Após a eliminação nas oitavas de final da Copa do Mundo, Carlo Ancelotti convocou a seleção brasileira para os primeiros jogos da equipe. Nos dias 25 e 29 de setembro e 3 de outubro, o Brasil enfrentará Austrália (duas vezes) e Índia. A principal mudança é no meio-campo.
O meio-campo, um dos setores mais discutidos no início da gestão do treinador, foi classificado pelo próprio Ancelotti como o elo mais frágil do time. Ele acredita que tanto a defesa quanto o ataque possuem segurança e talento, mas não vê o mesmo em relação ao meio.
A convocação para esta Data Fifa trouxe Bruno Guimarães e Danilo, que estavam na Copa, e Andrey Santos, que era esperado para estar no Mundial. Contudo, Breno Bidon, Gabriel Bontempo e Matheus Martinelli se destacam como novidades. O que podemos esperar dessa reformulação?
Qual a mensagem que Ancelotti passa com seus novos meio-campistas na Seleção?
A ausência de Casemiro, que decidiu não continuar na Seleção, levanta questões sobre o tipo de meio-campista que o Brasil deseja. Durante anos, ele teve a função de proteger a defesa e acrescentar experiência a uma equipe que frequentemente lutava para controlar o jogo. No novo ciclo, Ancelotti precisa avaliar se consegue encontrar um jogador que desempenhe essa função ou se a Seleção precisará mudar sua estrutura de jogo.
Uma das possíveis respostas é Andrey Santos, que possui características que o aproximam de um volante posicional. Ancelotti o incluiu nesse grupo ao justificar sua convocação. No entanto, a posição não pode ser avaliada apenas pela similaridade nominal com Casemiro. Nos primeiros jogos desta temporada no Manchester United, ele teve poucos minutos, o que reforça uma das preocupações do treinador: observar jogadores com potencial para a Seleção mesmo quando não atuam com regularidade.
Martinelli, que foi chamado posteriormente para substituir João Pedro, oferece uma alternativa distinta. O volante do Fluminense já estava sob a mira da comissão técnica e é um jogador que se identifica mais com a função de primeiro homem, capaz de auxiliar na saída de bola, na marcação e na construção a partir de trás. A questão, portanto, não é apenas “quem será o novo Casemiro?”, mas se o Brasil pode encontrar uma nova forma de proteger sua defesa.
Ancelotti em coletiva da seleção brasileira. (Foto: Charles Sholl/IMAGO / Brazil Photo Press)
A saída de jogadores influentes do ciclo anterior também gera uma lacuna em termos de associação, movimentação e ocupação dos espaços próximos aos atacantes. É nesse sentido que os nomes de Breno Bidon e Gabriel Bontempo se tornam relevantes.
Ambos não devem ser vistos simplesmente como “o novo Paquetá”. Ancelotti rejeita essa comparação ao designá-los como meio-campistas box-to-box. Contudo, a comparação levanta uma questão: o Brasil precisa identificar jogadores que consigam atuar entre as linhas, se aproximar dos atacantes, aparecer no último terço e, ao mesmo tempo, participar da pressão e da recomposição.
O meia do Santos começou jogando mais avançado e depois passou a atuar como volante, tornando-se um atleta apto a ocupar diferentes áreas do campo. Em 2026, ele ganhou espaço no Santos pela capacidade de conectar setores e oferecer liberdade a jogadores mais ofensivos. Sua versatilidade explica o interesse do treinador, que ainda não decidiu se precisará de dois ou três jogadores no meio.
Bidon apresenta uma possibilidade similar, embora em outro contexto. A convocação sugere que Ancelotti não busca apenas um substituto imediato, mas quer descobrir quais jogadores podem se desenvolver no ciclo. Ele destacou que a Seleção deve acompanhar a evolução dos atletas que considera importantes para o futuro e, quando necessário, proporcionar oportunidades para seu crescimento no cenário internacional.
A Seleção, portanto, busca um meio-campista que possa solucionar a questão que Paquetá ajudava a resolver: conectar um meio-campo mais recuado aos atacantes sem exigir que os pontas abandonem suas posições. Nesse contexto, Bidon e Bontempo podem ser experimentos para uma dúvida maior: o Brasil conseguirá criar superioridade no meio sem precisar de um camisa 10 clássico?
Dois ou três no meio? A resposta pode mudar completamente a Seleção
A declaração mais significativa de Ancelotti foi sobre a possibilidade de utilizar dois ou três meio-campistas. O treinador lembrou que, durante a Copa, o Brasil passou a atuar com três jogadores no setor e que as lesões impactaram na estrutura. Agora, conforme ele, as características dos convocados possibilitam trabalhar com ambas as formações.
Breno Bidon em jogo do Corinthians. Foto: IMAGO / Sports Press Photo
Num 4-3-3, por exemplo, Ancelotti poderia usar um volante mais posicional, como Andrey Santos ou Martinelli, atrás de dois jogadores com mais mobilidade. Bruno Guimarães poderia atuar como um dos interiores, com liberdade para recuar na saída, enquanto Danilo, Bontempo ou Bidon ficariam mais avançados. Essa estratégia permitiria um maior controle do meio-campo sem abandonar a capacidade de atacar com múltiplos jogadores.
No 4-2-3-1, a abordagem seria diferente. Dois jogadores sustentariam a equipe defensivamente, enquanto um meio-campista poderia aparecer entre as linhas. Bruno, que é mais criativo, poderia ser um dos componentes do duplo pivô, enquanto outro jogador assumiria uma função mais defensiva. Na frente, um jogador ágil poderia atuar como elo entre o meio e um trio ofensivo.
Há ainda uma terceira alternativa: o 4-2-4 que Ancelotti utilizou com sucesso em alguns momentos. Se ele considerar que possui atacantes capazes de superar a defesa adversária, pode optar por uma configuração onde dois meio-campistas sustentam a equipe enquanto quatro jogadores ficam nas linhas mais avançadas.
O desafio, no entanto, é que essa formação exige uma dupla de meio-campistas extremamente completa. Eles devem construir, pressionar, cobrir os lados, proteger os zagueiros e ainda avançar sem deixar grandes espaços na retaguarda. Bruno Guimarães já demonstrou aptidão para realizar várias dessas funções. Resta descobrir quem pode complementá-lo.
E se o Brasil não dominar a bola?
Uma outra declaração de Ancelotti altera ainda mais a visão. O treinador destacou que o modelo de jogo depende das características dos jogadores disponíveis, citando a Espanha como exemplo: uma seleção que consegue propor um futebol com controle posicional devido a uma geração excepcional de meio-campistas. Na visão de Ancelotti, o Brasil não possui, atualmente, a mesma abundância nesse setor.
Isso implica que a Seleção não será necessariamente construída para manter 65% de posse de bola contra qualquer rival. E essa não seria uma limitação, mas sim uma escolha. O Brasil tem jogadores de ataque que podem converter transições em situações de gol.
Vinícius Junior e Raphinha oferecem profundidade e conduzem contra-ataques, Estêvão e Rayan aportam aceleração e habilidade no drible, Endrick é uma alternativa na área e Pedro pode atuar como um centroavante tradicional. Caso Ancelotti decida que não dispõe de um meio-campo capaz de controlar todas as partidas, ele pode compor uma equipe que aceite períodos sem a bola e busque rapidamente a posse para atacar.
Isso também ajuda a entender a relevância dos meio-campistas box-to-box escolhidos. Se o Brasil não dominar territorialmente todos os jogos, seus jogadores de meio devem ser aptos a percorrer longas distâncias. Eles precisam pressionar após a perda da posse e se apresentar na frente quando a bola for recuperada. Nesse cenário, um meio-campista que saiba apenas distribuir passes curtos pode ser menos valioso do que um jogador que consiga ocupar diversas áreas durante os 90 minutos.
A convocação mostra onde Ancelotti pretende procurar a solução do meio
A indagação mais intrigante dessa convocação é: que tipo de meio-campo Ancelotti busca construir para o Brasil de 2030? A resposta ainda não está clara, mas há algumas indicações.
O treinador procura jovens jogadores, que possam acompanhá-lo ao longo do ciclo. Meio-campistas que possam atuar em formações com dois ou três jogadores. Ele valoriza jogadores posicionais como Andrey e Martinelli, mas também convocou um número considerável de box-to-box. Ao reconhecer que o setor é o mais carente da Seleção, deixou evidente que ainda está à procura de atletas que possam elevar o nível da equipe.
Danilo Santos como reserva do Brasil contra Japão (Foto: Imago/STEINSIEK.CH)
Esse fator também justifica a abertura para todos. Ancelotti declarou que dará prioridade aos jovens neste momento, mas observou que jogadores mais experientes podem retornar quando competições importantes se aproximarem. A inclusão de Douglas Luiz na convocação ilustra que a renovação não implica em ignorar o passado.
O Brasil, portanto, inicia o novo ciclo enfrentando um paradoxo. Possui atacantes suficientes para que Ancelotti imagine diferentes maneiras de ocupar a última parte do campo. Tem defensores que o treinador considera capazes de sustentar o futuro. Contudo, ainda não sabe exatamente quais jogadores devem conectar essas duas partes da equipe.
Antes de definir o sistema, Ancelotti precisa descobrir quais meio-campistas têm a capacidade de fazer o esquema funcionar. A Data Fifa de setembro representa, assim, menos o começo de uma Seleção pronta e mais o primeiro grande teste de laboratório deste novo ciclo.
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