No dia a dia do consultório de psicoterapia, uma dor profunda se repete no desabafo de muitos homens: o medo de não saberem ser pais. Aqueles que carregam a memória de um pai ausente, rígido ou distante costumam trazer uma pergunta angustiante no peito: “Como vou conseguir guiar o meu filho se eu mesmo não tive um guia no meu crescimento?”
Para entender esse sentimento, a psicanálise nos traz um olhar reconfortante por meio de Donald Winnicott. Segundo ele, para criar um filho de forma saudável, nenhum homem precisa ser perfeito. O que a criança precisa é de um pai “suficientemente bom”, alguém que está presente, que erra de vez em quando, mas que oferece um ambiente seguro para o filho crescer.
A angústia do pai contemporâneo nasce justamente de um desejo bonito: ele não quer ser apenas o provedor que sustenta financeiramente a casa. Ele quer participar, criar vínculo, estar emocionalmente disponível e construir uma relação de afeto.
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Na prática clínica, é comum perceber que muitos homens acreditam que a falta de uma referência paterna os torna menos preparados para a paternidade. Mas a realidade costuma ser diferente. Muitas vezes, a ausência que eles viveram se transforma em motivação para fazer diferente.
Quando cuidar do filho também cura a própria história
Ser pai pode se tornar um poderoso ato de reparação emocional. Quando um homem decide oferecer ao filho a atenção, o acolhimento e o diálogo que ele próprio não recebeu, algo importante acontece: ao cuidar da infância do filho, ele também começa a elaborar as marcas da própria infância.
É uma escolha consciente de interromper ciclos familiares de silêncio, distância emocional ou abandono que, muitas vezes, atravessaram gerações.
Se o passado foi marcado por ausências, esse homem pode escolher construir uma presença diferente. E, curiosamente, o medo de errar não é sinal de incapacidade. Na maioria das vezes, é justamente a prova de que ele se importa.
Ser pai não significa ter todas as respostas. Significa estar disponível para caminhar ao lado do filho, oferecendo segurança, escuta e afeto. Afinal, quando o mundo parecer grande e assustador, é essa presença que ajudará a criança a se sentir protegida
*Texto escrito por Jaber Ali Younes (CRP 06/87989) Psicoterapeuta e Mestre em Psicologia Clínica pelo IPUSP – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
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