Estadão Rondônia - Sua fonte de notícias na cidade de ...

Segunda-feira, 14 de Setembro de 2026

Política

SBPC observa que ciência não é prioridade na campanha eleitoral

Com a política e os escândalos do caso Master ocupando o foco nacional, questões estratégicas cruciais para o futuro do Brasil estão sendo ignoradas no debate eleitoral.

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
SBPC observa que ciência não é prioridade na campanha eleitoral
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

No cenário atual, marcado por um intenso debate político e as revelações do caso Master, os desafios estratégicos que o Brasil enfrentará em breve, como o envelhecimento populacional, a transição energética e a necessidade de explorar os minerais críticos presentes em seu subsolo, ficam relegados a um segundo plano nas discussões eleitorais. Segundo Francilene Garcia, presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), os recentes escândalos e as disputas pessoais contribuem para a redução das discussões sobre tópicos essenciais para o futuro do país, tornando a ciência, a transição energética e a preparação para possíveis crises, como uma nova emergência sanitária, temas secundários.

Com um doutorado em engenharia elétrica e atualmente professora e pesquisadora na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Francilene lidera a SBPC desde 2025, a principal entidade de defesa da ciência e tecnologia no Brasil. Ela observa que tanto eleitores quanto candidatos parecem estar presos a uma falsa dicotomia: a ideia equivocada de que é necessário escolher entre a integridade das instituições ou a elaboração de um plano para o desenvolvimento do país. “O país acaba sendo obrigado a escolher entre discutir a integridade das instituições ou o projeto de desenvolvimento, quando as duas coisas fazem parte de uma mesma agenda”, destacou Francilene em entrevista exclusiva à Agência Brasil. Durante a conversa, ela também abordou temas como o envelhecimento populacional e a falta de envolvimento das candidaturas com questões científicas. Confira a íntegra abaixo:

 
Brasília (DF), 06/07/2026 - A presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Francilene Garcia. Foto: SBPC/Divulgação - SBPC/Divulgação

Agência Brasil: Quais temas a SBPC considera prioritários nestas Eleições Gerais?

Publicidade

Leia Também:

Francilene Garcia: Primeiramente, é crucial afirmar que, devido à crise, o país se vê forçado a escolher entre discutir a integridade das instituições ou o projeto de desenvolvimento, quando na verdade ambas as questões devem ser tratadas em conjunto. É vital ressaltar que a ciência brasileira ainda não teve espaço nesta campanha. Especialmente a ciência, que depende de estabilidade nas regras, um orçamento previsível e atenção, especialmente à medida que novas crises pandêmicas se aproximam. Esses tópicos têm sido discutidos de maneira periférica, uma vez que a agenda eleitoral está dominada por questões que não foram escolhidas pela sociedade. Na nossa perspectiva, há uma grande lacuna em relação às pautas que realmente importam. Por isso, lançamos o Observatório das Eleições para apresentar mais de uma centena de propostas de políticas públicas que consideramos essenciais para o desenvolvimento do país. Temos nos esforçado para envolver as candidaturas e qualificar os debates sobre temas como mudanças climáticas e seus efeitos nas cidades, além do risco de novas crises sanitárias e a transformação digital. Tais questões, no entanto, ainda não fazem parte das campanhas.

Agência Brasil: E não estão incluídos devido à gravidade da atual crise político-institucional e suas consequências, ou porque a ciência tradicionalmente é deixada de lado nos debates eleitorais?

Francilene: Historicamente, a ciência é deixada de lado. Isso teve uma mudança sutil em 2020, quando enfrentamos a crise sanitária devido à pandemia de covid-19, onde houve um aumento das discussões sobre o tema. Em 2024, com as enchentes no Rio Grande do Sul e as queimadas no Centro-Oeste, além da escassez hídrica no Norte e Nordeste, a questão climática também ganhou relevância. Contudo, no atual debate eleitoral, as questões relevantes para um projeto de nação são frequentemente ignoradas. Em países que lideram globalmente, observamos que tópicos como a exploração de terras raras, essenciais para a indústria da transformação digital, são amplamente discutidos. No Brasil, no entanto, houve uma diminuição da participação dos candidatos nos debates, assim como dos temas fundamentais para o futuro do país.

Agência Brasil: As estratégias da SBPC e as iniciativas para incluir a ciência nos debates eleitorais foram influenciadas pela gravidade da atual crise?

Francilene: Sim, com certeza. No Observatório das Eleições, temos pouco mais de uma centena de candidaturas que se comprometeram. Dentre elas, apenas uma é de âmbito federal e nenhuma é de âmbito estadual. Isso significa que nenhum candidato a governador se comprometeu com nossas propostas. Alguns candidatos a deputado federal e ao Senado tinham mostrado interesse, mas essa disposição também diminuiu recentemente. O fato de a crise política ter ocupado o centro das atenções neste momento eleitoral tem afastado outros temas, incluindo o financiamento da ciência. Enfrentamos um curto espaço de tempo antes das eleições em que escolhas terão que ser feitas sem soluções para problemas que afetam a vida de todos. E, ao monopolizar a agenda, essa crise revela uma situação complicada para a comunidade científica, que se vê obrigada a lidar com uma disputa de narrativas.

Agência Brasil: Mas, mesmo diante da gravidade das denúncias e dos fatos revelados, poderia a situação ser diferente? É possível discutir outros temas sem negligenciar a necessária fiscalização dos Poderes?

Francilene: Como entidade científica, não cabe a nós fazer julgamentos prévios sobre processos investigativos em andamento. Assim como também não deve ser a postura de qualquer cidadão. Essa foi, inclusive, a mensagem contida na nota divulgada pela SBPC, pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e por várias outras entidades científicas na semana passada. É essencial que o rito processual seja cumprido, garantindo o amplo direito à defesa. É crucial que a integridade das instituições e os legítimos protocolos estabelecidos na Constituição Federal sejam respeitados e seguidos dentro dos prazos legais. O complicado surge quando começamos a observar vazamentos de informações com interesses específicos, que acabam dominando o debate público e esvaziando a discussão sobre temas relevantes.

Agência Brasil: Além dos investimentos em educação, ciência e tecnologia, e da regulamentação da exploração das terras raras, quais outros tópicos a SBPC considera centrais para o Brasil?

Francilene: Uma discussão que já está sendo abordada na mídia diz respeito aos impactos da crise climática, que é uma realidade inegável. Precisamos continuar discutindo os efeitos do aquecimento global na vida no planeta, especialmente no Brasil e em nossos biomas. Todos estamos testemunhando o aumento dos eventos climáticos extremos e devemos seguir debatendo e implementando medidas para mitigar esses impactos, especialmente na agroindústria brasileira. De forma direta relacionada, há também a questão de novas crises sanitárias. Sabemos que elas ocorrerão, mas não sabemos quando. É necessário discutir como o Brasil, e especialmente o Sistema Único de Saúde (SUS), está se preparando. Precisamos melhorar as taxas de imunização e, para isso, devemos rever nossas estratégias, visto que parte da população ainda nega a importância das vacinas. Além disso, ao olharmos para as transformações digitais e os potenciais impactos da inteligência artificial, precisamos questionar que tipo de soberania o Brasil está construindo para a próxima década. Esses são temas essenciais que deveriam ocupar o centro do debate político eleitoral, mas ainda não estão presentes. Como mencionado anteriormente, a ciência ainda não faz parte da pauta das discussões entre os candidatos nesta eleição.

Agência Brasil: Por que isso acontece? A classe política não está conseguindo avaliar e priorizar os temas importantes para o futuro do país?

Francilene: É provável que sim. Essa é uma grande preocupação para a comunidade científica. Se analisarmos o futuro próximo, em mais de dez anos, quando teremos uma população maior de pessoas acima de 60 anos do que de indivíduos na faixa etária produtiva, nos perguntamos que tipo de soberania e autonomia estaremos construindo para o Brasil. O país se tornará novamente um mero exportador de matéria-prima? Essa é a vontade da população? Parte da classe política parece estar desconectada dos debates essenciais para o futuro do país, e isso é uma preocupação significativa para a comunidade científica.

Comentários:
Estadão Rondônia

Publicado por:

Estadão Rondônia

Saiba Mais

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!