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A insatisfação com a administração da família Glazer no Manchester United voltou a ser um ponto central nas discussões. Gary Neville, ex-capitão dos Red Devils e figura emblemática na história recente do clube, trouxe à tona essa questão.
No podcast "Stick to Football", o ex-lateral-direito argumentou que os atuais proprietários devem deixar a instituição imediatamente, após mais de 20 anos de gestão caracterizada por dívidas, desgaste com a torcida e resultados esportivos insatisfatórios.
— Eles precisam vender agora, me desculpem, mas chegou a hora. Eles terceirizaram o departamento de futebol para a Ineos; estão enfrentando dificuldades há três anos e parece que este ano também será complicado — declarou Neville.
A crítica de Neville se refere à estrutura de poder implementada em 2024, quando Jim Ratcliffe, empresário britânico e proprietário da Ineos, adquiriu uma participação minoritária no United. Esse acordo fez com que o grupo assumisse a responsabilidade pelas operações esportivas, mas não retirou dos Glazers o controle majoritário do clube. Assim, a família americana continua como a principal acionista, enquanto Ratcliffe gerencia a reorganização de setores diversos da instituição.
Para Neville, essa divisão não resolveu o problema básico. Ele defende que os proprietários devem arcar com as consequências de um longo período de dificuldades, em vez de simplesmente transferir a responsabilidade pela gestão esportiva a outro grupo. O ex-jogador também expressou preocupação com a distância dos Glazers em relação ao cotidiano do Manchester United.
— A família Glazer está nos Estados Unidos, em Tampa. Eles têm grande popularidade lá; pelo que ouvi, frequentam todos os jogos da NFL, mas mal pisaram em Old Trafford nos últimos 20 anos — lamentou.
A comparação é com a relação dos americanos com o Tampa Bay Buccaneers, equipe da NFL que também é de propriedade da família. Para Neville, a presença dos proprietários em Tampa contrasta com sua escassa participação na rotina de um clube que, apesar de seu prestígio global, enfrenta há anos problemas administrativos e esportivos.
Dívidas, estádio e uma gestão que desgastou a relação com a torcida
Torcedores do United em protesto contra a família Glazer (Foto: Colorsport / IMAGO)
A rejeição dos torcedores à família Glazer tem raízes históricas na forma como eles adquiriram o controle do Manchester United, em 2005. Para financiar a compra, avaliada em cerca de 790 milhões de libras, os americanos usaram empréstimos, resultando em uma dívida significativa para o clube. Antes da aquisição, o United tinha aproximadamente 50 milhões de libras em endividamento bruto, que saltou para 604 milhões de libras após a operação.
O impacto financeiro não se limitou aos primeiros anos. Um estudo da BBC Verify, divulgado em junho de 2025, estimou que cerca de 1,187 bilhão de libras foram retirados dos cofres dos Red Devils entre 2005 e 2024, em pagamentos de juros, amortizações de dívidas, dividendos e taxas ligadas à família Glazer.
A insatisfação também surge da falta de investimentos estruturais. Old Trafford, inaugurado em 1910, passou por várias ampliações ao longo de sua história, mas enfrenta críticas pela qualidade de suas instalações e pela ausência de uma modernização abrangente. Enquanto outros grandes clubes ingleses investiram em estádios e centros de treinamento, o United ainda não apresentou um projeto concreto para renovar sua principal estrutura.
Atualmente, existe um plano para construir uma nova arena com capacidade para 100 mil espectadores. Contudo, o investimento necessário pode ultrapassar 2 bilhões de libras, gerando dúvidas sobre o financiamento. Essa incerteza é uma preocupação para Neville.
— O que estou dizendo é que eles precisam vender agora, já chega. O clube está endividado, não investiram um centavo no estádio e agora estão tentando obter um empréstimo de 2 bilhões de libras para um novo estádio sem saber como conseguirão isso.
A oposição aos Glazers sempre acompanhou sua propriedade americana. Os protestos começaram em 2005, quando a aquisição gerou manifestações de torcedores contrários à introdução de uma dívida na contabilidade de uma instituição que, até então, tinha uma situação financeira muito mais saudável.
Com o passar dos anos, a insatisfação se manifestou de diversas formas, incluindo campanhas pelo afastamento da família e protestos nas proximidades de Old Trafford. Um dos episódios mais marcantes ocorreu em maio de 2021, quando torcedores invadiram o gramado do estádio, resultando no adiamento do clássico contra o Liverpool. A manifestação ocorreu em meio a uma mobilização internacional contra o projeto da Superliga Europeia, mas também focou a administração dos Glazers.
Mais recentemente, em março de 2025, milhares de pessoas participaram de uma marcha organizada pelo grupo de torcedores The 1958 antes de um jogo contra o Arsenal. Entre as demandas estavam a saída dos proprietários, a situação financeira do clube e os altos preços dos ingressos.
Resultados esportivos ampliam a pressão sobre os proprietários
Michael Carrick, técnico do Manchester United, cabisbaixo durante jogo em Old Trafford (Foto: Phil Duncan / Every Second Media / IMAGO)
O desgaste na administração foi acompanhado por uma trajetória esportiva que se afastou consideravelmente dos padrões históricos do Manchester United. Desde a saída de Sir Alex Ferguson, em 2013, o clube não conquistou novamente a Premier League e enfrentou dificuldades para se manter entre os principais candidatos a títulos nacionais e europeus.
Embora tenha vencido troféus nesse período, como a Liga Europa de 2017, a Copa da Inglaterra de 2024 e a Copa da Liga Inglesa de 2023, o United acumulou campanhas decepcionantes no Campeonato Inglês. Terminou em sexto lugar na temporada 2021/22, ficou em terceiro em 2022/23, caiu para a oitava posição em 2023/24 e terminou apenas em 15º lugar em 2024/25. Essa última campanha representou a pior colocação do clube na era da Premier League.
A temporada 2025/26 trouxe uma recuperação, com o terceiro lugar e o retorno à Champions League, mas não solucionou os problemas acumulados. O início de 2026/27 voltou a gerar preocupação, com resultados ruins tanto no Campeonato Inglês quanto na competição continental. A instabilidade reforça o argumento de Neville sobre a dificuldade de estabelecer um projeto esportivo consistente, mesmo após sucessivas mudanças no comando técnico e na estrutura de futebol.
Além disso, o ex-capitão questiona a responsabilidade dos proprietários nesse contexto. Para ele, não basta entregar a administração esportiva à Ineos sem que os Glazers renunciem ao controle do clube.
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