Em 2026, o maior confronto naval da Primeira Guerra Mundial completou 110 anos. Seu protagonista foi um navio de produção inglesa, mas “alma” brasileira: o HMS Agincourt, anteriormente chamado de Sultan Osman I, e, antes ainda, de Rio de Janeiro.
O navio deu poder de fogo inédito às tropas do Reino Unido contra a Alemanha, mas depois de brilhar no confronto em 1916, ficou atracado por anos e recebeu baixa definitiva em 1922.
A história foi contada pelo historiador britânico Richard Hough em seu livro de 1966.
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Brasil encomenda o maior navio da história para competir com vizinhos
As forças militares brasileiras no início do século XX precisavam de boas notícias. Além de revoltas internas e ameaças políticas, o setor estava defasado em relação às Forças Armadas de países como Argentina e Chile.
A defasagem era maior na Marinha, onde uma transição de poder radical estava prestes a acontecer.
Belfort Vieira, contra-almirante que assumiu a posição de ministro em 1912, tinha planos descentralizados e abordagem mais modesta para a modernização das embarcações e ampliação do poder de fogo.
O militar adoeceu pouco depois, em julho de 1913, e deu lugar ao almirante Alexandrino — que tinha a posição oposta. Para ele, que já havia sido ministro entre 1906 e 1910, um governo centralizado e avanços ambiciosos na frota brasileira eram o caminho para recuperar o prestígio.
O projeto começou ao ampliar atributos de dois navios encouraçados que estavam sendo produzidos em estaleiros ingleses a pedido do Brasil. Eles seguiam o formato do HMS Dreadnought, uma embarcação com canhões pesados e propulsão por turbinas a vapor que revolucionou na construção naval mundial.
As primeiras encomendas receberam os nomes de Minas Gerais e São Paulo. A que viria a seguir levaria a ambição além: um navio com 14 canhões de 305 milímetros, com três calibres diferentes, e valendo cerca de 2,7 milhões de libras. Seu nome era Rio de Janeiro.
Construção insatisfatória e crise financeira deixaram o projeto abandonado
No início de 1912, antes mesmo da transição de poder, oficiais da Marinha do Brasil começavam a se apresentar em portos ingleses para integrar a tripulação dos novos navios.
Ao verificar a construção, eles notaram “deficiências” nos sistemas de direção de tiro que não poderiam ser corrigidas por falta de tempo até a entrega, e dinheiro.
Quando assumiu o Ministério da Marinha, o almirante Alexandrino precisou lidar com uma grave crise financeira que pôs fim aos planos mirabolantes de modernização de frota. A solução encontrada para dar fôlego às contas foi vender o “Rio de Janeiro”.
O comprador inicial foi a Turquia, que chegou a rebatizar o navio: “Sultan Osman I”, em homenagem ao fundador da dinastia otomana. Mas a Inglaterra, com a grandiosa embarcação em seu território e uma guerra anunciada contra a Alemanha, não estava preparada para deixá-la ir.
Inglaterra assume a “paternidade” do HMS Rio de Janeiro
Em 2 de agosto de 1914, um grupo de soldados britânicos invadiu a empresa responsável pela construção do navio. A pequena tripulação turca responsável pela embarcação recém-comprada rendeu-se e deixou a Inglaterra tomar posse do então HMS Sultan Osman I.
Nos dois anos seguintes, o gigante de guerra seria enfim completo, bem a tempo de sua estreia na Batalha da Jutlândia.
Agora chamada Agincourt, ela emprestou o poder de seus 14 canhões para atingir a Frota de Alto Mar da Marinha Imperial Alemã.
O conflito envolveu cerca de 100 mil marinheiros e centenas de navios — dentre os quais HMS Agincourt era, de longe, o maior.
Os britânicos terminaram a batalha com mais perdas, mas mantendo o controle de seu espaço marítimo. O ex-Rio de Janeiro voltou a atracar e, depois disso, nunca mais seria utilizado.
O fim do maior navio de guerra da história
Com o fim da disputa, os ingleses chegaram a propor ao governo brasileiro a recompra do navio, mas não despertaram interesse.
Um tratado assinado em 1922 pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial impôs limites à construção de novas embarcações.
O HMS Agincourt, que já estava paralisado há anos, foi sacrificado pela Marinha Real Britânica como parte da redução de frota: foi vendido a uma companhia privada que o demoliu para reciclar suas partes.
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