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Segunda-feira, 22 de Junho de 2026

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Das capitanias hereditárias à nova matriz energética nacional

Em artigo ao CNN Infra, o conselheiro da UCB Power, Marcelo Rodrigues, diz que o primeiro leilão de baterias abre uma nova fase para o setor elétrico e pode movimentar mais de R$ 70 bilhões na próxima década 

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Das capitanias hereditárias à nova matriz energética nacional
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O Brasil passou décadas construindo um sistema elétrico integrado, capaz de conectar regiões muito diferentes e operar uma matriz com forte presença de fontes renováveis.

Mas esse sistema foi pensado para outra realidade. Grandes usinas, longas linhas de transmissão e uma demanda mais previsível formaram a base do modelo que conhecemos. Hoje, a expansão da geração solar e eólica, a eletrificação da economia, o avanço dos data centers e a digitalização do consumo exigem outra resposta.

Por isso, a publicação das diretrizes do primeiro Leilão de Reserva de Capacidade para Sistemas de Armazenamento em Baterias, previsto para dezembro de 2026, teve tanto peso para quem acompanha esse debate há anos.

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O armazenamento deixou de ser tratado como promessa distante e passou a fazer parte do planejamento da infraestrutura elétrica brasileira.

As “capitanias” do setor elétrico

Costumo dizer que o setor elétrico brasileiro tem suas próprias capitanias hereditárias. Geração, transmissão, distribuição, comercialização e consumo foram organizados em territórios bem definidos, cada um com suas regras,  formas de remuneração e players e interesses diversos. Esse desenho ajudou a estruturar o setor, mas também criou fronteiras difíceis de atravessar.

A bateria não respeita essas divisões. Ela pode apoiar a geração, aliviar a transmissão, reforçar a distribuição, atender um consumidor industrial e prestar serviços ao sistema. Atua justamente entre as fronteiras que o setor aprendeu a proteger.

Essa foi uma das razões para o debate ter demorado tanto. A tecnologia já estava pronta e avançava em outros mercados enquanto, por aqui, ainda discutíamos onde o armazenamento deveria se encaixar.

“No Brasil, muitas vezes é mais difícil convencer do que fazer.”

Quem acompanhou essa agenda de perto sabe o quanto foi necessário insistir, apresentar dados e voltar à mesa. O leilão nasce após anos de trabalho técnico, articulação institucional e amadurecimento regulatório.

Um mercado que começa a ganhar escala

As diretrizes do leilão reconhecem uma mudança importante: o armazenamento passa a ser tratado como ativo estratégico para a segurança energética.

O potencial inclui grandes projetos conectados ao sistema, aplicações em indústrias e comércios, geração distribuída, mobilidade elétrica e sistemas isolados.

A geração renovável cresce rapidamente. A energia solar já ocupa milhões de telhados e terrenos. Novas cargas, como data centers, exigem fornecimento contínuo e de alta qualidade. Ao mesmo tempo, o sistema precisa lidar com momentos de excesso de oferta e com horários de maior demanda.

A bateria entra exatamente aí. Armazena energia quando há disponibilidade e entrega quando ela é mais necessária. Também reduz restrições operativas, melhora o aproveitamento da infraestrutura existente e aumenta a confiabilidade do fornecimento.

Durante décadas, a expansão do setor foi discutida em dois eixos: mais geração e mais transmissão. Eles continuam fundamentais, mas já não bastam. A nova infraestrutura elétrica precisa de flexibilidade.

Flexibilidade como infraestrutura

Não basta saber quantos megawatts o país tem instalados. É preciso saber quando essa energia estará disponível, por quanto tempo e com que velocidade poderá responder ao sistema.

As baterias equilibram variações da geração solar e eólica, atuam nos momentos de maior demanda e dão ao operador mais opções em situações críticas.

Isso muda a lógica de planejamento. Em vez de olhar apenas para a expansão física, o setor passa a considerar também a inteligência da operação e o melhor uso dos ativos existentes.

Em um país continental, no qual construir uma linha de transmissão pode levar anos, usar melhor a infraestrutura disponível é uma decisão econômica e estratégica.

A relação com a nova economia

Energia confiável passou a ser um dos critérios para a instalação de data centers, operações de inteligência artificial, plantas industriais, projetos de mineração e novos polos tecnológicos.

Esses investimentos consideram preço, estabilidade, risco de interrupção, capacidade da rede e possibilidade de expansão.

O Brasil tem matriz renovável e recursos energéticos em escala. Essa vantagem só vira competitividade quando a energia chega com custo, qualidade, segurança e previsibilidade.

Por isso, o leilão interessa ao setor elétrico, à indústria, aos investidores e ao desenvolvimento do país.

O que realmente começa em dezembro

O leilão não resolverá todos os desafios do armazenamento. Ainda será preciso aperfeiçoar regras de remuneração, acesso às redes, participação nos mercados de energia e prestação de serviços ao sistema.

Também será necessário definir como o Brasil participará da cadeia industrial desse mercado, com capacidade para gerar tecnologia, empregos e novas competências.

A principal mudança já aconteceu. O armazenamento entrou oficialmente no planejamento nacional.

Depois de anos discutindo se as baterias deveriam fazer parte do sistema, o país começa a discutir como utilizá-las em escala.

O século passado foi marcado pela construção de grandes usinas e pela integração do território por meio do Sistema Interligado Nacional. A etapa que começa agora será definida pela capacidade de tornar essa infraestrutura mais flexível, eficiente e preparada para uma economia digital.

Talvez o leilão seja lembrado como o momento em que o setor começou a deixar suas capitanias para trás.

* Marcelo Rodrigues é engenheiro eletricista, conselheiro da UCB Power, cofundador da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae) e sócio da MR Partners e da 2EX Energy

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
FONTE/CRÉDITOS: robsonrodrigues
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