Embora o cérebro seja considerado um dos primeiros órgãos a se decompor após a morte, mais de 4.400 cérebros humanos já foram recuperados por arqueólogos em sítios arqueológicos de até 12 mil anos. Um novo estudo desvendou o mecanismo químico por trás dessa conservação.
Cerca de um terço dos órgãos preservados foi encontrado em sepultamentos inundados e com baixo teor de oxigênio, nos quais o cérebro era o único tecido mole sobrevivente em meio a restos completamente esqueletizados.
A pesquisa, liderada por cientistas da Universidade de Oxford, descreve que as condições do ambiente de sepultamento alteram ativamente o destino das proteínas do órgão, revelando que a preservação pode surgir diretamente do próprio processo de decomposição sob circunstâncias específicas.
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O papel da água e da falta de oxigênio
Para entender o processo de preservação, os pesquisadores analisaram a degradação de proteínas cerebrais sob diferentes regimes de umidade e oxigenação. Os resultados indicam que a disponibilidade de oxigênio dita o destino molecular do tecido.
Em ambientes secos ou abertos com circulação de ar (ácidos ou alcalinos), ocorre uma perda generalizada de proteínas devido à fragmentação oxidativa contínua.
Já em solos encharcados e sem oxigênio (hipóxia), o processo é diferente: a água atua facilitando as reações de radicais livres, enquanto a falta de oxigênio limita a propagação da destruição química. Esse cenário gera ligações cruzadas oxidativas localizadas, que unem covalentemente as moléculas vizinhas em microambientes de membranas celulares.
Esse tipo de reação química reduz a solubilidade e a mobilidade das proteínas, criando uma barreira rígida que impede o ataque de enzimas digestivas e microrganismos decompositores.
As proteínas mais resistentes
A retenção do tecido cerebral ao longo de séculos e milênios não ocorre de forma uniforme. O estudo identificou que apenas um grupo específico de fragmentos proteicos, chamados de peptídeos recalcitrantes, resiste ao tempo.
Essas estruturas sobreviventes apresentam propriedades físicas e químicas específicas:
- Predomínio de folhas-beta: Estruturas proteicas densamente unidas por pontes de hidrogênio e altamente estáveis contra a quebra.
- Riqueza em aminoácidos aromáticos e de enxofre: Compostos químicos que estabilizam e interrompem a ação de radicais livres oxidativos.
- Associação a membranas celulares: Áreas que concentram metais e lipídeos, limitando a difusão do oxigênio.
Semelhança com doenças neurodegenerativas
A pesquisa demonstrou que as assinaturas moleculares que tornam o cérebro resistente à decomposição após a morte são parecidas com as que causam a estabilização patológica de proteínas durante o envelhecimento cerebral e em doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.
Nos dois cenários, a biologia envolve o acúmulo de agregados proteicos ricos em folhas-beta e ligações cruzadas induzidas por oxidação. Fatores intrínsecos do cérebro, como a alta concentração de ferro livre e a elevada densidade de membranas celulares, aceleram essas reações tanto em vida quanto após a morte.
Em locais de sepultamento inundados e com restrição de oxigênio, essas características biológicas convertem a decomposição em um mecanismo de proteção, garantindo a conservação do órgão por milênios.
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