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A glória no futebol é uma dualidade — é tanto coletiva quanto individual, com as vitórias do time frequentemente colocando o craque sob os holofotes. Nos últimos tempos, as forças do marketing e das redes sociais intensificaram essa competição.
As campanhas publicitárias das marcas de equipamentos esportivos concentram-se na grande estrela do time. Reels, shorts, stories e diversas outras formas de conteúdo celebram suas habilidades excepcionais, mesmo em jogadas que não influenciam diretamente o resultado do jogo. Por conta disso, muitos torcedores atualmente seguem mais um ídolo individual do que a própria equipe.
Meu neto, por exemplo, é um fervoroso torcedor do Flamengo. Entretanto, seu grande ídolo é Cristiano Ronaldo. Ele tem nove anos (meu neto, não o jogador, que é bem mais velho, e é aí que reside a questão). Assim, ele nunca presenciou o ídolo em seu auge. Não sei ao certo como ele chegou a essa preferência, mas é evidente que as mídias sociais têm um papel importante nesse processo.
Preciso ter uma conversa complicada com ele, pois acredito que, na última data Fifa, o ídolo dele ultrapassou todos os limites.
Cristiano Ronaldo na seleção de Portugal: Entre o ego e os recordes
Não importa quão brilhante seja — ou tenha sido — um jogador, ele não deve ditar as regras de escalação e substituições ao técnico. Cristiano Ronaldo parece estar tentando transformar seus companheiros na seleção portuguesa em meros coadjuvantes que apoiam a sua busca por recordes individuais. Essa é uma inversão total de valores em um esporte coletivo.
É verdade que eu preciso aceitar as limitações que vêm da minha formação, idade e país de origem. Cresci em uma época em que jogadores talentosos no futebol inglês eram frequentemente vistos com desconfiança, geralmente pela falta de combatividade. No Brasil, reconheço que a produção de tantos craques se deve à tolerância e privilégios dados ao talento.
Cristiano Ronaldo durante coletiva pela seleção de Portugal (Foto: IMAGO / Propaganda Photo)
No entanto, na incessante busca por equilíbrio, é necessário estabelecer limites. O comportamento de Cristiano Ronaldo mancha sua carreira na seleção portuguesa. É uma mancha pequena em comparação à sua trajetória, mas ainda assim uma mancha.
Acredito que é simples: a estrela brilha intensamente quando o coletivo está bem organizado. Por outro lado, o verdadeiro craque coloca seu talento à disposição do grupo. Se não, trata-se de um caso de ‘tu finish.’
Essa reflexão, naturalmente, nos leva a Neymar.
A postura de Neymar frente à Noruega e sua falta de liderança
Fiquei curioso para saber se o craque santista iria se destacar na Copa, portanto, assisti a várias de suas partidas no primeiro semestre e cheguei à conclusão — na simplicidade da minha opinião — de que sua condição física não permitiria.
É uma grande simplificação afirmar que os jornalistas eram contrários à sua convocação, enquanto os ex-jogadores eram a favor — ainda bem que não era assim, pois se fosse verdade, não estaria bom para os ex-atletas. Lembro que havia ex-jogadores defendendo que Neymar deveria ser convocado por ser um ídolo. Pois bem, que se comporte como tal.
Neymar pela seleção brasileira. Foto: IMAGO / DeFodi Images
Na partida contra a Escócia, ficou claro que, exceto em cobranças de falta, Neymar não estava apto para brilhar na Copa. Foi surpreendente quando Ancelotti decidiu colocá-lo em campo no segundo tempo contra a Noruega. Depois, o técnico reconheceu, com certa elegância, que a substituição foi inadequada. Longe de sua melhor forma, Neymar não consegue alcançar seu potencial. Contudo, seu comportamento é um assunto à parte.
Eu sempre — e reforço mais uma vez que minha opinião é insignificante — acreditei que, apesar de parecer um adolescente mimado, Neymar possui outros lados, sempre sendo muito querido no vestiário por seu espírito coletivo. Porém, o que ocorreu contra a Noruega não tem justificativa.
A Seleção precisava de seu ídolo — e se ele não consegue desequilibrar tecnicamente, ao menos deveria trazer serenidade e bom senso ao time.
Em vez disso, Neymar quase foi expulso por um pontapé violento. E depois, quando o Brasil ganha um pênalti, ele demora — quando o time tem apenas segundos — em provocações desnecessárias ao goleiro adversário. Pensando apenas em si mesmo, e não nas necessidades da equipe, sua atitude contrasta com a de um verdadeiro ídolo.
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