Polícia Federal, Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Ministério Público estadual e Comissão Arns.

Mais do que discutir regras para a mineração, o processo evidencia um modelo de ocupação que historicamente exclui os povos originários e ignora os impactos reais sobre suas vidas e territórios.

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