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Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026

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A mineração pode se aproximar do fim; o território, não

Em artigo, Gustavo Roque, especialista em inovação e transição pós-mineração e colunista da CNN Infra, defende que municípios minerários usem a riqueza gerada pela atividade para planejar o futuro antes que as minas se esgotem

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
A mineração pode se aproximar do fim; o território, não
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Nos últimos dois meses, passei boa parte do tempo entrando e saindo de minas, antigas áreas industriais, projetos de reconversão e cidades que, em algum momento, precisaram responder a uma pergunta que nós, no Brasil, ainda fazemos pouco: o que acontece com um território quando a mineração deixa de ocupar o lugar que teve durante décadas?

Foram dez países, entre América do Norte e Europa, nessa etapa das gravações de “Um Futuro Possível”, série documental que idealizei e co-produzimos com a Dromedário Filmes, para investigar diferentes caminhos construídos por territórios minerários. A viagem não começou para me convencer de que é preciso planejar o pós-mineração antes do fechamento de uma mina. Essa é uma missão que já escolhi abraçar. O que eu queria ver de perto era como outros lugares haviam enfrentado esse desafio, quais escolhas fizeram e, principalmente, o que poderíamos aprender com seus acertos e erros.

Em Sudbury, no Canadá, desci quase dois quilômetros para conhecer o SNOLAB, laboratório instalado dentro de uma mina de níquel em operação. Enquanto a atividade mineral mantém sua rotina, cientistas de diferentes países estudam neutrinos, matéria escura e algumas das questões mais complexas da física. No País de Gales, antigas estruturas ligadas à extração de ardósia abriram espaço para turismo e aventura. Em outros pontos da viagem, encontrei cultura, tecnologia, educação e novas atividades produtivas em territórios cuja história econômica esteve, por muito tempo, diretamente ligada à mineração.

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Os exemplos impressionam. Ainda assim, depois de tantos quilômetros, voltei ainda mais convencido de que seria um erro retornar ao Brasil com uma lista de projetos para copiar. O aprendizado mais importante está na lógica por trás deles: territórios que começaram a pensar no futuro enquanto ainda tinham recursos, infraestrutura, conhecimento e capacidade de fazer escolhas.

É essa lógica que considero decisiva para os municípios minerários brasileiros. Se sabemos que a mineração tem um ciclo, precisamos aproveitar o período em que ela gera mais riqueza e arrecadação para construir condições capazes de permanecer quando sua participação na economia mudar. Esperar a exaustão da atividade para iniciar essa conversa significa começar justamente quando o território terá menos recursos e menos margem de decisão.

Isso coloca a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais – CFEM em uma discussão muito mais ampla e profunda. Não apenas quanto se recebe ou
onde se gasta, questões evidentemente importantes, mas quanto desse recurso consegue se transformar em capacidade que permaneça no município.

Uma escola técnica, por exemplo, pode atender às demandas atuais da mineração e ampliar competências úteis a outras cadeias. O mesmo vale para saneamento, conectividade, qualificação profissional e infraestrutura urbana. Por isso, defendo que projetos estruturantes podem resolver problemas imediatos e, ao mesmo tempo, preparar uma cidade menos dependente de uma única atividade.

Parece uma pequena diferença? Não é, acredite! Quando toda a receita de uma atividade finita se converte apenas em resposta ao presente, a dependência é alimentada, fomentada e continua praticamente intacta. Quando parte dela ajuda a criar novas capacidades, o município começa a comprar algo muito mais valioso: opções.

Há também uma questão de tempo. Transformar a economia de um território dificilmente cabe em um mandato. Em muitos casos, sequer cabe em dois ou três. Por isso, planejamento de longo prazo exige governança, indicadores, segurança jurídica e mecanismos capazes de preservar uma direção mesmo quando os governos mudam. Continuidade não significa insistir em uma solução que deixou de funcionar. Significa poder corrigir o caminho sem voltar, a cada quatro anos, ao ponto de partida.

Outra convicção que a viagem reforçou é que nem toda mina precisa virar alguma coisa extraordinária depois. Há uma tendência de nos encantarmos com parques, laboratórios, museus e destinos turísticos. Em alguns lugares, essas soluções fazem sentido, já em outros, a decisão tecnicamente mais responsável será recuperar a área e devolvê-la à paisagem. O que vale, de verdade, é que o território venha antes da ideia.

E território inclui as pessoas que vivem nele. Quem acompanhou por décadas as transformações provocadas pela mineração carrega um conhecimento que nenhum estudo técnico substitui. Comunidades, empresas, poder público, investidores e centros de conhecimento precisam participar dessa construção desde o início, porque uma nova economia dificilmente se sustentará se for desenhada longe de quem terá de viver nela.

Esses dois meses de gravações ajudaram a colocar lado a lado experiências muito diferentes e, sobretudo, a amadurecer uma agenda que considero importante para o Brasil. Precisamos criar condições para que cada município minerário consiga construir o seu e parar de tratar o pós-mineração como uma conversa para depois.

O depois começa durante.

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
FONTE/CRÉDITOS: patrickpalhares
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