O texto oficial do memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã foi divulgado e gerou análises sobre sua real efetividade. Em entrevista, Sandro Teixeira Moita, professor de Ciências Militares da Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército), avaliou no WW o documento e apontou que a natureza de Trump revela que o acordo provisório é, na prática, uma “aposta”.
Segundo Moita, os 14 pontos revelados no documento diferem, em parte, do que vinha circulando nas mídias iranianas — incluindo as agências Fars e Merkel, ligadas à Guarda Revolucionária —, mas não divergem significativamente dos termos que os próprios iranianos haviam declarado anteriormente. “É algo extremamente impressionante um tratado desse sair”, afirmou o professor.
O professor destacou que não há empolgação nem na região nem dentro dos próprios Estados Unidos em relação ao acordo. Moita relatou ter ouvido, em um evento fechado sobre a crise, uma frase que resume bem o momento: “Em fevereiro os Estados Unidos tentaram bombardear o Irã para uma mudança de regime e desde domingo os Estados Unidos estão tentando ganhar o Irã por meio de dinheiro para uma mudança de regime”.
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Moita também chamou atenção para uma declaração de Trump feita em coletiva realizada em Evian, na França, na qual o republicano afirmou que, se o acordo desse certo, o sucesso seria dele, mas se fosse um fracasso, o problema seria de JD Vance.
“Isso também mostra a natureza do Trump de que esse acordo é uma aposta”, disse o professor. Trump teria ainda declarado que, caso o acordo não funcionasse, retomaria os bombardeios em 60 dias.
Irã “jogou bem” e obtém vitória político-ideológica
Para Moita, o acordo, de certa forma, retira a capacidade de dissuasão americana por pressão. Isso porque figuras como Mohammad Bagher Ghalibaf, Ahmad Vahid e o círculo próximo a Khamenei são consideradas muito mais endurecidas, por entenderem que sobreviveram a um ataque conjunto americano e israelense.
“Se sobreviveram a essa capacidade de todo esse poderio da maior potência militar do planeta e da maior potência militar regional, não há mais como o Irã sofrer uma pressão diferente disso”, analisou.
O professor avaliou ainda que a resistência de Trump em intensificar a campanha militar acabou encorajando o Irã, que “jogou muito duro e soube jogar muito bem”. Apesar de ser um regime combalido — que enfrentou uma guerra prejudicial em junho do ano passado, protestos dramáticos e uma economia em situação delicada —, o Irã consegue agora, segundo Moita, “talvez a mais preciosa de todas as vitórias, que é a vitória no campo político-ideológico“.
Essa conquista, concluiu o professor, pode dar uma sobrevida ao regime caso se traduza nos recursos e riquezas prometidos pelo governo Trump.
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