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A ameaça da fraude financeira do City às relações geopolíticas britânicas

Um painel independente considerou culpado o Manchester City em 114 das 115 acusações de infrações financeiras na Premier League, indicando impactos que vão além do futebol. A dúvida persiste sobre a manutenção dos títulos do clube, a possibilidade de rebaixamento e outras sanções esportivas. Entretanto, ...

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
A ameaça da fraude financeira do City às relações geopolíticas britânicas
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A ameaça da fraude financeira do City às relações geopolíticas britânicas

A consideração de culpa por 114 das 115 acusações de violações financeiras contra o Manchester City na Premier League feita por um painel independente sugere uma série de repercussões que vão além do âmbito esportivo. Assim, surgem questionamentos sobre a permanência dos títulos dos Citizens, a possibilidade de rebaixamento do clube e outras sanções esportivas. Mas existe também o aspecto geopolítico que essa decisão pode influenciar na política do Reino Unido.

O clube inglês é de propriedade do Abu Dhabi United Group (ADUG) desde 2008, uma empresa do Sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan, que é vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos e irmão do presidente Mohamed bin Zayed Al Nahyan. A infração financeira mais significativa envolveu a ADUG superestimando as receitas do clube entre 2009 e 2018 em mais de 900 milhões de libras através de contratos fraudulentos.

O City é considerado um clube-estado, uma ferramenta de “propaganda” para os Emirados Árabes Unidos no exterior, ajudando a melhorar a imagem do país devido às diversas violações de direitos humanos e outras transgressões cometidas pelo governo local contra minorias e opositores, uma prática conhecida como “sportswashing”.

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Qualquer sanção relacionada a essas fraudes financeiras seria um duro golpe para os Emirados. Entre as punições consideradas, existe até a possibilidade de forçar a venda do clube — semelhante ao que ocorreu com o oligarca russo Roman Abramovich, que foi compelido a vender o Chelsea após a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Esse problema, que inicialmente parecia restrito ao futebol, pode se transformar em uma situação delicada para o Reino Unido. De acordo com a agência de notícias “Bloomberg”, os EAU estão considerando reduzir investimentos futuros no território britânico caso as punições sejam rigorosas.

A Trivela se conectou com especialistas da área para compreender o impacto que essa redução pode ter na Inglaterra e a probabilidade de que isso ocorra, considerando as relações entre os dois países.

Faixa da torcida do Liverpool chama Sheik Mansour, dono do Manchester City, de "Poderoso Golpista" em referência ao filme Poderoso ChefãoFaixa da torcida do Liverpool chama Sheik Mansour, dono do Manchester City, de “Poderoso Golpista” em referência ao filme Poderoso Chefão (Foto: IMAGO / Propaganda Photo)

A sólida relação entre Reino Unido e Emirados Árabes Unidos

Atualmente, a nação dos Emirados Árabes Unidos é uma parceira significativa para os britânicos. Conforme a agência de notícias “Bloomberg”, o investimento do país no Reino Unido alcançou 30 bilhões de libras nos últimos cinco anos. Esse montante é três vezes maior do que o previsto em uma parceria estabelecida em 2021 por meio da Mubadala Investment Company, um dos principais fundos soberanos de investimento de Abu Dhabi.

“Os Emirados Árabes Unidos conseguiram construir uma relação de confiança com os países ocidentais”, afirma Tanguy Baghdadi, professor de política internacional. “A relação com o Reino Unido é muito boa, baseada em confiança, transparência e crescimento nos últimos anos.”

Esse vínculo é histórico, uma vez que os Emirados Árabes Unidos foram um protetorado britânico até 1971, refletindo atualmente a vontade da nação do Oriente Médio, uma das mais ricas do mundo e a sexta maior reserva de petróleo, de expandir e diversificar suas fontes de receita.

— Normalmente, a Inglaterra mantém boas relações com suas ex-colônias, facilitando comércio, investimento e intercâmbio — destacou Ricardo Bruno Boff, professor de Relações Internacionais da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Os investimentos atuais se concentram, principalmente, em setores como defesa, energia renovável, portos e tecnologia. Embora os 30 bilhões de libras sejam uma quantia impressionante, o que equivale a cerca de 199 bilhões de reais, maior do que o PIB de 13 estados brasileiros, especialistas consultados pela reportagem afirmam que não há uma dependência do Reino Unido em relação a esse investimento, nem que um corte maciço teria um impacto devastador no país.

— O Reino Unido conta com diversas fontes de capital e não depende exclusivamente dos Emirados. Uma possível retração poderia afetar projetos específicos, porém não necessariamente acarretaria uma crise econômica geral — explica Rafaella Krasinski, advogada especializada em Direito Empresarial.

Isso é corroborado pelos dados. Os 30 bilhões de libras, apesar de atrair atenção, correspondem a apenas 1,4% do investimento estrangeiro no Reino Unido, que totalizou 2,1 trilhões de libras nos últimos cinco anos. Os Estados Unidos, por exemplo, investiram 25 vezes mais que os Emirados Árabes Unidos nesse período; o Japão contribuiu cinco vezes mais; e a França, quatro. Os EAU são superados por pelo menos 15 países em termos de investimento na economia britânica.

O Presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed al-Nahyan (com o Ghutra na cabeça), e o Sheik Mansour, seu irmão, vice-presidente e dono do Manchester CityO Presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed al-Nahyan (com o ghutra na cabeça), e o Sheik Mansour (de cachecol), seu irmão, vice-presidente e dono do Manchester City, em jogo do time inglês (Foto: IMAGO / APL)

O impacto de uma possível sanção seria mais notado em áreas específicas. O jornal “The Telegraph” noticiou que os Emirados Árabes Unidos estão considerando cortar um investimento planejado em um polo de tecnologia no Corredor Oxford-Cambridge, uma região do sul da Inglaterra reconhecida como o “Vale do Silício” europeu.

O governo britânico está buscando 10 bilhões de libras em investimentos privados para tornar o projeto viável, e a participação de Abu Dhabi é considerada crucial.

O vice-CEO da Mubadala, Waleed Al Muhairi, afirmou em 13 de outubro que o caso do City é “à parte” e não influencia outros investimentos. Contudo, ele representa apenas um dos executivos de diversos fundos de investimento.

A ameaça dos Emirados gera outra indagação: será que essa pressão poderá influenciar o veredicto do Manchester City?

A pressão política pode amenizar ou agravar a punição do Manchester City?

Uma das reações mais notáveis e inesperadas em relação ao caso do City partiu do primeiro-ministro, Andy Burnham, do Partido Trabalhista. “Eu realmente ficaria preocupado em perdê-los [os donos do Manchester City]”, admitiu, ainda em setembro.

A relação do político com os líderes dos Emirados Árabes Unidos é antiga, pois ele foi prefeito da Grande Manchester de 2017 a 2026, período em que os Citizens se afirmaram como a principal força do país e os proprietários do clube investiram na cidade. “É frustrante quando as pessoas fazem julgamentos apressados.”

— Eles têm sido um parceiro extremamente importante na modernização de Manchester. [...] Agradeço sinceramente ao City Football Group e aos demais proprietários pelo investimento não apenas no Etihad [estádio] e em seu entorno, mas também na cidade.

Essas declarações geraram preocupações sobre uma possível interferência do governo no julgamento. A reação foi tão negativa que, no dia seguinte, o gabinete do governo assegurou que o resultado do julgamento será respeitado e não haverá influência sobre a possível sanção.

— O (primeiro-ministro) salientou que o processo independente ainda está em andamento. É essencial que ele prossiga e que o resultado seja respeitado. E, caso se prove a ocorrência de irregularidades, os responsáveis devem enfrentar as consequências pertinentes — declarou o governo em comunicado.

Posteriormente, David Kogan, presidente do Órgão Regulador Independente do Futebol (IFR, em inglês), prometeu renunciar ao cargo caso houvesse pressão política.

No entanto, as declarações de Burnham e sua relação histórica com os emiradenses — atualmente, investiga-se as condições sob as quais ele, enquanto prefeito de Manchester, concedeu um empréstimo a empresas controladas pelo dono do City, Sheik Mansour — levantam questionamentos sobre a influência do governo.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy BurnhamO primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham (Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire)

Informações posteriores da mídia reforçaram essa percepção. A “Bloomberg” destacou que, em 14 de setembro, o presidente do Manchester City, Khaldoon Al Mubarak, se reuniu com o Secretário de Estado para Negócios, Inovação, Ciência e Comércio, Jonathan Reynolds.

Ainda que a reunião não tenha abordado questões relacionadas ao futebol, conforme relataram fontes do governo, é notável que tenha ocorrido 11 dias antes de o site “The Athletic” divulgar que os Citizens foram considerados culpados pelas infrações financeiras. Al Mubarak, além de ser presidente do clube inglês, também é CEO do fundo Mubadala, tendo discutido com o secretário sobre os investimentos atuais e futuros dos Emirados no Reino Unido.

Baghdadi acredita que é viável que o governo exerça algum tipo de pressão sobre as autoridades do futebol inglês, mesmo com a independência na gestão da liga.

— O governo britânico pode dizer: ‘Se tiver que punir o City, pode punir, mas com cautela, vamos tentar achar uma solução ou alternativa'. Não creio que a Premier League necessariamente atenda a isso imediatamente, mas é mais uma pressão que vem do lado político. O governo gostaria de manter uma relação estável com os Emirados — explicou.

Boff também ressalta que a pressão da opinião pública pode afastar o governo do primeiro-ministro Andy Burnham dessa polêmica. “A população pressiona o governo a não influenciar na punição ao Manchester. Isso já prejudicou outros clubes e o público deseja que haja consequências.”

O Manchester City tem sido alvo de protestos por parte das torcidas rivais em cada visita a adversários no futebol inglês. “Uma geração de torcedores enganada”, dizia uma faixa em Anfield. A frase “51 anos” foi erguida em uma bandeira no Old Trafford para rememorar a última vez que os Citizens conquistaram um título antes da aquisição por Abu Dhabi.

“Uma intervenção política comprovada também poderia comprometer a credibilidade da competição”, reforça Krasinski, à luz das críticas sobre a validade da atual edição da Premier League. O time, atualmente sob a direção de Enzo Maresca, ocupa a liderança do Campeonato Inglês com 100% de aproveitamento.

O caso ainda deverá permanecer em aberto, pelo menos, nos próximos meses. O Manchester City já recorreu da decisão e o julgamento do recurso não acontecerá antes de janeiro de 2027. No entanto, a Premier League está buscando que a definição das punições ocorra antes desse processo.

O tabloide “Daily Mail” apurou com fontes ligadas ao processo que acreditam que a sanção pode ser uma perda de pontos suficiente para rebaixar o time e impôr uma nova punição que o mantenha na segunda divisão por pelo menos mais uma temporada. A resposta dos Emirados Árabes Unidos a essa decisão será monitorada de perto no Reino Unido.

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