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Terça-feira, 15 de Setembro de 2026

Saúde e Beleza

Melanoma: risco vai além da pele, alerta estudo

Conhecer este tipo de câncer é fundamental para a sua prevenção e enfrentamento.

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Melanoma: risco vai além da pele, alerta estudo
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A Fundação do Câncer esclarece que nem todo melanoma se relaciona ao câncer de pele. Originando-se nas células denominadas melanócitos, o melanoma pode aparecer em estruturas extracutâneas, como nos olhos, em mucosas da cavidade oral, além de órgãos internos dos sistemas digestório e genital.

Embora este tipo de neoplasia maligna seja menos comum, sua agressividade e letalidade são maiores, pois possui uma propensão elevada a provocar metástases, facilitando a disseminação para tecidos e órgãos próximos.

Lançada neste mês, a 12ª edição do boletim Análises e Tendências em Câncer, da fundação, concentra-se no estudo do melanoma tanto cutâneo quanto extracutâneo. Intitulada Melanoma: nem sempre na pele, a publicação enfatiza que o conhecimento sobre este tipo de câncer é o primeiro passo para combatê-lo.

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“Para enfrentar o câncer, não basta tratar. É preciso conhecer. Conhecer para prevenir, diagnosticar mais cedo, planejar melhor os serviços de saúde e orientar políticas públicas capazes de salvar vidas”, afirma o boletim.

As edições anuais do boletim da Fundação do Câncer retratam o panorama epidemiológico da doença no Brasil, visando alertar a população e guiar profissionais sobre a importância da prevenção, diagnóstico precoce e combate ao câncer.

Os dados contidos no boletim provêm da plataforma info.oncollect, que integra a coleta, organização e análise de dados relativos a registros hospitalares em oncologia.

Combatendo o melanoma

 
Alfredo Scaff, consultor médico da Fundação do Câncer e coordenador do estudo - Foto: Hugo Vilarroel/ Divulgação

O estudo também revela que a luta contra o melanoma, tanto cutâneo quanto extracutâneo, no Brasil demanda prevenção, diagnóstico precoce, aprimoramento dos registros, acesso tempestivo ao tratamento e colaboração entre diversas especialidades médicas, como enfatiza Alfredo Scaff, consultor médico da Fundação do Câncer e coordenador do estudo.

“Controlar o câncer requer realizar o diagnóstico o mais cedo possível e iniciar o tratamento na hora certa, para que as pessoas possam se tratar e se curar. O câncer pode ser curável quando diagnosticado e tratado precocemente”, ressalta.

Pela rede do Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento padrão para o melanoma envolve a cirurgia da lesão primária e a remoção dos linfonodos afetados.

Entre 2014 e 2023, a cirurgia foi o principal tratamento inicial registrado para melanoma de pele em todas as regiões do Brasil, correspondendo a 84,7% de todos os procedimentos realizados.

A Região Sudeste destaca-se com a maior proporção de cirurgias como primeiro tratamento desse tipo de câncer, alcançando 89,6% dos casos, enquanto a região Norte apresenta o menor percentual, com 64,4%.

Em relação ao deslocamento para tratamento oncológico, os pesquisadores notaram que a maioria dos pacientes optou por realizar o tratamento em sua própria região de residência, exceto no Centro-Oeste, onde se observou a maior necessidade de deslocamento (20,2%). Segundo a Fundação do Câncer, isso indica um “importante gargalo de acesso à assistência especializada.”

Tratamentos alternativos

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a quimioterapia é uma abordagem comum no tratamento de melanomas.

Além disso, em 2016, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou no Brasil o uso de medicamentos da classe anti-PD-1, como nivolumabe e pembrolizumabe; e mais recentemente, o tebentafuspe, destinado ao melanoma ocular metastático/inoperável.

No ano de 2020, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) aprovou a primeira imunoterapia no SUS para tratamento de melanoma metastático, utilizando dois agentes anti-PD1 (nivolumabe e pembrolizumabe).

O consultor médico Alfredo Scaff ressalta que a introdução desses medicamentos avançados aumentou a taxa de resposta nos tratamentos oncológicos, melhorando significativamente a sobrevida de pacientes com melanoma avançado ou em fase metastática.

“Isso é um marco, uma vez que a resposta clínica, ou seja, a melhora dos pacientes, saltou de menos de 10% em quimioterapia para até 70% em imunoterapia. Isso é revolucionário”, celebrou.

Entretanto, Gélcio Mendes, coordenador de Assistência do Inca, observa que existem poucas evidências sobre a eficácia da imunoterapia no tratamento do melanoma extracutâneo. “Muitas sem nenhuma efetividade”, afirmou.

 
O coordenador de Assistência do Instituto Nacional de Câncer (Inca), Gélcio Mendes - Foto: Carlos Leite/Inca

O Inca esclarece que novas tecnologias no tratamento de neoplasias costumam complementar as terapias antigas eficazes, em vez de substituí-las.

“É fundamental considerar a magnitude do benefício observado nos estudos [eficácia], o desempenho dessa tecnologia na prática [efetividade], a relação custo-benefício [custo-efetividade, eficiência], e a capacidade de financiamento, considerando os altos custos de aquisição e implementação. Outro ponto a considerar é a estrutura do sistema para incorporar tecnologias que exigem estruturas mais complexas”, acrescentou Mendes.

A questão do custo

Apesar dos avanços, especialistas destacam que o elevado custo dos medicamentos ainda é um grande obstáculo para que pacientes dependentes do SUS tenham acesso à imunoterapia de forma oportuna.

Alfredo Scaff enfatiza que a superação desse desafio financeiro depende da possibilidade de aquisição centralizada de insumos pelo Ministério da Saúde e órgãos correlatos, em conjunto com uma política de industrialização da saúde com o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), visando obter produtos a preços mais acessíveis no mercado farmacêutico.

“Utilizando o poder de compra do SUS, é possível negociar preços e aumentar a produção nacional, o que pode reduzir significativamente o custo desses medicamentos e garantir a produção local”, afirma o consultor da fundação.

O coordenador de Assistência do Inca reconhece que o alto custo dessa terapia limita o acesso de muitos pacientes do SUS. Gélcio Mendes informou que modificações no marco legal (portarias) estão em tramitação, visando ampliar o programa de Assistência Farmacêutica em Oncologia no SUS (AF-Onco), com foco no acesso a esses agentes.

“Com a nova política de medicamentos oncológicos, expressa pelas portarias da Assistência Farmacêutica em Oncologia [AF-Onco], espera-se proporcionar acesso aos pacientes com melanoma metastático à imunoterapia, dentro dos parâmetros aprovados e acordados pela Conitec, além de diversas outras tecnologias.”

Alfredo Scaff ressalta que, embora a legislação represente um avanço formal, o fluxo logístico para a distribuição dos medicamentos de alta tecnologia até as unidades de saúde ainda está sendo discutido e reformulado pelo Ministério da Saúde.

“Todos os mecanismos práticos de como ocorrerá essa compra e o repasse aos hospitais ainda dependem de acordos entre gestores. Esse processo está em acompanhamento e ainda está em construção”, explicou o coordenador do estudo.

A transferência efetiva desses medicamentos para as unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacons) e centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacons) continua em negociação entre os governos, segundo Scaff.

Dados sobre melanoma extracutâneo

Um estudo epidemiológico, com registros hospitalares no Brasil, avaliou 42.255 casos, dos quais 92,2% eram melanomas cutâneos, 5,7% oculares e 2,5% de mucosa.

Entre 1990 e 2021, foram notificados 1.324 novos casos de melanomas extracutâneos no Brasil, sendo 523 em homens e 801 em mulheres.

O olho constituiu a principal localização primária (75%) dos casos extracutâneos, seguido pelos órgãos genitais (12,8%) e pelo sistema digestório (8,2%).

Dentre os 993 casos de melanoma ocular analisados, 447 (45%) ocorreram em homens e 546 (55%) em mulheres.

A Fundação do Câncer alerta que, diferente do melanoma cutâneo, o ocular pode ser assintomático nas fases iniciais e passar despercebido, sendo descoberto apenas em exames de rotina.

Os sintomas desse tipo de melanoma são inespecíficos e podem atrasar o diagnóstico, incluindo: visão embaçada, flashes luminosos, manchas no campo visual e perda de visão. Portanto, o estudo enfatiza a importância do diagnóstico precoce.

Melanoma cutâneo

A exposição à radiação ultravioleta (UV) é o principal fator de risco para todos os tipos de câncer de pele. O risco varia de acordo com o tipo de pele, sendo mais elevado em indivíduos de pele clara e dependendo da intensidade e frequência da exposição solar.

Embora o câncer de pele seja a neoplasia maligna mais comum no Brasil, o melanoma cutâneo representa apenas 4% dos tumores malignos dessa natureza. Mesmo sendo menos frequente, esse tipo de tumor é mais agressivo e possui maior potencial de disseminação.

Entre 1990 e 2021, a última edição do boletim info.oncollect da Fundação do Câncer também registrou 30.614 novos casos de melanoma cutâneo no Brasil, com maior incidência entre mulheres (15.714 ou 51,3% dos casos). Os dados indicam que 14,9 mil casos (48,7%) foram em pacientes do sexo masculino.

No período avaliado, os maiores percentuais de ocorrência estavam localizados no tronco (22,4%), membros inferiores (19,1%) e membros superiores (13,8%). A entidade observa que os homens apresentaram mais diagnósticos de melanoma na orelha, couro cabeludo, pescoço e tronco, enquanto as mulheres tiveram mais diagnósticos na face, membros inferiores e superiores, nessa ordem.

Mortalidade

Em relação à mortalidade no Brasil, o Inca registrou, em 2023, 2.047 mortes por melanoma de pele. Entre os homens, foram 1.176 óbitos (1,14 por 100 mil homens) e, entre as mulheres, 871 (0,8 por 100 mil mulheres).

A taxa média para o período de 2020 a 2024 foi de seis óbitos a cada 1 milhão de habitantes no Brasil, com maiores índices entre homens (oito óbitos por 1 milhão) em comparação às mulheres (cinco óbitos por 1 milhão).

Por região

A análise epidemiológica sobre melanoma cutâneo revela que as regiões com menor incidência e mortalidade apresentam uma letalidade mais alta, como observado na Região Norte do país. A Fundação do Câncer sugere que isso se deve ao diagnóstico tardio e às barreiras de acesso à assistência especializada.

A região Sul apresenta as maiores taxas de incidência do tumor de melanoma na pele, com 44,40 casos por 1 milhão, mais que o dobro da média nacional (19,20). No Sul, o melanoma cutâneo ocupa a sétima posição em incidência de câncer em mulheres e a nona em homens.

Incidência projetada

O Inca estima para este ano 9.360 novos casos de câncer de pele melanoma no Brasil, com 19,2 casos novos a cada 1 milhão de habitantes, sendo o risco mais alto entre homens (23,8 casos por 1 milhão) em comparação às mulheres (17,3 casos por 1 milhão).

Esses números fazem parte das últimas estimativas do instituto referentes ao triênio 2026/2028, orientando o planejamento de políticas públicas e ações no SUS para o setor.

O estudo completo da Fundação do Câncer está disponível neste link.

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