O caso do Manchester City pode ter efeitos que vão além da atual temporada: uma comissão independente teria considerado 114 das 115 acusações feitas pela Premier League contra o clube como válidas.
Ainda não há uma definição sobre a punição, e espera-se que o City recorra da decisão. Possíveis sanções incluem multa, perda de pontos e até a exclusão da Premier League. No entanto, o cenário mais extremo poderia levantar uma questão muito mais complicada: o que fazer com os títulos conquistados durante o período investigado?
Atualmente, não existe qualquer decisão que retire troféus. Também não há uma regra que defina que a eventual cassação dos títulos transformaria automaticamente os vice-campeões em campeões.
Se essa discussão ocorrer, alguns momentos marcantes do futebol inglês recente poderiam assumir um novo significado.
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Histórias de Agüero, Gerrard e Mourinho podem ser alteradas
Três títulos da Premier League conquistados pelo Manchester City estão no período referente às acusações: 2011/12, 2013/14 e 2017/18. Dentre eles, o primeiro é o mais emblemático.
Na temporada 2011/12, City e Manchester United terminaram com 89 pontos, e o título foi decidido pelo saldo de gols. Naquela tarde, Sergio Agüero marcou nos acréscimos contra o Queens Park Rangers, um gol que se tornou uma das imagens mais marcantes da história da Premier League.
Se os títulos fossem retirados e atribuídos ao vice, o Manchester United de Sir Alex Ferguson seria coroado campeão. O escocês terminaria sua carreira com três Premier Leagues consecutivas, entre 2010/11 e 2012/13.
Em 2013/14, a mudança impactaria diretamente Steven Gerrard. O Manchester City finalizou a temporada com 86 pontos, dois a mais do que o Liverpool. Essa foi a temporada em que o capitão dos Reds chegou mais perto de conquistar a Premier League como jogador do clube. Uma redistribuição dos títulos transformaria o Liverpool em campeão inglês, preenchendo uma das maiores lacunas da carreira de Gerrard.
O terceiro caso envolve José Mourinho. O City de 2017/18 fez história ao alcançar 100 pontos, sendo conhecido como o time dos “Centurions”. O Manchester United terminou em segundo lugar, com 81 pontos. Se a temporada fosse anulada para o City e o troféu fosse entregue ao vice, Mourinho teria uma Premier League em seu currículo por sua passagem em Old Trafford.
Contudo, existe uma diferença crucial entre retirar um título e concedê-lo a outro clube. O escândalo Calciopoli ilustra isso claramente. A Juventus perdeu os campeonatos italianos de 2004/05 e 2005/06: o primeiro ficou sem campeão, enquanto o segundo foi dado à Inter de Milão. Portanto, mesmo em um cenário extremo, United ou Liverpool não seriam automaticamente reconhecidos como campeões.
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FA Cup e Copas da Liga complicam ainda mais a situação
A discussão não se limita à Premier League. Entre 2009 e 2018, o Manchester City também levantou a FA Cup de 2011 e três Copas da Liga, derrotando Sunderland, Liverpool e Arsenal, além de Community Shields.
Tony Pulis, que era o técnico do Stoke, derrotado pelo City na final da FA Cup de 2011, já expressou sua opinião sobre o assunto. O treinador afirmou não acreditar que os troféus seriam devolvidos, e acredita que perda de pontos e multa são os cenários mais prováveis, mas ainda se sente prejudicado pelo que ocorreu naquela época.
O caso ilustra também por que os possíveis efeitos sobre os rivais do City vão muito além de uma simples mudança na tabela. Títulos, oportunidades em competições europeias, premiações e momentos que definiram carreiras podem entrar em pauta.
No que se refere às copas nacionais, a situação seria ainda mais complexa. A Premier League não organiza a FA Cup nem a Copa da Liga, e qualquer revisão histórica dependeria também das entidades responsáveis por essas competições. Até o momento, nada disso foi decidido.
O Manchester City aguarda a definição das punições e já anunciou sua intenção de recorrer. As acusações abrangem exatamente o período em que o clube passou de aspirante a se tornar uma potência do futebol inglês.
Se a punição afetar apenas o futuro, as consequências já serão significativas. Mas, se também abranger os títulos do passado, o futebol inglês enfrentará um problema ainda maior: decidir o que fazer com alguns dos momentos mais icônicos de sua história.
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