Doce, com aroma de jasmim e papaya, típicos de um geisha internacional. É esta a descrição de um microlote de 70 gramas de café que foram vendidas a R$ 3 mil em um leilão realizado nas redes sociais. O valor surpreendeu o produtor responsável, Luiz Paulo Dias Pereira Filho, e sinalizou que o Brasil está preparado para alcançar o mercado global de cafés de luxo — um segmento ainda incipiente no país, mas já consolidado em origens como Panamá e Etiópia.
“Assim como no vinho, queremos fazer do café um interesse de diversos públicos para que passem a conhecer a experiência, da colheita à bebida pronta. É incentivar o movimento de coffeemakers”, destaca o produtor em entrevista ao CNN Agro.
Produzido na Fazenda Harus, em Carmo de Minas (MG), o café arábica da variedade geisha foi colhido manualmente, grão a grão, por Pereira Filho, que é a quarta geração de uma família de agricultores. Ele próprio conduziu um rigoroso processo de seleção, processamento, torra e análise sensorial. O resultado ultrapassou os 90 pontos na escala da Specialty Coffee Association (SCA), que vai até 100 — um patamar reservado a cafés considerados excepcionais.
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“Após selecionar manualmente os frutos, realizamos a análise em nosso laboratório e vimos que esse café ‘bebeu’ mais de 90 pontos. Isso nos motivou a criar esse microlote como parte de um projeto maior, o Harus, e tudo começou com uma brincadeira de anunciar um leilão na rede social”, explica o produtor ao CNN Agro.
O resultado surpreendeu: Pereira Filho esperava angariar cerca de R$ 200 reais, mas alcançou 15 vezes mais. “Esse café específico foi produzido a 1.300 metros de altitude. Mas o diferencial não está só na origem — está no cuidado extremo na colheita e no pós-colheita. Eu fui responsável por escolher os grãos e por todo o processo. Isso fez com que o café atingisse exatamente o perfil que a gente busca há anos”, detalhou.
O lance vencedor — que, na prática, equivale a cerca de R$ 600 por uma xícara de 200 ml — foi dado pelo empresário Hugo Passos Swerts Jr., da corretora Café Responsável.
Segundo ele, a compra vai além do produto em si. “É uma raridade. Tivemos acesso a todos os detalhes do processo, desde a colheita até o pós-colheita. Isso agrega valor e permite compartilhar essa experiência com clientes e parceiros”, disse em nota.
Na prática, beber 1 litro desse café sairia algo em torno de R$ 4,3 mil. Os grãos selecionados fazem parte de 125 hectares da fazenda plantados com a variedade geisha, que vão gerar os cafés exóticos e raros. Além desses, há mais 275 hectares com 32 variedades de café arábica.
Com o leilão virtual que foi feito como um teste de mercado, Pereira Filho quer ampliar a ideia e reunir outros produtores que trabalham com variedades exóticas para realizar novos leilões e criar uma rede de raridades da cafeicultura brasileira.
“Depois, eu mesmo fiz o processo: sequei em desidratador, com controle de temperatura e umidade, buscando o grão mais perfeito possível. Quando provamos, a reação foi imediata surpresa”, frisou.
Para o produtor, o episódio reflete uma mudança de percepção sobre o café brasileiro, tradicionalmente tratado como commodity. “Estamos começando a mostrar que o café também pode ser um produto de luxo, com identidade, assinatura. Assim como no vinho, o consumidor passa a valorizar quem produz, como produz e quais histórias estão por trás da bebida.”
Pereira Filho é reconhecido como a primeira “lenda” brasileira do café especial — título concedido por entidades como a Associação Brasileira de Cafés Especiais e a Alliance for Coffee Excellence a produtores com histórico consistente de excelência e inovação. Ao longo dos anos, ele acumulou premiações no Cup of Excellence, considerado o “Oscar do café”, criado no Brasil em 1999.
Além da qualidade na xícara, o reconhecimento também leva em conta o impacto social e ambiental das propriedades. Segundo a ACE, os chamados “Legends of Excellence” atuam como líderes em suas comunidades, com iniciativas que vão de programas educacionais a projetos de sustentabilidade e formação de novos cafeicultores.
Na avaliação de agentes do setor, casos como esse ajudam a reposicionar o Brasil no mapa global dos cafés especiais — não apenas como grande produtor em volume, mas como origem capaz de disputar espaço nas prateleiras mais exclusivas do mundo.
“Meu objetivo é mostrar que precisamos valorizar o que temos. Às vezes, existe um diamante dentro da fazenda e o produtor não está sabendo lapidar. Isso não vale só para o café, mas para qualquer atividade. Cada produtor precisa identificar o seu diferencial e trabalhar esse valor”, enfatizou.
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