A informação de que o Manchester City foi considerado culpado por 114 das 115 acusações levantadas pela Premier League em relação a supostas violações de Fair Play Financeiro suscitou debates globalmente.
Embora o clube tenha negado de forma veemente essas acusações e as punições futuras ainda não tenham sido definidas, o veredito já provocou reações de diversos ícones do futebol. Entre as possíveis sanções, o City poderá perder títulos e até ser excluído da liga.
Rodri, jogador do Barcelona, foi o primeiro ex-atleta do City a se pronunciar, seguido por Joe Hart, que atuou como goleiro da equipe durante parte do período investigado. Roberto Mancini, também, se posicionou publicamente sobre o caso.
Além deles, ex-jogadores do Manchester United — Wayne Rooney, Rio Ferdinand, David De Gea — e o ex-treinador do Tottenham e Chelsea, Mauricio Pochettino, assim como Acun Ilicali, proprietário do Hull City, também comentaram sobre o escândalo. Tanto a Premier League quanto o Manchester City se manifestaram oficialmente sobre a situação.
O dono do Hull City compara a situação do Manchester City a doping
Acun Ilicali fez parte das últimas manifestações sobre o veredito do Manchester City. Ele evitou apontar transgressões devido às divergências nas declarações — enquanto o clube se diz inocente, a Premier League alega culpa —, mas apresentou uma análise hipotética sobre o caso durante o podcast “The 1904 Club”.
— Se eles não são inocentes e fizeram algo errado, não vejo diferença de ter doping e (conquistar) uma medalha olímpica. No final, isso é doping financeiro. Falar em contratar quatro ou cinco jogadores de alto nível quebrando as regras não parece muito positivo — comentou o proprietário do Hull City.
O presidente do Manchester City, Khaldoon Al Mubarak, e o atacante Erling Haaland (Foto: IMAGO/Newscom World)
Em 2023, a Premier League informou que o City foi acusado de supostas violações de normas financeiras entre 2009 e 2018, e o julgamento teve início no ano seguinte. Uma das alegações indicava que o clube teria omitido contratos com Roberto Mancini entre 2009 e 2013.
Considerado uma figura chave do caso, o técnico, que agora comanda a seleção italiana, foi mencionado devido a um suposto acordo paralelo como “consultor especial” do Al Jazira, um time dos Emirados Árabes Unidos pertencente a Sheikh Mansour, o dono do City.
— Eu não penso que o Manchester City tenha sido considerado culpado, pelo contrário. Não é um assunto que me diz respeito, mas também não é novidade. O Manchester City não é culpado e o contrato duplo não é meu problema, mas sim deles — declarou o italiano em coletiva de imprensa pela seleção.
Durante seu tempo à frente dos Citizens, Mancini conquistou uma Premier League (2011/12), uma FA Cup (2010/11) e uma Supercopa da Inglaterra (2012/13). Ele esteve na equipe de 2009 a 2013, quando foi sucedido por Manuel Pellegrini.
Mancini exibe título da Premier League conquistado com o Manchester City em 2011/12 (Foto: Imago/Newscom World)
O italiano chegou a treinar Joe Hart nesse intervalo. O goleiro permaneceu no City entre idas e vindas de empréstimos de 2006 a 2018 e expressou total confiança no presidente do clube, Khaldoon Al Mubarak, em relação às 115 acusações.
Al Mubarak afirmou estar determinado a provar a inocência da instituição e destacou que o processo ainda é longo. “Não tenho razões para não confiar em Khaldoon. O que ele declarou é suficiente para mim”, reiterou Hart na “BBC Radio 5 Live's Monday Night Club”.
— Se o Manchester City for considerado culpado (ao final de todo o processo), o que eu não acredito que ocorrerá, considerando o que Khaldoon afirmou, então haverá conversas sobre isso. Mas, neste momento, estou muito confiante, muito calmo. Orgulho-me do que conquistei com o Manchester City e do que alcançamos como equipe. E isso não muda — completou.
Rodri, que defendeu o City entre 2019 e 2026, não seria impactado diretamente pela controvérsia, mas já enfrentou uma situação semelhante no time. Em fevereiro de 2020, a UEFA baniu o Manchester City de competições europeias por supostas irregularidades no Fair Play Financeiro e por não colaborar nas investigações. O clube conseguiu anular a decisão através de recurso na Corte Arbitral do Esporte (CAS) pouco depois.
— O processo judicial foi similar, embora com acusadores diversos. Essa é a única coisa que se alterou. O clube sempre transmitiu tranquilidade, afirmando que não havia feito nada (de errado) e que seria declarado inocente. Confiávamos na instituição e, mesmo após terem sido considerados culpados inicialmente, acabaram sendo inocentados — disse ele em coletiva pela seleção espanhola.
— Assim, esperamos que haja justiça, independentemente do que ocorrer, mas confio na impunidade do clube. Os dirigentes nos disseram (aos jogadores) para ficarmos tranquilos, pois agiram corretamente.
Rooney e ex-jogadores do Manchester United comentam sobre as possíveis consequências do veredito do City
Os rivais do City também se manifestaram, principalmente sobre as mudanças que a decisão pode provocar no futebol inglês. Caso a decisão de culpabilidade persista após eventuais recursos, o clube pode ser condenado a multas.
Além disso, o City poderia sofrer dedução massiva de pontos retroativos (referente ao período das supostas infrações) ou futuros (na temporada atual). No segundo cenário, haveria risco de rebaixamento; já no primeiro, o time poderia perder troféus conquistados.
Rio Ferdinand fez uma brincadeira sobre essa possibilidade. “Feliz pela sétima medalha da Premier League enviada pelo correio”, postou ele no Instagram em uma publicação de inteligência artificial, referindo-se ao título da temporada 2011/12 do Campeonato Inglês, que ficou com o City enquanto o Manchester United foi vice.
O goleiro De Gea também refletiu sobre as taças. Ele, que foi Red Devil entre 2011 e 2023, questionou no X, antigo Twitter: “Então, quantos títulos da Premier League eu conquistei?”
Rooney, outro jogador que poderia ser contemplado com o troféu virtual, declarou que não ficaria satisfeito em receber uma taça dessa forma. “Acho que não merecemos. Não fizemos o suficiente naquela temporada para ganhar a liga”, comentou o ex-jogador no podcast “Stick to United”.
— Vejo ex-companheiros de equipe dizendo que ‘ganhamos outra medalha’. Estou contente com as cinco que já conquistei. Gostaria de receber uma medalha por terminar em segundo lugar? Não — enfatizou antes de opinar sobre a punição ao clube.
— Eu colocaria o City na menor liga possível e aplicaria restrições em relação ao quanto poderiam gastar nas próximas três ou quatro temporadas. Se apenas os rebaixassem para a Championship, que seria uma grande punição, eles retornariam. Mas, se houvesse restrições, League Two (terceira divisão), o que quer que seja, poderia ser difícil para eles — analisou.
Rooney em ação no Manchester United (Foto: Phillip Oldham/Newscom World/IMAGO)
Mauricio Pochettino, que passou por três clubes da Premier League durante o período das supostas violações do City (Southampton, Tottenham e Chelsea), destacou ter vivido um “período de decepção” ao comentar o tema na coletiva da seleção dos Estados Unidos.
— Qualquer que seja a punição, é impossível voltar no tempo. O dano já foi causado. Muitos clubes seguiram as regras, e alguns não. (…) É uma tristeza imensa.
Premier League e Manchester City divulgam posicionamento oficial
Na última terça-feira (29), a Premier League e o Manchester City se pronunciaram oficialmente sobre o caso, quatro dias após o “The Athletic” ter noticiado o veredito. A liga confirmou as informações do jornal inglês.
A comissão independente declarou que foram encontradas inadequações nas normas de Fair Play Financeiro entre as temporadas de 2009/10 e 2017/18, e que o clube “violou significativamente os limites de gastos da Premier League e da Uefa“.
Além disso, segundo a nota, o clube “firmou contratos fictícios com diversos parceiros comerciais” e utilizou “acordos fictícios com outros para inflar artificialmente suas receitas e reduzir custos”, apresentando também “demonstrações financeiras distorcidas e ocultando a verdadeira situação de suas finanças”.
Guardiola beija taça da Premier League do Manchester City (Foto: IMAGO/Visionhaus)
O comunicado ressaltou que o intuito foi aumentar as receitas do clube enquanto se reduzia mais de 900 milhões de libras (R$ 6,2 bilhões) em custos durante o período investigado “para aparentar conformidade com as normas financeiras”.
— É fundamental para a Premier League garantir que as regras, aprovadas pelos clubes, sejam cumpridas para proteger a integridade da competição. Manter a liga competitiva e justa para todos os clubes e torcedores é primordial. Levamos essa responsabilidade extremamente a sério — afirmou Richard Masters, diretor-executivo da entidade.
— Este processo disciplinar, e a decisão tomada, são as mais significativas da história da Premier League. Há aspectos do caso que ainda precisam ser decididos, incluindo, principalmente, que sanção deve ser aplicada a essas infrações. Agora que temos a decisão da comissão, estamos comprometidos a avançar rapidamente com o restante do processo, para oferecer segurança à liga, nossos clubes e torcedores — complementou.
A Premier League informou que o clube tem até sexta-feira, 2 de outubro, para recorrer da decisão da comissão independente, e o City declarou que pretende exercer esse direito. Em nota, a instituição expressou estar “desapontada e surpresa” com o que foi determinado após o julgamento, e que irá recorrer por considerar que o veredicto contém “erros materiais evidentes”.
— O clube é inocente de todas as acusações feitas pela Premier League e possui um conjunto abrangente de evidências irrefutáveis que respaldam essa posição. O clube será implacável e, quando necessário, proativo em todos os fóruns regulatórios e legais. O processo da Premier League continua em andamento, com elementos significativos ainda a serem concluídos — finalizou o City.
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