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A escolha da CBF de diminuir, de forma gradual, o número máximo de jogadores estrangeiros no Campeonato Brasileiro, passando de nove para cinco até 2030, reabriu o diálogo sobre os caminhos a serem seguidos para aprimorar a formação de atletas no Brasil. O jornalista Tim Vickery, colunista da Trivela, argumenta que a ação enfrenta um sintoma e não a raiz do problema: as deficiências estruturais nas categorias de base dos clubes, que priorizam resultados imediatos em detrimento do desenvolvimento a longo prazo dos jovens talentos.
A questão foi debatida na décima segunda edição do programa “Futebol em Contexto”, da Trivela, onde foram analisadas as mudanças implementadas pela gestão de Samir Xaud, incluindo a nova regra sobre jogadores estrangeiros e a proposta de uma grade fixa de horários para o Brasileirão.
A limitação de estrangeiros não garantirá a melhoria da seleção brasileira
Gabriel Bontempo pela seleção brasileira (Foto: Alamy / Icon Sport)
No início da discussão, Vickery foi enfático ao questionar a ideia de que limitar a presença de jogadores estrangeiros beneficiaria a seleção brasileira. De acordo com o jornalista inglês, atualmente existem desvios entre as ligas nacionais e suas seleções em praticamente todos os países, e o Brasil não se encontra em uma situação diferente.
“A primeira coisa que gostaria de afirmar é que muitas das questões que abordaremos hoje, alterações no Campeonato Brasileiro e suas repercussões na Seleção, terão consequências muito limitadas. Atualmente, vivemos uma situação de desconexão entre o campeonato e a seleção em quase todos os países. Embora a Premier League seja considerada uma referência, os dois melhores jogadores da seleção inglesa jogam fora (Jude Bellingham e Harry Kane),” declarou Vickery.
O colunista também reconheceu que há um argumento mais convincente a favor da diminuição do número de estrangeiros: a idade avançada dos elencos do Brasileirão. Para ele, independentemente da nacionalidade, a média de idade dos jogadores no campeonato tem aumentado, o que impacta a intensidade do jogo. Ele mencionou a Colômbia como um exemplo de mercado vendedor onde os times são predominantemente formados por jovens.
“Eu considero que o argumento mais consistente para essa mudança é a idade. Contudo, cinco é um número excessivo para mim. Eu talvez reduzisse para sete. A noção de que isso resultará em mais jogadores para a seleção é algo que não me convence nem um pouco, pois há diversos outros fatores que influenciam a formação dos próprios atletas. Não se trata apenas de colocá-los em campo e observar o que acontece. O Brasil enfrenta problemas mais profundos em suas categorias de base do que isso,” afirmou.
A verdadeira questão reside nas categorias de base
Breno Bidon, de 21 anos, em ação pelo Corinthians (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)
Para Vickery, o cerne do problema está no modelo de incentivos que permeia o futebol de base no Brasil. Segundo ele, os treinadores das categorias inferiores são avaliados com base em títulos, e não no desenvolvimento dos atletas, o que resulta em escolhas táticas voltadas para o curto prazo.
Como exemplo, o jornalista mencionou as últimas edições do Sul-Americano Sub-20, onde o Brasil conquistou o título sob a orientação do técnico Ramon Menezes. De acordo com Vickery, a equipe foi construída com o objetivo de vencer fisicamente um torneio que exigia nove jogos em três semanas.
“A equipe que o Brasil formou foi composta por jogadores fisicamente robustos. Sem a intenção de ter a posse de bola. Era um time projetado para ser fisicamente forte o suficiente para suportar os nove jogos e conquistar o troféu. Porém, a base nunca deveria ser sobre ganhar troféus. Jamais,” enfatizou.
Vickery recordou uma palestra do diretor do Barcelona sobre a La Masia, a base do clube, destinada a treinadores brasileiros. “Ele enfatizou que, desde o início do processo até o Barcelona B, o resultado é secundário. Nosso objetivo é formar jogadores.” Lembra-se de que Mano Menezes, na época técnico da Seleção, esteve presente e comentou: “Isso é Brasil, não podemos pensar assim, isso não é permitido, pois não temos um projeto coletivo. Nossos projetos são individuais,” relembrou.
Inglaterra e Escócia: a mesma globalização, resultados distintos
Guehi durante Inglaterra x Argentina – semifinal do Mundial 2026. (Foto: Mutsu Kawamori/IMAGO / AFLOSPORT)
Vickery também trouxe uma comparação entre Inglaterra e Escócia para ilustrar que o impacto da presença de estrangeiros depende da posição que o país ocupa na hierarquia do futebol mundial. Ele destacou que a internacionalização da Premier League elevou o nível dos jogadores ingleses, que tiveram a oportunidade de aprender com os melhores do mundo. Em contrapartida, na Escócia, o efeito foi devastador.
“Historicamente, a Escócia era um grande celeiro de jogadores. Contudo, os clubes escoceses não conseguem competir. O que fazem? É muito mais econômico contratar um jogador da Noruega do que investir na formação. E, evidentemente, os atletas que vão jogar na Escócia não são os melhores,” avaliou.
Para Vickery, o Brasil ocupa uma posição intermediária nessa dinâmica: ao contratar jogadores de alto nível, como Jhon Arias, do Fluminense, todos se beneficiam ao compartilhar o campo com eles. O problema surge quando os clubes trazem jogadores medíocres apenas por serem mais baratos do que investir na formação.
“De maneira geral, acredito que se aprende muito ao trazer os melhores. Contudo, você enfrenta dificuldades se está contratando mediocridade apenas porque é mais em conta do que formar jogadores,” concluiu Vickery.
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