O pátio de uma escola no sul do Líbano ecoava com os gritos de crianças brincando, apesar do sol forte e do som distante de ataques aéreos israelenses.
Mas, para a maioria dos jovens ali, a escola pública não é o lugar onde aprendem. É onde vivem.
Milhares de crianças continuam deslocadas de suas cidades natais no sul do Líbano, seis meses após o início de uma nova guerra entre o exército de Israel e o grupo armado Hezbollah.
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Muitas ainda vivem em escolas transformadas em abrigos, enquanto outras estão amontoadas em apartamentos alugados com suas famílias extensas.
À medida que as escolas se preparam para um novo ano letivo, com início em 15 de setembro, as famílias que buscaram abrigo em escolas públicas se perguntam para onde irão — e como seus filhos poderão retomar os estudos em meio a tanta incerteza.
Najah Ammar, avó de quatro crianças em idade escolar, é natural do vilarejo costeiro de Mansouri, mas fugiu dos ataques israelenses para a escola pública na cidade de Tiro, cerca de 10 km ao norte.
Cerca de 200 outras famílias vivem atualmente na escola.
Ammar, de 62 anos, tem duas preocupações: onde morará se a escola reabrir e como seus netos poderão recuperar o tempo perdido nos estudos, após anos de interrupção escolar devido aos conflitos recorrentes entre Israel e Hezbollah desde 2023.
“Eles estão fora da escola há dois anos — por causa da guerra anterior e desta guerra. A filha do meu filho… a coitadinha tem oito anos. Ela estava no segundo ano e continua no segundo ano”, disse Ammar.
Desde 2 de março, ataques israelenses mataram mais de 4.300 pessoas no Líbano, incluindo mais de 250 crianças, e feriram outras 12 mil, incluindo mil crianças, segundo o Ministério da Saúde do Líbano.
No auge dos combates, mais de um milhão de pessoas — quase um quarto da população — foram deslocadas.
A maioria retornou para casa, mas mais de 340 mil permanecem deslocadas, pois suas cidades natais foram destruídas ou estão situadas em território ocupado pelo exército de Israel.
Rula al-Awad, mãe de dois filhos e também deslocada de Mansouri, disse que não tem a instrução necessária para ajudar a filha nas aulas online, mas leva papel e caneta para que ela possa, pelo menos, continuar escrevendo.
Awad está hospedada em um apartamento, mas leva os dois filhos à escola em Tiro para brincar e quer matriculá-los para o novo ano letivo.
No entanto, ela teme não ter condições de pagar pelos livros escolares ou uniformes.
“Espero que possamos vislumbrar um futuro bonito para as crianças — assim poderemos ter esperança; para que, quando dissermos a elas que as coisas estão bonitas, elas acreditem em nós, em vez de sentirem que estamos mentindo”, disse ela.
Zeinab Moussa, de 56 anos, que vive em barracas montadas no saguão de uma escola com seus filhos e netos, diz que as crianças só conseguem vivenciar breves momentos de felicidade.
“Uma ONG aparece e elas brincam um pouco. Quando a ONG vai embora, elas perdem o interesse em tudo”, disse ela. “Eu só queria que as crianças pudessem viver a infância delas. Mas não existe infância agora.”
Das quase 80 escolas públicas que ainda serviam como abrigos à medida que o ano letivo se aproximava, quase metade foi esvaziada e reabrirá como escola, informou o Ministério da Educação do Líbano à agência de notícias Reuters.
Cerca de 30 reabrirão parcialmente, continuando a servir também como abrigos, enquanto nove escolas permanecerão sendo utilizadas integralmente como abrigos.
Outras 50 escolas públicas libanesas foram destruídas ou sofreram danos graves na guerra, e mais de 200 outras sofreram danos moderados ou leves, segundo o ministério.
As Nações Unidas afirmaram que o impacto nas escolas comprometeria o novo ano letivo para pelo menos 100 mil crianças.
No mês passado, o exército libanês informou que tropas israelenses haviam explodido uma escola pública e uma creche na vila de Zawtar al-Sharqiyeh, no sul do país.
As forças armadas de Israel não responderam de imediato aos questionamentos da Reuters sobre a escola.
A ministra da Educação do Líbano, Rima Karami, disse nesta semana que seu objetivo é garantir que o maior número possível de alunos do sul possa continuar seus estudos, seja em suas cidades de origem — caso seja seguro — ou enquanto estiverem deslocados.
A organização Save the Children, que presta apoio à escola em Tiro, afirmou que apenas um cessar-fogo duradouro poderia resolver a crise.
“As crianças com quem conversamos nos últimos dias sabem qual é a solução. É uma solução política. Não existe solução humanitária para isso”, disse Danny Glenwright, presidente da Save the Children no Canadá.
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