Agora, Carlo Ancelotti tem à sua disposição um recurso que não teve no primeiro ano à frente da seleção brasileira: tempo. Quando assumiu, sua missão era preparar a equipe para uma Copa do Mundo que começaria em pouco mais de um ano. Isso exigiu decisões rápidas, a gestão de lesões, testes de alternativas em prazos curtos e a escolha dos 26 jogadores que iriam ao Mundial.
A eliminação para a Noruega pôs fim a esse ciclo antes do esperado. O que se inicia agora é distinto: Ancelotti, pela primeira vez, terá quatro anos para formar uma equipe.
Contar com um ciclo completo até 2030, no entanto, não implica apenas em trabalhar com mais calma. Isso também significa assumir um desafio muito maior. A Seleção que saiu da Copa de 2026 não possuía uma base suficientemente consolidada para ser apenas ajustada com algumas mudanças. Existem lacunas no gol, nas laterais, no meio-campo e até no ataque, onde a quantidade de opções não elimina a necessidade de descobrir quais delas realmente sustentam o nível internacional.
É nesse contexto que o conceito de “construtor” se torna relevante. Ancelotti não apenas precisará gerenciar um elenco familiar e selecionar os melhores nomes disponíveis. Ele terá o desafio de identificar quem comporá a Canarinho de 2030. Isso envolve acompanhar, testar, descartar, recuperar, insistir e, acima de tudo, criar referências onde atualmente existem incertezas.
O novo ciclo da Seleção: poucas certezas e muitas posições para preencher
Jogadores brasileiros aplaudem torcida após empate por 1 a 1 com a Austrália (Foto: Jono Searle / AAP / IMAGO)
Atualmente, a Seleção conta com alguns jogadores que parecem naturalmente vinculados a esse novo ciclo. Nomes como Vinícius Junior, Raphinha, Gabriel Magalhães e Bruno Guimarães permanecem como referências após a Copa. Devem se juntar a eles atletas que ficaram de fora do Mundial devido a lesões e que podem recuperar um espaço relevante, como Rodrygo e Éder Militão, dois jogadores que Ancelotti conhece bem de sua passagem pelo Real Madrid.
A experiência adquirida no clube espanhol dá a esses jogadores uma vantagem que outros candidatos ainda precisarão conquistar: o treinador já compreende o que podem proporcionar e como reagem às suas ideias.
Contudo, isso ainda não significa que há uma espinha dorsal estabelecida. A primeira convocação após a Copa evidenciou essa realidade: 17 dos 26 atletas que participaram do Mundial não foram convocados, enquanto nove continuam na lista. Entre os que permaneceram, estão justamente alguns dos nomes que podem formar a base do novo grupo, como Vinícius, Raphinha, Gabriel Magalhães e Bruno Guimarães.
O desafio é que em quase todas as posições, Ancelotti precisará encontrar respostas. No gol, Alisson e Ederson não foram chamados para os primeiros amistosos do novo ciclo, abrindo espaço para uma avaliação mais ampla. A posição de lateral-direita também requer atenção, enquanto a lateral-esquerda ainda carece de um titular indiscutível.
Na defesa, Gabriel Magalhães se apresenta como uma referência, mas a recuperação de Militão e a definição de seus companheiros ainda fazem parte do processo. No meio-campo, a situação é ainda mais clara. Bruno Guimarães surge como uma figura de continuidade, mas Ancelotti reconheceu que é necessário encontrar jogadores que possam elevar a qualidade do setor.
Não se trata apenas de uma questão quantitativa. O treinador busca características que possam modificar a forma como a equipe atua. Se um meio-campista surgir com a capacidade de controlar melhor o jogo, por exemplo, o modelo da Seleção poderá ser diferente do apresentado em 2026.
No ataque, a situação parece mais favorável, mas ainda não está resolvida. Vinícius e Raphinha trazem experiência e protagonismo; Rodrygo pode retornar; Endrick e Estêvão representam uma geração mais nova; e outros jogadores ainda precisarão mostrar que conseguem converter desempenho em clubes em rendimento pela Seleção. Ou seja, mesmo onde há uma maior oferta de talento, Ancelotti terá que descobrir a combinação que funciona.
A nova tarefa é descobrir, não apenas escolher
Ancelotti ao lado de sua comissão técnica no banco de reservas durante amistoso entre Austrália x Brasil (Foto: Jono Searle / IMAGO)
É exatamente essa distinção que diferencia o Ancelotti gestor do Ancelotti construtor. Durante a preparação para 2026, o treinador precisava escolher entre jogadores que já conhecia ou aqueles que tinham pouco tempo para demonstrar algo.
Agora, ele pode monitorar o desenvolvimento de uma geração inteira. Um atleta pode ganhar uma chance em setembro, ser cortado da convocação em novembro e retornar seis meses depois em um novo estágio de desenvolvimento. Assim, a avaliação não precisa ser definitiva a cada Data Fifa.
O próprio Ancelotti já mencionou a importância de “avaliar bem” os jogadores e observar sua evolução nos clubes. Essa declaração revela uma mudança significativa na função do treinador: ele não pode focar apenas em quem está pronto no presente. É necessário identificar quem poderá estar preparado em 2028 ou 2030. Isso inclui acompanhar categorias de base, observar jogadores que estão surgindo no futebol brasileiro e monitorar aqueles que ganham espaço no exterior.
A convocação de setembro é apenas a primeira representação desse processo. Nomes como Jair, Breno Bidon, Arthur Dias e outros jovens foram convocados, enquanto jogadores que participaram da Copa ficaram de fora. Isso não significa que os primeiros estejam garantidos em 2030 ou que os “segundos” tenham sido completamente descartados. A lógica é justamente o oposto: Ancelotti precisa ampliar o número de candidatos antes de reduzir o grupo.
Essa será uma das mudanças mais significativas na perspectiva do italiano.
Em um clube, Ancelotti trabalha com um elenco relativamente definido e tem interação diária com os jogadores. Na Seleção, ele terá apenas alguns dias a cada convocação. Portanto, sua capacidade de construção também dependerá da relação com os clubes e da estrutura da própria CBF. Ele já destacou que a formação do talento ocorre, em grande parte, nos clubes e que a Seleção precisa acompanhar essa evolução de perto.
A consequência é que os próximos quatro anos não devem ser vistos apenas como uma sequência de amistosos. Cada convocação precisa responder a uma questão: o que este jogador contribui para o projeto de 2030? Às vezes, a resposta será positiva. Em outras, o teste revelará que determinada alternativa não é viável. O erro faz parte do processo, desde que exista critério para convertê-lo em informação.
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