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Um dos jogos que melhor ilustra a rivalidade entre Barcelona e Real Madrid ocorreu no dia 21 de outubro de 2000. Naquela ocasião, Luis Figo retornou ao Camp Nou pela primeira vez após sua transferência dos blaugranas para os merengues. O craque enfrentou uma recepção hostil, marcada por gritos ensurdecedores e uma chuva de objetos que foram lançados ao campo. Essa pressão afetou completamente os madridistas, enquanto os barcelonistas dominaram o clássico, conquistando a vitória por 2 a 0. Apesar de ter se saído bem pelo Real Madrid, aquela noite se tornaria um verdadeiro pesadelo.
Figo teve uma passagem de cinco anos pelo Barcelona. A promessa que surgiu no Sporting se tornou um dos melhores jogadores do mundo no Camp Nou. O meia chegou a assinar pré-contratos com Juventus e Parma, mas sua escolha o baniu da Serie A por dois anos, facilitando seu acerto com o Barça em 1995. Ele chegou para substituir Michael Laudrup, que havia trocado o Barça pelo Real Madrid.
Com sua qualidade técnica notável e precisão nos cruzamentos, Figo se destacou como um dos grandes protagonistas do clube durante aquele período, ao lado de Ronaldo e, posteriormente, Rivaldo. Ele conquistou a torcida não apenas por seu talento, mas também pela sua entrega em campo. Levantou dois troféus de La Liga e uma Recopa Europeia, mas tinha potencial para mais — como demonstrou na temporada 1999/00, sendo um dos destaques de sua equipe mesmo sem conquistas. E então surgiu o Real Madrid.
A transferência de Figo do Barcelona para o Real Madrid que incendiou a Espanha
Figo se tornou um marco no início da era galáctica, sob a presidência de Florentino Pérez. O presidente fez das contratações de estrelas sua plataforma de campanha e cumpriu essa promessa, após vencer Lorenzo Sanz nas eleições. Os merengues vinham de um título da Champions, e o português se tornou o primeiro grande nome a integrar esse novo momento. O Real Madrid pagou o equivalente a 62 milhões de euros pela rescisão, um recorde histórico até então, mas os torcedores do Barcelona não aceitaram a transação. A partir daí, Figo passou de ídolo a pária na Catalunha, transformando o clássico do primeiro turno da La Liga em um evento à parte.
O início da temporada 2000/01 foi promissor para Figo. O Real Madrid mantinha uma invencibilidade no Campeonato Espanhol, e o meia acumulou seis assistências nas cinco primeiras rodadas. Na Champions, ele vinha de uma atuação memorável, com um gol e duas assistências na vitória de 5 a 3 sobre o Leverkusen. Mas, logo, o ambiente hostil do Camp Nou surgiria em seu caminho.
Às vésperas do clássico, a volta de Figo se tornou o principal tema nas manchetes, com os jornais catalães incitando um clima de vingança contra o antigo ídolo. O diário “Sport” chegou a criar um “antipôster”, chamando o craque de “pesetero” — uma gíria para mercenário, em alusão à antiga moeda espanhola.
Figo é alvo de ira de torcedores do Barcelona em clássico com o Real Madrid em 2000. Foto: PA Images / Icon Sport
O Real Madrid contava com uma equipe forte, sob o comando de Vicente del Bosque. A espinha dorsal do time incluía Iker Casillas, Fernando Hierro, Roberto Carlos, Claude Makélélé e Raúl. O Barcelona, por sua vez, era treinado por Lorenzo Serra Ferrer, apresentando boas opções em campo, apesar de estar em uma fase de transição. Jogadores como Philipp Cocu, Rivaldo e Luis Enrique eram os mais destacados, enquanto Xavi e Carles Puyol começavam a se firmar. Apesar da aparente superioridade dos merengues, o Barça estava motivado para a revanche.
“Em alguns momentos, me senti como um assassino. Não me vejo como Judas ou traidor. O que realmente me preocupa é que a situação extrapole o jogo, pois em alguns lugares se fomentou a violência”, afirmou Figo, em entrevista ao jornal Marca, na véspera do duelo. Por outro lado, o presidente do Barcelona, Joan Gaspart, garantiu que o português não seria recebido de forma amigável, embora outros membros do clube tentassem apaziguar o clima. Contudo, nada disso acalmou a torcida, que estava ansiosa por uma resposta.
A chuva de objetos contra Figo começou ainda no aeroporto. Durante a madrugada, torcedores do Barcelona fizeram barulho no hotel para perturbar o sono do meia. Na entrada em campo, 100 mil pessoas vaiavam o ex-ídolo, que chegou a tampar os ouvidos durante a saudação ao público. O barulho era tão intenso que, com a bola rolando, muitos jogadores não conseguiam ouvir o apito do árbitro e continuavam disputando as jogadas. Além disso, faixas e mais faixas continham mensagens insultantes dirigidas ao lusitano. Não seria fácil lidar com a fúria da torcida, já que objetos eram lançados sempre que o camisa 10 avançava com a bola pela ponta direita.
A partida terminou com a vitória do Barcelona por 2 a 0. Puyol foi designado para marcar Figo de perto e não se afastou do craque adversário. O português teve um desempenho abaixo do habitual, errando jogadas e pouco contribuindo para que o Real Madrid conseguisse a vitória no Camp Nou. Casillas fez grandes defesas e contou com a trave a seu favor, até que o Barça abriu o placar aos 26 minutos. Xavi cobrou uma falta pela esquerda e Luis Enrique se antecipou, desviando de cabeça. No segundo tempo, mais defesas de Casillas e uma nova bola na trave, até que o segundo gol veio aos 34 minutos, marcado por Simão Sabrosa, que aproveitou um rebote na pequena área. Figo conseguiu finalizar apenas uma vez em 90 minutos, de forma prensada e para fora.
Torcedores do Barça atacam Figo, que trocou o clube pelo Real Madrid. Foto: PA Images / Icon Sport
“O que me dói é que não conseguimos a vitória”, disse Figo ao deixar o campo. Florentino Pérez, por sua vez, foi enfático: “Achei que o ambiente iria afetar Figo, mas acabou influenciando todos”. O português, que costumava cobrar escanteios pelo Real Madrid, não se aproximou das bolas paradas por ordem da comissão técnica, devido ao medo de que algo o atingisse. Dois anos depois, ocorreria a emblemática cena da cabeça de porco lançada na linha de fundo, justamente quando o craque se preparava para cobrar um escanteio.
Anos depois, em uma entrevista à TV espanhola, Figo revisitou o episódio: “Eu esperava aquela recepção. A mídia incendiou a disputa. O que aconteceu foi algo completamente fora do normal, desportivo. Não havia problema em ser vaiado por 100 mil pessoas. O que me preocupava era minha segurança”. Apesar de tudo, aquela temporada ainda teria muitas recordações positivas para o meia.
Em novembro, Figo foi agraciado com a Bola de Ouro. Seu desempenho no Barcelona e o apelo midiático de sua transferência influenciaram na escolha. De qualquer forma, o camisa 10 continuou a brilhar com a camisa do Real Madrid. Os merengues realizaram uma excelente campanha em La Liga e conquistaram o título. Figo finalizou o torneio com oito gols e 18 assistências, ajudando a consagrar Raúl no ataque. Além disso, anotou cinco gols e nove assistências na Champions, com os madridistas sendo eliminados pelo Bayern na semifinal. A conquista europeia, no entanto, não tardaria. E, pela forma como deixou sua marca no Santiago Bernabéu, o lusitano certamente não se arrepende de sua mudança.
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