Uma das missões mais difíceis do Exército ucraniano é impedir os devastadores ataques aéreos russos para tentar salvar vidas inocentes.
Para conseguir isso, os militares criaram várias unidades responsáveis pela defesa aérea do país, utilizando desde o sofisticado sistema antimísseis norte-americano Patriot até o uso de ondas de rádio para interferir no controle dos drones russos.
Mas uma das táticas mais utilizadas nos últimos meses, com enorme sucesso, é o emprego de drones baratos para caçar em pleno voo e derrubar os temidos Shahed, drones de longo alcance desenvolvidos pelo Irã e aperfeiçoados pelas forças do Kremlin.
A reportagem da CNN Brasil acompanhou de perto, na linha de frente, nas proximidades da região ocupada do Donbass, no leste da Ucrânia, uma unidade do exército que tem justamente a missão de caçar e derrubar os Shahed.
Soldados ucranianos operam drone • Américo Martins/CNN Brasil
Para chegar à posição dos soldados ucranianos, escondida em meio a uma floresta local, foi preciso percorrer várias pequenas estradas e encontrar um militar ucraniano em um ponto previamente combinado.
A partir dali, com os celulares todos desativados para impedir os russos de localizarem a unidade militar, o deslocamento passou a ser guiado pelos próprios soldados, com mudanças rápidas de rota e sem qualquer identificação visível nos três carros utilizados no trajeto.
Em determinado momento, uma van branca surgiu, fez um sinal breve e seguiu por uma trilha de terra irregular, cercada por vegetação densa. A reportagem seguiu o veículo, com a ajuda de um fixer local, um produtor ucraniano. O trajeto terminou sob a cobertura de árvores, onde a camuflagem tenta esconder qualquer sinal de atividade.
Ali funciona uma base improvisada.
Escavada no solo e protegida pela densa vegetação, a posição abriga um destacamento de apenas cinco soldados. Jovens, a maioria na faixa dos 20 anos, eles operam em turnos de três dias consecutivos antes de serem substituídos.
O local é rudimentar: chão de terra, equipamentos espalhados, restos de suprimentos e um abrigo improvisado cavado no chão que serve tanto para descanso quanto para proteção.
Conversando com os militares, ficou claro que a missão exige mais paciência do que ação.
“90% do tempo é espera”, disse um deles, responsável pelas atividades daquele dia.
A equipe é responsável por monitorar, com a ajuda de computadores e equipamento de rastreamento, um raio de aproximadamente 35 a 40 quilômetros. Fora dessa área, até há capacidade de alcance por parte dos drones utilizados pelos ucranianos para caçar os Shahed, mas a responsabilidade operacional é limitada. Dentro desse perímetro, qualquer objeto no céu pode virar alvo.
Equipamento de rastreamento usado por soldados ucranianos • Américo Martins/CNN Brasil
O coração da operação fica dentro de uma caminhonete adaptada, onde dois soldados monitoram quatro telas de computador.
A reportagem acompanhou a operação de dentro e ao redor dessa estrutura. Um dos sistemas, desenvolvido especificamente pelo exército ucraniano, mostra uma espécie de mapa aéreo com todos os objetos identificados: de aeronaves a possíveis drones, passando por sinais indefinidos que podem ser desde equipamentos inimigos até grandes pássaros.
Não é um sistema em tempo real absoluto, mas oferece dados suficientes para tomada de decisão rápida.
Quando um alvo é identificado, começa a corrida contra o tempo.
Ao redor da base, escondidos entre árvores, estão os drones interceptadores.
São simples, baratos e produzidos em larga escala. Custam entre 2.000 e 3.000 dólares, feitos com materiais leves, incluindo componentes que lembram isopor reforçado, e equipados com câmera, rádio e bateria com autonomia de até uma hora e meia.
Esses equipamentos precisam ser baratos porque eles são kamikaze: ou seja, operam apenas uma vez e é necessário utilizar vários deles na tentativa de deter os Shahed.
A equipe mostrou à reportagem como esses equipamentos são preparados para lançamento.
Eles são disparados por uma catapulta hidráulica, que acelera o drone até a velocidade necessária para o voo, que pode chegar a cerca de 300 km/h, mais rápido do que os próprios Shahed, que normalmente voam a cerca de 180 km/h.
A partir daí, tudo depende da habilidade dos operadores.
Guiados pelas imagens da câmera e pelos dados do sistema, eles conduzem, de dentro da van, o drone até o alvo. A interceptação não exige impacto direto. A cerca de 10 metros de distância o operador aciona a carga explosiva, suficiente para destruir ou desestabilizar o drone inimigo.
Esse tipo de operação se tornou essencial na guerra.
Os drones Shahed são usados em ataques frequentes contra cidades e infraestrutura energética ucraniana. Custam relativamente pouco e podem ser lançados em grande número, o que forçou a Ucrânia a desenvolver respostas igualmente acessíveis e eficientes.
Leia Mais
-
Rússia intensifica ataques aéreos enquanto enfrenta dificuldades por terra
-
Ucrânia assina acordo de cooperação em defesa com o Catar
-
Startups reforçam defesa da Ucrânia com drones marítimos e caminhões robôs
Além dos Shahed, a equipe também enfrenta drones menores, como os FPV (first-person view), muitas vezes improvisados e carregados com explosivos. Mais rápidos e difíceis de detectar, esses modelos representam uma ameaça constante, especialmente em áreas próximas à linha de frente.
Durante a permanência da CNN Brasil, a tensão aumentou rapidamente quando um desses drones foi identificado nas proximidades.
Um soldado monitorava os céus de dentro da van quando deu alarme ao demais, avisando que havia identificado um drone FPV nas imediações.
Sem hesitar, os soldados fora da caminhonete abandonaram suas posições e correram para se esconder entre a vegetação. A equipe da CNN Brasil acompanhou o movimento, mas usou a luz do celular para tentar encontrar o caminho no meio da mata. Recebeu uma ordem, aos gritos, para desligar o aparelho imediatamente, já que qualquer luz ou ruído poderia denunciar a posição de toda a unidade.
Todos permaneceram em silêncio, escondidos no meio da vegetação, por quase 25 minutos, até que o risco fosse considerado controlado.
Situações como essa são comuns e mostram o nível de vulnerabilidade mesmo entre unidades especializadas.
A poucos quilômetros dali, uma forte explosão foi ouvida. Um avião russo, operando ainda do seu lado da fronteira, lançou uma bomba guiada que atingiu uma área a cerca de 50 quilômetros de distância.
Os soldados ficaram muito preocupados com a possibilidade de ataques do tipo continuarem, mas isso não ocorreu mais durante aquela noite.
Embora consiga deter os Shahed e outros drones, essas pequenas unidades ucranianas são totalmente indefesas diante dos mísseis e bombas guiadas dos russo.
Mas mesmo com recursos limitados, os soldados dessa equipe relataram à CNN Brasil que já conseguiram abater vários drones. Cada interceptação representa não apenas um alvo neutralizado, mas uma redução no impacto sobre cidades e infraestrutura civil.
Ainda assim, o equilíbrio é frágil.
Os drones inimigos continuam evoluindo. São mais rápidos, mais precisos e constantemente atualizados. Ao mesmo tempo, sua produção em massa mantém a pressão sobre as defesas ucranianas.
Nesse cenário, unidades como essa se tornaram uma linha invisível de defesa.
Comentários: