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Sexta-feira, 17 de Abril de 2026

Política

Fúria perde espaço com entrada de Netto e Hildon: a armadilha do apoio de Rocha

Com a entrada de Expedito Netto no PT e Hildon Chaves no UB, o prefeito de Cacoal perde o monopólio do voto de oposição moderada e precisa reinventar sua narrativa antes que o campo se fragmente

ESTADÃO RONDÔNIA
Por ESTADÃO RONDÔNIA
Fúria perde espaço com entrada de Netto e Hildon: a armadilha do apoio de Rocha
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O candidato que parecia ter tudo — e viu o tabuleiro virar

Adaílton Fúria (Partido Social Democrático — PSD), prefeito reeleito de Cacoal com mais de 83% dos votos em outubro de 2024, chegou ao início de 2026 com um perfil invejável para qualquer pré-candidato: alto índice de aprovação, gestão reconhecida no interior, idade jovem — completará 40 anos em 2026, com 13 anos de vida pública — e o respaldo do governador Marcos Rocha (MDB). O cenário parecia montado para uma candidatura sólida ao Palácio Rio Madeira.

Então o campo começou a se mover.

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Em janeiro de 2026, Expedito Netto saiu do PSD, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) e teve sua pré-candidatura ao governo aprovada pela Federação Brasil da Esperança, composta por PT, Partido Verde (PV) e Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Na última quarta-feira, Hildon Chaves se filiou ao União Brasil, com aval da direção nacional da legenda, reorganizando o tabuleiro eleitoral de 2026 em Rondônia e abrindo mais uma frente de competição no centro da disputa.

Para Fúria, a conta chegou rápido.


A armadilha chamada Marcos Rocha

O movimento que deveria turbinar a pré-candidatura de Fúria — o apoio declarado do governador Marcos Rocha — produziu um efeito colateral que os estrategistas do PSD não esperavam nessa velocidade.

Em fevereiro de 2026, Rocha declarou publicamente apoio ao prefeito de Cacoal, fazendo com que Fúria saísse da posição de “azarão” e passasse a figurar entre os favoritos da disputa, especialmente na capital, onde ainda não possui o mesmo prestígio que mantém no interior.

O problema é que, em eleições de sucessão — especialmente quando o mandatário não pode se reeleger — o apoio do governador de plantão funciona como uma faca de dois gumes. Do ponto de vista logístico, é uma vantagem real: estrutura partidária, acesso à máquina e presença nos municípios do interior, onde a eleição costuma ser decidida. Do ponto de vista narrativo, porém, é um fardo.

“Netto é o candidato do PT, Fúria o candidato de Expedito Júnior e Marcos Rocha, Rogério o candidato de Jair Bolsonaro e eu o candidato do povo.” — Samuel Costa, pré-candidato pela Rede Sustentabilidade, resumindo em uma frase o que os adversários de Fúria passaram a repetir nos bastidores.

A declaração de Costa, feita em março de 2026, sintetiza o enquadramento que os demais pré-candidatos passaram a usar para posicionar Fúria como representante do status quo. Para um candidato que construiu sua imagem no interior como gestor eficiente e independente, ser identificado como o “escolhido do palácio” corrói justamente sua principal vantagem competitiva.


A pulverização do centro e os votos que não chegarão automaticamente

O segundo problema de Fúria é geográfico e ideológico ao mesmo tempo.

Num cenário simplificado — aquele que o PSD provavelmente projetava em meados de 2025 — a esquerda e o centro-esquerda chegariam ao primeiro turno sem candidatura competitiva. Nesse vácuo, votos moderados e progressistas poderiam migrar naturalmente para Fúria como alternativa ao bolsonarismo de Marcos Rogério (PL).

Com a entrada de Expedito Netto, o PT aposta numa reconstrução estratégica no estado, mesmo em um ambiente majoritariamente conservador. Embora enfrente resistências internas, o apoio da direção nacional fortalece sua presença na disputa.

Hildon Chaves traz outro tipo de complicação. Com gestão recente bem avaliada como ex-prefeito de Porto Velho e agora com uma estrutura partidária mais robusta pelo União Brasil, ele ocupa com mais naturalidade o espaço de centro. Seu desafio, no entanto, é o clássico de quem nasce na capital: expandir influência no interior.

O resultado prático é direto: em vez de ocupar sozinho o campo moderado, Fúria passa a disputar esse espaço com pelo menos dois adversários competitivos. A fragmentação desses votos no primeiro turno pode ser suficiente para comprometer sua ida ao segundo turno em posição confortável.

E há um agravante: Hildon anunciou como vice o deputado estadual Cirone Deiró, também da região de Cacoal, avançando sobre uma base que antes parecia consolidada para Fúria.


O que o mapa eleitoral diz sobre os riscos reais

A polarização em Rondônia em 2026 não será entre esquerda e direita no sentido clássico, mas sim entre candidatos do espectro de direita, centro-direita e extrema-direita. Nomes como Marcos Rogério (PL), Adaílton Fúria (PSD), Hildon Chaves e Rodrigo Camargo (Podemos) disputam espaços sobrepostos, enquanto Expedito Netto (PT) tenta reorganizar o campo progressista.

Nesse cenário fragmentado, Fúria precisa resolver uma equação delicada: ou reposiciona seu discurso em relação ao governo Marcos Rocha — correndo o risco de ruído político — ou assume de vez o papel de candidato da continuidade, apostando que a estrutura e o apoio institucional compensarão o desgaste narrativo.

Entre os nomes da chamada “nova safra”, tanto Fúria quanto Camargo enfrentam o mesmo gargalo estratégico: a dificuldade de consolidar um vice competitivo em Porto Velho, o maior colégio eleitoral do estado. Sem essa ponte com a capital, qualquer projeto estadual nasce incompleto — e é justamente aí que Hildon larga na frente, com presença consolidada e memória de gestão.

No fim das contas, o cenário que parecia linear para Fúria no início de 2026 tornou-se um tabuleiro fragmentado, imprevisível e altamente competitivo. O capital político acumulado no interior segue sendo uma vantagem real, mas já não é suficiente por si só.

A eleição deixou de ser sobre quem tem mais força — e passou a ser sobre quem erra menos na montagem do próprio caminho.

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