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Sabado, 18 de Abril de 2026

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Além de petróleo, Ormuz transporta alimentos para 100 milhões de pessoas

Bloqueio do Estreito eleva custos, atrasa cargas e pode encarecer alimentos para milhões na região

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Além de petróleo, Ormuz transporta alimentos para 100 milhões de pessoas
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Os navios-tanque de petróleo e gás natural liquefeito que atravessam o Estreito de Ormuz transportam cerca de 20% do abastecimento mundial. Mas, para os países do Golfo Pérsico, essa via navegável é mais do que apenas uma rota energética — é uma tábua de salvação para mais de 100 milhões de pessoas.

Agora, à medida que a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã sufoca esse trecho vital de água, ela também está prejudicando o abastecimento de alimentos na região.

Sobreviver nesse clima severo exige esforço. Com temperaturas no verão ultrapassando os 50ºC e pouca terra cultivável, grande parte da água potável dos Estados árabes do Golfo vem do mar por meio de usinas de dessalinização.

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A maior parte de seus alimentos, no entanto, precisa vir do exterior.

A Arábia Saudita importa mais de 80% de seus alimentos, os Emirados Árabes Unidos cerca de 90% e o Catar cerca de 98%.

No Iraque, também, a maior parte das importações de alimentos passa pelo Estreito de Ormuz, apesar de o país ter acesso a dois grandes rios.

No total, a maioria dos carregamentos de alimentos para a região passa pelo estreito, uma passagem que agora está praticamente bloqueada devido a ataques a navios comerciais na área.

Com a via navegável efetivamente fechada, os transportadores de alimentos estão se esforçando para encontrar rotas alternativas – rotas que são mais caras e logisticamente complicadas, e que não podem substituir totalmente o fluxo perdido, aumentando a perspectiva de preços mais altos e menos opções para os consumidores.

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Até mesmo o Irã depende do Estreito de Ormuz para grande parte de seu comércio.

O PMA (Programa Mundial de Alimentos) alerta que as cadeias de abastecimento podem estar realmente à beira da mais grave perturbação desde a Covid-19 e o início da guerra em grande escala na Ucrânia, em 2022.

Carl Skau, vice-diretor executivo do PMA, afirma que os custos de transporte marítimo aumentaram drasticamente.

Os varejistas afirmam que, embora não haja uma crise iminente de fome na região do Golfo, o conflito causou uma grande perturbação no transporte marítimo.

A Kibsons International, uma rede varejista de alimentos frescos e hortaliças com sede nos Emirados Árabes Unidos, importa 50 mil toneladas de alimentos por ano, provenientes de países como a África do Sul e a Austrália, e afirma que o foco atual está no redirecionamento das remessas.

“No momento, a cadeia de suprimentos está enfrentando enormes desafios”, afirmou Daniel Cabral, diretor de compras da Kibsons.

De acordo com a UK Maritime Trade Operations (UKMTO), uma agência de monitoramento britânica administrada pelas forças armadas, quase duas dezenas de embarcações foram atacadas na região desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, incluindo um navio de carga na costa de Omã.

As companhias de navegação, portanto, não estão dispostas a correr o risco de atravessar o Estreito de Ormuz.

Outra questão é o número de navios que já estão no mar. A Kibsons tem “toneladas” de alimentos – em sua maioria frescos – em contêineres a bordo de navios que atualmente aguardam fora do estreito, disse Cabral à CNN, sem datas de chegada confirmadas ou mesmo portos de destino. “Há muita incerteza”, afirmou.

Depois, há o custo do seguro.

O preço de fazer negócios

Escondidas nas letras miúdas dos contratos de transporte marítimo estão “cláusulas de tempo de guerra” que agora entraram em vigor, disse Cabral. Essas cláusulas protegem os navios de entrar em territórios perigosos e lhes dão o direito de escolher um porto de descarga para as remessas.

Um dos contêineres da Kibsons, originalmente com destino ao Porto de Jebel Ali, em Dubai, encontra-se agora em Mundra, na Índia. Outro foi redirecionado para Colombo, no Sri Lanka. Mas o simples fato de chegar a terra firme está longe de ser o fim do dilema.

“A companhia marítima perguntou: ‘O que vocês gostariam de fazer com ele agora? Gostariam de vendê-lo na Índia?’ Ou, sabe, ‘Qual é o plano de vocês para ele?’ E isso nos coloca em uma posição muito difícil”, acrescentou Cabral.

As seguradoras e as empresas de transporte marítimo passaram a considerar toda a região do Oriente Médio como uma área de risco elevado.

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As empresas de transporte marítimo impuseram sobretaxas de US$ 4 mil por contêiner com destino a “todo o Oriente Médio”, afirmou Cabral.

Em terra firme, os custos de transporte rodoviário e logística variam entre US$ 4 mil e US$ 9 mil por contêiner para o transporte das mercadorias até os Emirados Árabes Unidos, acrescentou Cabral.

“Quero dizer, estávamos analisando alguns dos nossos contêineres vindos da Europa, e o que normalmente pagaríamos seria 3mil euros (cerca de US$ 3,4 mil) pelo frete. A cotação chegou a 14,5 mil euros, e isso só para levá-los até Jeddah”, disse Cabral, referindo-se à cidade saudita no Mar Vermelho.

“Depois, ainda seria preciso transportá-los por caminhão a partir de lá, com custos adicionais, então fica simplesmente muito caro.”

E esses custos acabarão sendo repassados ao consumidor. Cabral disse que a Kibsons pode aumentar os preços em até 20% em alguns produtos, como laticínios e alguns produtos frescos.

“Temos cerca de um mês de estoque de produtos frescos nos armazéns.”

O transporte aéreo também é uma tábua de salvação vital para a região, mas também tem sido afetado por problemas nas últimas semanas.

O Aeroporto Internacional de Dubai anunciou o fechamento total por 48 horas quando o Irã lançou ataques de retaliação em 28 de fevereiro. Isso afetou tanto os passageiros quanto o transporte de cargas.

Na segunda-feira, os voos foram temporariamente suspensos no aeroporto depois que a Defesa Civil de Dubai informou sobre um incêndio causado pelo impacto de um ataque com drone em um de seus tanques de combustível.

A Spinneys, outra conhecida rede varejista com presença na região desde 1924, está confiante de que conseguirá garantir sua cadeia de abastecimento.

“De jeito nenhum vamos passar fome”, afirmou Louis Botha, diretor de cadeias de abastecimento da Spinneys, uma importante rede de supermercados da região.

Tendo superado conflitos passados e turbulências econômicas em mercados como o Líbano e o Egito, a empresa enfrenta agora desafios sem precedentes no Golfo.

Recorrendo a planos de contingência, a Spinneys está estudando a possibilidade de transportar contêineres de alimentos por caminhão do Reino Unido, passando pela França e, finalmente, pela Turquia, antes de seguir para o Iraque, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

“Na verdade, podemos fazer o transporte rodoviário em cerca de 12 dias, diretamente do Reino Unido até o depósito de Jebel Ali”, disse Botha à CNN. “Se você dirigir sem parar, são cerca de 72 horas.”

Ele afirma que será 40% mais barato do que o transporte aéreo, devido ao aumento dos custos do frete aéreo.

Aumento dos preços nas prateleiras

O efeito em cadeia dessas interrupções não é nada favorável para o consumidor, que pode esperar pagar preços mais altos e ter menos opções.

Em resposta, os governos do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) estão tentando amenizar esses gargalos.

Omã e os Emirados Árabes Unidos inauguraram um novo corredor comercial, que deverá acelerar os processos de desembaraço aduaneiro entre portos como Mascate e Jebel Ali.

Richard Meade, editor-chefe da Lloyd’s List Intelligence, afirmou que é possível obter seguro, “se estiver disposto a pagar o suficiente”, mas acredita que esse não é o verdadeiro problema.

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“É a questão da segurança que precisa ser resolvida”, disse ele à CNN.

As discussões sobre a proteção militar do estreito têm se intensificado nos últimos dias, especialmente depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, encarregou a Corporação de Financiamento ao Desenvolvimento dos EUA de oferecer garantias de segurança às empresas de navegação e chegou a levantar a possibilidade de escoltas da Marinha dos EUA.

No entanto, Meade mostra-se cético.

“A escolta naval dos EUA e da UE não chegará tão cedo”, afirmou ele. Mesmo que esse apoio militar venha a estar disponível, Meade acredita que “a prioridade será dada aos petroleiros” e não aos navios de carga.

Ele também prevê que a escala de tal operação teria de ser enorme.

“Serão necessários de oito a dez contratorpedeiros para escoltar de cinco a dez petroleiros por dia”, afirmou ele.

Antes da crise, o Estreito de Ormuz recebia até 60 petroleiros por dia, segundo a Lloyd’s List Intelligence.

E mesmo que uma operação tão complexa e cara fosse colocada em prática e fosse bem-sucedida, o problema do transporte de navios cargueiros carregados com alimentos e outros bens essenciais permaneceria, já que os petroleiros transportando petróleo teriam prioridade.

Trump e seu governo continuam otimistas quanto ao fim da guerra nos termos que lhes convêm. Mas, a cada dia que passa, as consequências se espalham para além do campo de batalha, ameaçando o fluxo de alimentos, combustível e outros itens essenciais para milhões de pessoas em toda a região.

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FONTE/CRÉDITOS: beatrizoliveira
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