O anúncio do reajuste do Bolsa Família pode ter um efeito eleitoral mais limitado do que o esperado — e até contraproducente junto à classe C. É o que avalia Christopher Garman, diretor-executivo do Eurasia Group, em entrevista ao WW. Segundo ele, pesquisas qualitativas indicam que parte da população está associando o programa a um desincentivo ao trabalho e a uma percepção de injustiça social.
Para Garman, o cenário atual é bem diferente do verificado quatro anos atrás, quando aumentos em benefícios sociais geravam ganhos políticos mais claros.
“O benefício eleitoral de dar um aumento para o Bolsa Família hoje é bem menor do que era quatro anos atrás”, afirmou.
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Reação da classe C ao programa
Segundo o diretor-executivo do Eurasia Group, famílias que recebem o Bolsa Família — atualmente no valor de R$ 600 — podem, em alguns casos, somar rendimentos que chegam a R$ 800 com o Pé-de-Meia e ainda complementar a renda com bicos, alcançando cerca de R$ 2.000 mensais. Esse cenário, segundo Garman, gera incômodo entre trabalhadores que recebem entre R$ 3.000 e R$ 3.500 por mês.
“O que nós estamos vendo em algumas pesquisas é que a classe C está associando o Bolsa Família a desincentivo ao trabalho de um lado e injustiça, no sentido de que algumas famílias não merecem receber esse benefício”, disse.
Risco eleitoral do reajuste
Garman avaliou que o governo corre o risco de ampliar transferências para um segmento que já apoia majoritariamente o campo político atual, sem necessariamente conquistar novos eleitores. Segundo ele, entre os beneficiários do programa — que representam cerca de 24% da população —, o apoio já é de aproximadamente 60%, contra pouco mais de 20% para Flávio Bolsonaro.
“Você não tem muito ganho perante esse segmento”, pontuou.
Por outro lado, o analista alertou que o aumento pode provocar reação negativa justamente na classe média, segmento considerado estratégico eleitoralmente. “Você coloca o risco de gerar uma reação contrária no segmento da classe média que está precisando de apoio”, afirmou Garman.
Na sua avaliação, o único efeito positivo claro do anúncio seria o deslocamento do debate público para o tema do programa social, afastando a agenda do Supremo Tribunal Federal.
Ao concluir, Garman reconheceu a incerteza sobre o impacto final da medida: “Na aritmética de curto prazo, também não está claro qual vai ser o resultado final dessa jogada.”
Para ele, o Palácio do Planalto pode ter subestimado os riscos políticos da iniciativa, ao apostar em ganhos entre beneficiários enquanto arrisca perder apoio entre eleitores da classe C.
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