Carlos Augusto, conhecido como Carlinhos, tinha apenas 20 anos quando, em um contato com jornalistas da Tribuna da Bahia, foi solicitado a reconhecer uma imagem. Ele então recebeu, via telex, a foto do corpo de seu pai, também chamado Carlos, repleto de balas. Foi dessa forma que tomou conhecimento do assassinato que ocorreu em 4 de novembro de 1969. Pouco tempo depois, passou a ser perseguido de várias maneiras devido ao seu sobrenome.
Apenas 27 anos depois, em 11 de setembro de 1996, há exatos 30 anos, ele obteve o atestado de óbito que reconhecia, pela primeira vez, a responsabilidade do Estado pela morte de seu pai, o ex-deputado federal e guerrilheiro Carlos Marighella, “nos termos da Lei 9.140 (sancionada em 1995)”.
Essa lei estabeleceu a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Segundo Carlinhos, esse foi o primeiro passo para a reparação da imagem de seu pai.
O pai guerrilheiro foi emboscado em São Paulo (SP) por agentes da ditadura.
Além da dor pessoal, Carlinhos, hoje com 78 anos e advogado, reconhece que aquele momento foi crucial, pois muitas vítimas do regime militar não conseguiam acessar bens devido ao desaparecimento de seus entes queridos.
No caso de Marighella, ele foi sepultado inicialmente como indigente. Somente em 1979, após a promulgação da Lei de Anistia, os restos mortais puderam ser trasladados para Salvador (BA), sua cidade natal.
“Muitos dos companheiros que lutaram ao lado de meu pai não puderam ter a dignidade de um sepultamento.”
Comissão
No ano passado, a família recebeu um novo documento, retificado, que apresentava mais informações além da simples citação da lei, como menciona a atual presidente da comissão, Eugênia Gonzaga.
O jurista Miguel Reale Júnior, que foi o primeiro presidente da comissão, recorda que, em 1996, a admissão de culpa pelo Estado foi um dos momentos mais significativos para o grupo ao ressaltar a importância daquele momento histórico.
Ele observa que, no caso de Marighella, foi possível desmistificar as narrativas forjadas pela polícia, que apresentavam o evento como um confronto, quando, na realidade, foi um fuzilamento.
“Havendo assassinato de pessoa sob controle [policial], configura responsabilidade do Estado.”
Resistência
Nilmário Miranda, que era o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara na época, relembrou a resistência que houve quanto à reparação a Marighella. “O objetivo não era punir pessoas, mas reconhecer que o Estado foi responsável.”
Na mesma decisão que reconheceu Marighella, também foi emitida a certidão de óbito para Carlos Lamarca, um capitão desertor do Exército que atuou na guerrilha.
Nilmário Miranda recorda que Carlinhos e Clara Charf (esposa de Marighella) se empenharam em buscar justiça para a memória de Marighella. “Lutavam dia e noite, dia após dia, para que houvesse reconhecimento.”
As atividades da comissão foram documentadas no livro Dos Filhos deste Solo, escrito por Miranda.
Reconhecimento
Eugênia Gonzaga destaca que os documentos foram retificados porque, inicialmente, algumas informações haviam sido omitidas. No caso de Marighella, por exemplo, ele foi casado na clandestinidade com a ativista Clara Charf, que faleceu em 2025.
Esse casamento nunca pôde ser oficialmente reconhecido, e o atestado não trazia essa informação.
“Quando fizemos a retificação, conseguimos reconhecer que a viúva, a companheira dele, era a Clara.”
Ao receber o documento, a família de Marighella também obteve outros 62 documentos.
“A alternativa que a Comissão Nacional da Verdade encontrou foi padronizar essas declarações como morte não natural, violenta, decorrente da perseguição política do Estado brasileiro”, ressalta Eugênia Gonzaga.
Reparação
Para Carlinhos, a reparação não se limita a ações que resolvam questões legais, mas deve, de fato, servir como uma lição à sociedade para que nunca se aceite golpes e valorize a democracia.
“A gente ainda tem um longo caminho a percorrer. E o modo correto disso é conscientizar, principalmente, a nossa juventude.”
O filho espera que a batalha de Marighella pelo país seja mais reconhecida pela população brasileira. Ele e sua família se emocionaram especialmente no mês passado, quando a Universidade Federal da Bahia (UFBA) conferiu um diploma simbólico de engenheiro a seu pai.
Inspiração
Marighella não conseguiu concluir o curso na Escola Politécnica devido às repressões contra a ditadura. Ele estudou na universidade por quatro anos.
“Ele foi considerado um dos 10 alunos mais brilhantes. No último ano, foi preso e não pôde fazer as provas finais. A preservação da memória é fundamental.”
Marighella não deixou bens, e seu filho lamenta as invasões à casa da família, de onde tudo foi levado.
“Nunca conseguimos recuperar a vasta produção intelectual de meu pai, como músicas, poesias e discursos. Tudo isso foi recolhido e nunca devolvido.”
Apesar disso, Carlinhos sonha com a criação de um memorial que faça justiça à memória do guerrilheiro. Após tanto tempo, ele ainda recorda com carinho os momentos que passou com o pai, que precisava se esconder de tempos em tempos.
Ele relembra que, em maio de 1964, no mês seguinte ao golpe, Marighella ia à escola toda semana. “Ele estava de jeans, uma camisa colorida e de peruca. A gente ia a uma padaria próxima para comer sanduíches de mortadela.”
O filho destaca que, apesar da tensão do período da ditadura, Marighella não era uma pessoa desanimada. “Nunca vi nele um olhar de desânimo.”
Isso o motivou, mesmo diante das dificuldades. “Confesso que, com tudo isso, com meu pai preso e depois assassinado, expulso da escola aos 15 anos, impedido de estudar em instituições de Salvador, demitido do meu emprego [na Petrobras], alvo das maledicências, me considero uma pessoa feliz. Aprendi isso com ele. Ser feliz e lutar.”
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