A aprovação provisória do acordo entre Mercosul e União Europeia, a partir de 1º de maio, vai aumentar a competitividade e rentabilidade do agro brasileiro. Mas exige a rastreabilidade rigorosa, de toda a cadeia produtiva, para atender os padrões ambientais exigidos pelos europeus. A urgência aumenta com a aproximação da Regulação Europeia Contra o Desmatamento (EUDR), que entrará em vigor em 30 de dezembro de 2026. A partir dessa data será obrigatória a comprovação de origem de todos os produtos enviados a Europa. O bloco proíbe a comercialização de produtos originados de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020.
O Brasil tem o maior rebanho comercial do mundo, mais de 200 milhões de bovinos, porém são poucos dados sobre a real origem deles. A rastreabilidade bovina está concentrada nos chamados fornecedores diretos. As fazendas de recria e engorda que vendem diretamente para os frigoríficos habilitados à exportação. Mas a cria, a primeira fase da vida do animal, ocorre principalmente em propriedades menores. É justamente aí que se encontra o gargalo do monitoramento.
A Fundação IDH, organização civil de origem holandesa e focada na transformação dos mercados de commodities agropecuárias, se articula entre o campo e o mercado, ao lado de quem geralmente fica fora dos programas de rastreabilidade: o pequeno produtor de bezerros.
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Mais do que um brinco
Para Manuela Santos, diretora da Fundação IDH no Brasil, o debate sobre rastreabilidade costuma ficar preso à questão do brinco, o dispositivo de identificação do animal. “A obrigatoriedade do brinco é importante, mas não garante o desenvolvimento de uma cadeia íntegra. O problema é estrutural. Precisamos endereçar os gargalos de infraestrutura, regularização e acesso para tornar a produção inclusiva e economicamente viável”, afirma a executiva.
O Programa de Produção Sustentável de Bezerros da IDH nasceu em Mato Grosso, em 2019 e chegou ao Pará em 2023. Além de concentrarem grade parte do rebanho bovino brasileiro, ambos estados têm um grande contingente de pequenos e médios pecuaristas ainda fora dos sistemas de rastreabilidade. Desde o lançamento, o programa já apoiou mais de 600 produtores de bezerros. Outros 600 estão em processo de regularização da atividade.
O programa é feito em etapas com: assistência técnica produtiva, assistência jurídica e ambiental e, por último, a orientação para garantir a rastreabilidade. Cerca de 40 técnicos especializados, em cada uma dessas fases, auxiliam os produtores.
Sem regularizar a propriedade a rastreabilidade se torna impossível
O tempo de regularização, fundiária e ambiental, depende do histórico de cada propriedade no momento de entrada no programa. É preciso verificar se há desmatamento, se a ação foi ilegal ou legal, se em algum momento foi autorizada. A partir desse primeiro diagnóstico a Fundação IDH e seis técnicos definem as prioridades, sempre em articulação com os órgãos públicos competentes.
“A gente entende que, para poder dar escala, precisamos mudar o modelo de assistência técnica conectando com mais soluções digitais. A ideia é colocar a assistência técnica não só a favor do produtor, mas também gerar dados para a cadeia produtiva da carne: para os frigoríficos, para os investidores e os compradores no ponta”, afirma Manuela Santos.
O mercado também precisa fazer sua parte
Um dos principais gargalos identificados pela Fundação IDH é a ausência de incentivo financeiro ao produtor que investe em rastreabilidade, não só os pequenos. Frigoríficos e varejo remuneram a qualidade da carne (marmoreio, peso, padronização) mas raramente reconhecem comercialmente e pagam a mais pela origem verificada do animal.
Para tentar resolver isso a Fundação vem costurando compromissos com empresas para criar condições que tornem a rastreabilidade economicamente atrativa e acessível ao criador. A proposta é conectar o campo ao mercado: demonstrar que animais com origem socioambiental comprovada representam menor risco para investidores, seguradoras e compradores internacionais.
Manuela reforça que “não basta exigir o dado se o produtor não tem condições e incentivo para gerá-lo. Atuamos para que o Brasil enfrente esses desafios de forma sistêmica, ligando a ponta produtora ao mercado financeiro”. Ao garantir que o investimento chegue à ponta, o programa permite que empresas parceiras verifiquem resultados concretos em sustentabilidade, como a redução do desmatamento e a transparência total da origem do rebanho, consolidando o Brasil como líder em pecuária regenerativa e de baixo carbono.
A meta da Fundação IDH é garantir que os pecuaristas brasileiros não sejam excluídos do mercado global, diante da exigência da União Europeia, pela ausência de um sistema que foi construído sem considerar a realidade dos pequenos e médios pecuaristas.
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